Em meio ao auge da janela de transferências do futebol europeu, período em que clubes movimentam bilhões de euros em busca de atletas capazes de elevar seu desempenho esportivo e gerar valor para suas organizações, proponho uma pergunta voltada ao desenvolvimento de atletas e aos modelos de gestão do futebol brasileiro: afinal, o que o mercado realmente compra quando contrata um atleta?
Talvez os resultados esportivos sejam apenas a consequência mais visível da capacidade de um país, de um clube ou de uma organização desenvolver pessoas com alto potencial de entrega esportiva em alto rendimento.
Não por acaso, o mais recente relatório financeiro da LaLiga dedica espaço para destacar o valor de mercado dos jogadores formados por seus próprios clubes. Em um documento essencialmente econômico, a formação aparece como um ativo estratégico. Os atletas desenvolvidos na Espanha representam, hoje, o maior valor de mercado agregado entre as cinco principais ligas europeias (€ 1,46 bilhão) e respondem por quase 20% dos minutos disputados na primeira divisão espanhola. Mais do que um dado financeiro, esse resultado parece refletir uma visão de longo prazo que ajuda a explicar por que o futebol espanhol continua produzindo resultados dentro e fora de campo.
Durante muito tempo, a resposta parecia óbvia: técnica, força física, velocidade e desempenho dentro de campo eram os principais critérios para justificar uma contratação. Eles continuam fundamentais, claro, afinal, não existe carreira de alto nível sem rendimento esportivo.
Minha hipótese, porém, é que as moedas de valor do futebol estão mudando. Técnica, desempenho físico e inteligência tática continuam sendo indispensáveis. Mas o contexto mudou. Nunca foi tão fácil comparar atletas. Plataformas conectam clubes e jogadores em escala global, enquanto “softwares” de “scouting”, inteligência artificial (IA), vídeos e uma quantidade crescente de dados reduzem significativamente a assimetria de informação sobre o desempenho esportivo. À medida que esses atributos se tornam mais acessíveis e comparáveis, outras competências passam a ganhar importância na geração de valor dos atletas.
Por isso, faço uma segunda pergunta: se cada vez mais clubes conseguem identificar jogadores tecnicamente semelhantes, onde estará a próxima vantagem competitiva?
Confio que esteja justamente naquilo que continua sendo mais difícil de medir.
Durante a última Copa do Mundo, chamou atenção a naturalidade com que diversos atletas concediam entrevistas em dois, três ou até quatro idiomas. O tema ganhou espaço em programas esportivos como uma curiosidade, mas não acredito que seja apenas isso. Vejo ali um sinal da mudança no perfil do atleta contemporâneo.
Dominar diferentes idiomas deixou de ser apenas uma habilidade pessoal e se tornou uma competência estratégica. Facilita a adaptação a novos países, acelera a integração ao elenco, aproxima o atleta da torcida, fortalece o relacionamento com a imprensa e amplia a exposição internacional de clubes e patrocinadores. Em uma indústria global, comunicar-se bem passa a fazer parte do que se espera de um atleta de alto rendimento.
O mesmo acontece com a capacidade de construir uma marca pessoal consistente. Erling Haaland é um excelente exemplo. Sua personalidade, seu estilo de comunicação, sua presença digital e suas parcerias comerciais demonstram que o valor de um atleta, hoje, ultrapassa os 90 minutos de jogo. Ele continua sendo contratado pelo que entrega em campo, mas potencializa esse valor ao conectar sua imagem a marcas, torcedores e oportunidades de negócio.
Outra evidência dessa mudança vem do jovem marroquino Ayyoub Bouaddi. Em uma reportagem recente, a Fifa destacou não apenas seu talento, mas também sua trajetória acadêmica: ele concluiu o ensino médio precocemente, venceu competições de oratória e cursa graduação em Matemática enquanto atua em alto nível. Não se trata de afirmar que estudar faz alguém jogar melhor. Mas talvez os ambientes mais preparados para desenvolver atletas também estejam formando pessoas mais preparadas para lidar com a crescente complexidade da carreira.
E ainda há outro aspecto que considero especialmente interessante: as organizações escolhem cuidadosamente as histórias que decidem contar. Quando a Fifa destaca a trajetória acadêmica de um jovem atleta, ela não está apenas descrevendo um jogador; ela está sinalizando quais atributos considera relevantes para o futuro do futebol.
Desenvolver atletas exige compreender melhor pessoas. E isso significa olhar para dimensões que durante muito tempo foram tratadas como secundárias no futebol: identidade, autoconhecimento, valores, capacidade de aprendizagem, comunicação e adaptação. Não porque substituam a técnica, mas porque potencializam tudo aquilo que acontece dentro de campo.
Essa reflexão também dialoga com uma experiência que acompanho há muitos anos. Quando comecei a estruturar a trajetória esportiva do meu filho, Lucas Rosa, hoje atleta do Ajax, tomamos decisões que, para muitos, pareciam deslocadas da realidade do futebol brasileiro. Além dos treinamentos e da valorização da educação formal, idiomas, educação financeira, desenvolvimento da comunicação, autoconhecimento e preparação para entrevistas passaram a fazer parte do projeto de carreira. À época, era difícil explicar por que investir tempo em competências que não apareciam em nenhuma ficha de avaliação técnica. Hoje, olhando para o perfil dos atletas que atuam nas principais ligas do mundo, tenho a impressão de que essas competências caminham para deixar de ser diferenciais e se tornar parte da formação de quem pretende construir uma carreira internacional.
Esse é um dos aprendizados que países como Espanha e França podem nos oferecer. Seus resultados não são fruto apenas da formação de jogadores tecnicamente mais qualificados, mas de ambientes capazes de desenvolver atletas preparados para aprender continuamente, adaptar-se, comunicar-se, conhecer a si mesmos e tomar decisões em contextos cada vez mais complexos. Em uma coluna anterior, apresentei o sistema francês de formação, que evidencia justamente uma estrutura nacional organizada para desenvolver pessoas e, como consequência, potencializar os resultados esportivos e econômicos dos clubes.
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O futebol continuará sendo decidido dentro de campo. Mas o valor de um atleta parece estar sendo construído muito antes e muito além do apito inicial.
A grande pergunta da próxima década não é apenas como formar jogadores melhores, mas como formar atletas capazes de gerar mais valor em um futebol cada vez mais global, conectado e complexo.
Muitas das próximas grandes transferências continuarão sendo explicadas pelos gols, pelos desarmes e pelas assistências. No entanto, acredito que, cada dia mais, o valor financeiro do atleta será influenciado por competências que ainda aparecem pouco nos relatórios de desempenho.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva
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