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Moises Assayag, especial para a Máquina do Esporte

Moises Assayag

4 min de leitura

Análise

Clubes brasileiros precisam atacar as causas dos problemas, não apenas aliviar os sintomas

Sustentabilidade não é apenas conseguir recursos para atravessar uma dificuldade; é saber usá-los para competir, investir e crescer sem comprometer o futuro

Moises Assayag, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

18/10/2026 10h00

Jogadores do Corinthians comemoram gol marcado nas quartas de final da Libertadores 2026 - Rodrigo Coca / Corinthians

⚡ Máquina Fast
  • Clubes brasileiros enfrentam aumento de receitas e endividamento simultaneamente, revelando que recursos extras não resolvem problemas estruturais.
  • A dependência de receitas variáveis, como venda de jogadores, dificulta a saúde financeira sustentável dos clubes.
  • Gestão com visão, planejamento e governança é essencial para superar crises financeiras e garantir sustentabilidade no futebol.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

“Pode me dizer qual caminho devo tomar?”, pergunta Alice.

“Isso depende muito do lugar aonde você quer chegar”, responde o Gato.

Quando Alice diz que não sabe, ele conclui: “Então qualquer caminho serve”.

A conversa de Alice no País das Maravilhas ajuda a entender um desafio dos clubes brasileiros: sem saber aonde querem chegar, eles podem acabar escolhendo soluções que aliviam a crise de hoje, mas deixam os mesmos problemas para amanhã.

Nos últimos anos, o futebol brasileiro avançou em profissionalização, governança e controle financeiro. Aumentar receitas, buscar investidores e renegociar dívidas são medidas importantes. Em momentos difíceis, podem ajudar o clube a pagar compromissos e manter as atividades. Mas, sozinhas, não garantem que as contas estejam equilibradas.

Os números recentes mostram por que essa diferença importa. Em 2025, os 20 clubes da Série A do Brasileirão analisados pela EY tiveram R$ 14,9 bilhões em receitas, 33% a mais que no ano anterior. Ainda assim, o endividamento líquido também cresceu: chegou a R$ 14,3 bilhões, alta de 15%. Em outras palavras, entrou mais dinheiro, mas a dívida não diminuiu.

Uma parte importante da receita veio das vendas de jogadores: R$ 3,9 bilhões. Essas vendas podem gerar recursos valiosos, mas variam de um ano para outro. Por isso, ao avaliar a saúde financeira de um clube, não basta olhar para o total arrecadado; também é preciso perguntar quanto vem de receitas mais previsíveis, quanto o clube gasta para manter sua operação e quais compromissos ainda precisa pagar.

É como tomar um antitérmico: a febre cede e o alívio vem, mas a causa continua sem tratamento. Um aporte, um empréstimo ou a venda de um atleta podem aliviar a falta de caixa por algum tempo. Mas, se o clube continua gastando mais do que arrecada ou toma decisões sem planejamento, a dificuldade pode voltar.

Para enfrentar a falta de caixa, portanto, é preciso entender como o clube chegou àquela situação. As receitas estão sendo bem administradas? Os gastos cabem no orçamento? O clube depende de entradas excepcionais para pagar despesas recorrentes? As decisões de hoje ajudam a construir uma situação melhor nos próximos anos?

A resposta duradoura passa por gestão, planejamento e governança: como o clube define suas prioridades, toma decisões e distribui responsabilidades. A solução financeira precisa fazer parte de um plano maior, capaz de organizar essas áreas e reduzir a dependência de medidas emergenciais.

O primeiro passo é definir aonde o clube quer chegar e que tipo de clube pretende ser. A isso chamamos visão. A visão orienta a estratégia; a estratégia dá direção ao planejamento, com metas de curto, médio e longo prazos; e o planejamento precisa virar ações concretas, com responsáveis e acompanhamento.

Essa continuidade é difícil em clubes marcados por eleições frequentes, mudanças de comando e disputas internas. Muitas vezes, o desempenho de uma gestão é julgado principalmente pelos resultados em campo durante o mandato. Mas decisões financeiras tomadas hoje podem afetar o clube por muito mais tempo. Sem objetivos compartilhados, cada nova gestão corre o risco de mudar o rumo da anterior sem resolver os problemas que se acumularam.

Com visão e planejamento, o clube pode administrar melhor suas receitas e seus ativos, avaliar o uso de cada recurso e buscar soluções financeiras compatíveis com sua realidade. Captar dinheiro deixa de ser apenas uma resposta à crise e passa a fazer parte de um plano para equilibrar as contas, sustentar a operação e investir com responsabilidade.

Problemas acumulados ao longo de anos não se resolvem de uma hora para outra. A solução exige planejamento e coragem para mudar a forma de administrar o clube, mesmo que os resultados não apareçam imediatamente. Sustentabilidade não é apenas conseguir recursos para atravessar uma dificuldade; é saber usá-los para competir, investir e crescer sem comprometer o futuro.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Moises Assayag é especialista em finanças corporativas e finanças no futebol

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