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Samanta Vicentini, especial para a Máquina do Esporte

Samanta Vicentini

6 min de leitura

Análise

54% e o silêncio mais caro da história

Acordo coletivo não escrito de que o Brasil para em Copa do Mundo não existe mais por diversos motivos; para os patrocinadores e agências com grandes investimentos em ativação, será necessário segmentar

Samanta Vicentini, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

11/05/2026 05h35

Jogadores da seleção brasileira comemoram gol marcado em amistoso contra a Tunísia - Rafael Ribeiro / CBF

⚡ Máquina Fast
  • 54% dos brasileiros demonstram desinteresse pela Copa do Mundo de 2026, maior índice já registrado desde 1994.
  • A seleção brasileira perdeu seu papel unificador devido a desempenho ruim, polarização política e vínculo fragilizado com os torcedores.
  • O consumo em torno da Copa está mais segmentado, com menor engajamento em espaços públicos e grande desinteresse feminino, exigindo novas estratégias de relacionamento.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Durante décadas, o Brasil parou. Literalmente. Ruas vazias, escritórios fechados mais cedo, crianças dispensadas da escola. A Copa do Mundo não era apenas um evento esportivo; era um acordo coletivo não escrito de que, por algumas semanas, o futebol valia mais do que qualquer outra coisa.

Essa época acabou. E os dados de abril confirmam o que o mercado já sentia, mas preferia não nomear.

Uma pesquisa do Datafolha com 2.004 pessoas, realizada entre 7 e 9 de abril, mostrou que 54% dos brasileiros não têm interesse em acompanhar a Copa do Mundo de 2026. É o maior índice de indiferença já registrado desde que o instituto começou a medir esse termômetro, em 1994. Naquele ano, 56% declaravam forte interesse no torneio. Hoje, apenas 17% dizem o mesmo. Em três décadas, a seleção brasileira não perdeu apenas títulos. Perdeu o que nenhum resultado esportivo reconstrói rapidamente: o desejo do público de se importar.

Para quem trabalha com relacionamento e fidelização de torcedores, esse número tem um nome técnico preciso. Não é desinteresse passageiro. É “churn”, o abandono silencioso de quem um dia foi fã.

O campo explica uma parte, mas só uma parte

A leitura mais imediata coloca a culpa no desempenho recente da seleção, e não está errada. Encerrar as Eliminatórias em quinto lugar, pior colocação da história, destroçou qualquer narrativa de favoritismo. A confiança no hexa chegou ao menor nível registrado: apenas 29% dos brasileiros acreditam que a seleção pode ser campeã. Em 2014, mais da metade do país apostava nisso.

Mas atribuir o problema só ao campo é uma análise incompleta, e o mercado não pode se dar ao luxo de parar por aí.

A camisa amarela passou a última década sendo disputada como símbolo político. Esse processo produziu algo que raramente se vê no marketing esportivo: uma marca que divide. O que durante gerações funcionou como o único denominador comum do brasileiro, capaz de reunir na mesma torcida pessoas de realidades opostas, passou a carregar um peso ideológico que muita gente simplesmente não quer mais vestir. O Datafolha mostrou que o desinteresse está distribuído de forma quase idêntica entre eleitores de espectros políticos diferentes. Não é uma rejeição de um lado só; é um afastamento generalizado de um símbolo que perdeu sua função original de unir.

Há ainda uma terceira camada, menos debatida. A geração atual de jogadores foi formada fora do Brasil. Eles chegam à seleção como personagens conhecidos pelas redes sociais, mas sem o vínculo construído pela presença, aquele que se forma quando você acompanha um atleta no clube, semana a semana, na derrota que dói e na vitória que a cidade inteira sente junto. Vinicius Júnior é um fenômeno global. Mas fenômeno global e ídolo local são coisas diferentes. E, no relacionamento com o torcedor, essa diferença importa mais do que qualquer estatística de bola no fundo da rede.

O ranking que o Brasil não deveria liderar

O estudo “Rumo ao Mundial”, da Worldpanel/Numerator, cruzou dados de seis países da América Latina. O Brasil ficou na última posição de engajamento: 26% dos consumidores declararam não ter interesse em assistir a nenhuma partida, maior índice entre todos os países analisados.

Na Argentina, esse número foi de 4%.

Esse contraste precisa ser lido com cuidado, porque ele derruba o argumento de que “o futebol perdeu apelo no mundo”. Não perdeu. A relação de outros países da região com o torneio segue intensa. O que está fragilizado é algo mais específico: o vínculo do brasileiro com a própria seleção. São problemas diferentes, com causas diferentes, e que exigem respostas diferentes.

O que os dados de consumo estão dizendo para as marcas

90% dos brasileiros que pretendem assistir à Copa farão isso em casa. 57% em reuniões privadas com amigos e familiares, sem bares, sem espaços públicos. E 49% dos que pretendem acompanhar os jogos não fizeram nenhum planejamento de compra relacionado ao evento.

Esse é o perfil de quem assiste porque o jogo está passando, não de quem organizou a semana em torno da partida.

Para os patrocinadores e agências com grandes investimentos em ativação, esse cenário tem uma implicação direta: o modelo de Copa como evento de massa que mobiliza o país inteiro não se aplica da mesma forma em 2026.

A conversão acontecerá, mas ela exigirá segmentação. O torcedor apaixonado (que ainda existe, e não é pouco) tem taxa de compra via e-commerce de 44,7%, contra 18,9% entre os desinteressados, segundo a mesma pesquisa. Ele é conectado, tem intenção de consumo real e responde a experiências que fazem sentido para ele. A comunicação genérica pensada para alcançar todo mundo ao mesmo tempo tende a não chegar em ninguém com profundidade suficiente para converter.

Há ainda uma lacuna que o mercado está subestimando: 62% das mulheres brasileiras declararam desinteresse pela Copa. Esse dado não desaparece com uma ativação bem-feita durante o torneio. Ele revela uma falha estrutural de relacionamento da seleção com metade do país, uma falha que se construiu ao longo do tempo e que só se resolve com estratégia de longo prazo, presença consistente e escuta real do que essa audiência quer do futebol.

O que vem depois

Existe uma frase que circula toda vez que os números de interesse caem antes de uma Copa: quando a bola rolar, o brasileiro volta. A história dá alguns exemplos que sustentam esse argumento.

Mas confiar nessa frase como estratégia em 2026 é uma aposta que merece ser feita com os olhos abertos. O desinteresse desta vez não é pré-jogo. É acumulado. São anos de frustrações somadas, de símbolo desgastado, de jogadores distantes e de uma relação que foi sendo negligenciada sem que ninguém identificasse exatamente o momento da virada.

O hexa pode chegar. Mas se chegar para uma torcida que não estava esperando por ele, o título resolverá apenas o problema esportivo. O problema de marca continuará onde está, e precisa de muito mais do que 90 minutos para ser revertido.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Samanta Vicentini é especialista em Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM) e estratégias de relacionamento e fidelização de fãs. Com passagens nos programas de sócio-torcedor de Flamengo, Palmeiras e Vasco, acumula experiência no uso de dados para fortalecer o vínculo entre clubes e torcedores, gerando recordes de retenção e faturamento

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