Em 2025, o Brasil recebeu US$ 553,7 milhões pela venda de atletas ao exterior e desembolsou US$ 234,7 milhões para contratar jogadores vinculados a clubes estrangeiros. O saldo de US$ 319 milhões foi o maior desde 2018.
A balança comercial brasileira fez o caminho inverso. O país exportou US$ 350,5 bilhões em bens no ano e importou US$ 290,8 bilhões, um superávit de US$ 59,7 bilhões (bem abaixo dos US$ 92,3 bilhões de 2023, queda de 35,3% em dois anos). No mesmo período, o saldo com passes de atletas subiu 37,6%, de US$ 231,8 milhões para os atuais US$ 319 milhões.
A comparação exige uma advertência. Passe de atleta não é um produto. O Banco Central (BC) registra essas operações na conta capital, sob a rubrica “ativos não financeiros não produzidos”, a mesma de licenças de marca, franquias e direitos de exploração de recursos naturais. A lógica é que o clube não produz o passe; ele detém um direito contratual e o cede.
A série do BC cobre atletas profissionais de todas as modalidades, ainda que o futebol responda por quase a totalidade do valor, e capta apenas o que entra por contrato de câmbio. Clubes podem manter recursos em contas no exterior, apesar de ser uma prática menos comum hoje diante da necessidade de caixa das equipes brasileiras. Já a Fifa contabiliza o valor pactuado quando a transferência é registrada no “Transfer Matching System” (TMS), plataforma em que os dois clubes envolvidos precisam declarar a operação.
Volume alto, valor concentrado
Em número de operações, o Brasil é o país mais movimentado do mundo (nos dois sentidos). Em 2025, os clubes brasileiros registraram 1.190 entradas e 1.005 saídas internacionais, liderando ambos os rankings da Fifa. Em 2024, haviam sido 1.102 e 1.113, respectivamente. São mais de 2 mil deslocamentos por ano.
O movimento de jogadores é quase simétrico, mas os valores não. O contraste aparece com nitidez na relação entre Brasil e Portugal, o maior fluxo bilateral de transferências do mundo em 2025. Foram 184 saídas, que renderam US$ 69,2 milhões aos clubes brasileiros (US$ 376 mil por atleta), enquanto as 180 entradas custaram US$ 35,1 milhões (US$ 195 mil por atleta). Percebe-se que o valor médio na ida foi quase o dobro .
O Brasil não é apenas exportador líquido de jogadores; é um entreposto que compra jogadores, principalmente sul-americanos, com passes mais baratos e vende talentos formados com lucro.
O índice de Grubel-Lloyd mede o quanto um país compra e vende do mesmo produto, em uma escala em que 1 indica fluxos perfeitamente equilibrados nos dois sentidos. Nas transferências brasileiras de 2025, ele chega a 0,92, quando calculado sobre a contagem de operações da Fifa, e a 0,60, quando calculado sobre os valores em dólar do BC. O primeiro mede circulação de pessoas, restrito ao futebol; o segundo, de caixa, considerando-se atletas de todas as modalidades.
Esse é o padrão clássico de comércio intraindústria vertical, o mesmo de cadeias de montagem em que um país importa e exporta o “mesmo” produto em estágios distintos de valor agregado, como no caso do México, que recebe componentes e exporta bens industriais acabados para os Estados Unidos por meio de sua indústria maquiladora.
Vale ressaltar, porém, que Portugal não é destino final. Assim como o Brasil, trata-se de uma plataforma de reexportação. O clube português compra barato, oferece competição europeia, passaporte comunitário e vitrine, e revende com margem.
Portugal faz com o Brasil o que o Brasil faz com Paraguai e Bolívia, entre outros, comprando de quem está abaixo e vendendo para quem está acima. Quem paga o preço alto está no fim da fila: só os clubes ingleses gastaram US$ 3,82 bilhões em taxas de transferência em 2025, enquanto os europeus, somados, chegaram a US$ 10,72 bilhões.
Cabe uma ressalva sobre o fluxo de volta. A Fifa conta transferências entre clubes, sem distinguir nacionalidade. Assim, boa parte dos 180 jogadores que desembarcaram no Brasil é de brasileiros retornando, não de portugueses chegando, o que pode ajudar a explicar o valor médio mais baixo nesse sentido.
A gravidade da bola
O modelo gravitacional prevê que o fluxo de comércio entre dois países cresce com o produto de suas massas econômicas, ou seja, do Produto Interno Bruto (PIB) de cada um, e cai com a distância entre eles. No caso brasileiro, comercializamos com Estados Unidos e China pelo tamanho de suas economias, e com a Argentina e outros países sul-americanos por sua proximidade.
A princípio, parece que o modelo não explica o fluxo de jogadores. A versão simples fracassa, e os dados do Observatório do Futebol (Cies), que acompanha os atletas em atividade em 135 ligas na mesma data de cada ano, mostram por quê. Em 1º de maio de 2025, havia 1.418 brasileiros atuando fora do país, recorde da série.
Portugal lidera com folga, com 182 atletas recebidos. Depois vêm Japão (88), Coreia do Sul (67), Indonésia (57) e Emirados Árabes Unidos (54). A Inglaterra aparece apenas em sétimo, com 41. Itália (31), Espanha (29) e França (18) recebem menos brasileiros que Hong Kong e Malta.
Por incrível que pareça, as maiores ligas mundiais não são as que recebem mais jogadores do Brasil, nem a distância espacial ajuda a explicar a movimentação. O modelo só volta a funcionar quando a distância deixa de ser geográfica.
Na formulação ampliada usada há décadas na literatura empírica, entram variáveis como língua comum, laços coloniais, diáspora e barreiras institucionais. É exatamente aí que o futebol brasileiro se encaixa. O que separa São Paulo de Lisboa não é o Atlântico; já o que separa São Paulo de Milão é a cota de extracomunitários (o limite de jogadores de fora da União Europeia que cada liga permite inscrever por elenco). A fricção relevante é regulatória e linguística, não quilométrica.
Além disso, a venda de atletas mais jovens exige que eles amadureçam em uma liga intermediária, uma espécie de entreposto, como é o caso das ligas portuguesas, japonesas e árabes.
O que observar em 2026
Vale notar que, nos últimos anos, o crescimento do fluxo não foi resultado do aumento do volume, mas do valor negociado. As receitas com passes subiram 56% em dois anos, mas as despesas subiram 92%. Ou seja: o superávit cresceu em dólares, mas a margem encolheu.
Em 2018, cada dólar que os clubes brasileiros gastavam no mercado internacional trazia US$ 6 de volta. Em 2023, eram US$ 2,89, e em 2025, US$ 2,36, a menor relação da última década.
Segundo o consultor Cesar Grafietti, em entrevista à Folha de S.Paulo, o Brasil vende atletas cada vez mais jovens e gasta cada vez mais, reflexo do caixa das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e das casas de apostas. Se as “importações” continuarem acelerando acima das “exportações”, o superávit pode virar uma conta bem menos confortável para clubes que, segundo ele, tiraram quase 30% de suas receitas em 2025 da venda de jogadores.
O grande desafio do futebol brasileiro para os próximos anos, impulsionado pela consolidação das SAFs e pela profissionalização da gestão, é aumentar a sua própria massa econômica interna. No modelo gravitacional, massa é PIB; no futebol, o análogo é a receita doméstica dos clubes.
Somente gerando receitas robustas associadas aos direitos de transmissão, ao engajamento e aos licenciamentos, o Brasil conseguirá aumentar sua força de gravidade própria, retendo o talento local por mais tempo e transformando a exportação de jogadores em lucro estratégico, não em necessidade de subsistência.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Alexandre Gaino é professor de Economia no curso de Administração da ESPM
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