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Reginaldo Diniz, especial para a Máquina do Esporte

Reginaldo Diniz

11 min de leitura

Análise

Dos gramados às urnas: Por que ainda decidimos tão mal?

Do monitoramento da Fifa na Copa do Mundo às eleições gerais no Brasil, desafio de transformar "bando de dados" em inteligência operacional é o "x" da questão

Reginaldo Diniz, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

07/10/2026 05h40

Congresso Nacional, em Brasília (DF) - Roberto Castro / Ministério do Turismo

⚡ Máquina Fast
  • Fifa processou 70 milhões de pontos de dados na Copa do Mundo de 2026, mas o impacto prático desses dados na tomada de decisões não está claro.
  • O sistema Prumo usou dados do TSE para projetar resultados eleitorais com alta precisão, mas a transparência sobre erros e limites das projeções é essencial para credibilidade.
  • No esporte, o uso eficaz de dados depende de integrar informações entre setores e agir rapidamente, evitando análises superficiais que não geram mudanças concretas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Na minha última coluna para a Máquina do Esporte, escrevi sobre aquilo que nenhum sensor consegue medir em Novak Djokovic. Dá para acompanhar cada batimento, cada passada e cada minuto de recuperação de um atleta, mas nenhum desses números resolve o conflito de quem começa a imaginar a vida longe da quadra. Saí daquele texto com a sensação de que faltava a outra metade da conversa. Se reconhecemos os limites da tecnologia, precisamos também cobrar competência para usar aquilo que ela já consegue entregar. E, convenhamos, ela já entrega muito.

Duas cenas recentes ajudam a contar essa outra metade. Uma vem da Copa do Mundo de 2026 e a outra, da noite do último domingo (4), quando milhões de brasileiros acompanharam a apuração do primeiro turno com o celular na mão. Parecem mundos distantes, mas obedecem à mesma lógica, até porque governo e esporte colidiram-se também recentemente com a MP das Apostas, mas isso é outro assunto tão espinhoso quanto esse. Entretanto, nos dois casos, a informação chega sem parar, precisa ser interpretada às pressas e perde valor a cada minuto. E mesmo que uma resposta seja correta, depois que a oportunidade passou pode até servir como relatório, mas já não serve mais para nenhuma decisão.

Copa do Mundo

Para não perder o prumo, vamos começar pela Copa do Mundo. Em uma publicação de 24 de setembro, o Sports Business Journal (SBJ) informou que a Fifa processou mais de 70 milhões de pontos de dados durante o Mundial. O registro destacou a participação de Caio Dimov, responsável por inteligência de negócios (business intelligence) e inteligência analítica (analytics) da competição, no AXS Drive, em um debate sobre como acelerar a transformação dos dados de eventos ao vivo em informação útil para quem está gerindo a operação.

Esse número impressiona. 70 milhões. Confesso que foi isso que me fez parar a leitura. A pergunta empresarial, porém, veio depois dele. Quais problemas foram identificados? Que decisões mudaram? Quanto tempo se ganhou entre perceber uma ocorrência e respondê-la? Sem essas respostas, o volume mostra o tamanho do processamento, mas não demonstra, sozinho, o retorno do investimento; e número grande abre conversa, mas quem presta contas e o que se fez com os dados é o que realmente importa.

Esse raciocínio vale para qualquer estádio, de uma final de Copa a uma terça-feira de Série B. Identificar uma concentração de público em um portão às 20h40, com o jogo marcado para as 21h30, permite abrir outra entrada, reforçar a equipe e evitar que o torcedor perca o início da partida na fila. Aprendi isso há alguns anos com meus amigos Bruno Dias (o Batata), que atua com gestão e inteligência de dia de jogo (matchday) do Flamengo, e Fabricio Serra, quando me apresentaram os relatórios de mapa de calor da Arena Castelão e do Estádio do Maracanã.

Consolidar o mesmo registro três dias depois ajuda a planejar o próximo jogo. Seguramente as análises são úteis, mas entregam valores diferentes e custam diferente, pois quem compra tecnologia precisa saber o que está contratando, e quem vende precisa ter a honestidade de dizer para que e quando usar. Caso contrário, teremos aquilo que sempre chamei com carinho de “bando de dados”.

Eleições

Agora, a ponte com o primeiro turno da nossa eleição. Na apuração do último domingo (4), a Brasil Paralelo (BP) apresentou o Prumo, sistema que, segundo a empresa, utiliza dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e modelos matemáticos para estimar resultados, enquanto os votos ainda estão sendo contados. A ferramenta procura padrões regionais para projetar o comportamento das urnas que ainda não entraram na conta.

Aqui cabe uma distinção que costuma se perder no calor da noite e até das torcidas organizadas de cada partido ou candidato(a). A base de resultados vem do TSE, e a camada de projeção é da ferramenta; aqui não se trata de pesquisa de intenção de voto nem de acesso antecipado à escolha de cada eleitor, mas sim de interpretar resultados já divulgados para estimar o que ainda falta conhecer. Guardadas as proporções, aqui aplica-se o mesmo exercício de um analista de desempenho no intervalo de um jogo, quando olha o primeiro tempo para projetar o segundo.

Segundo a BP, com 10% das urnas apuradas, o modelo indicava 80% de probabilidade de segundo turno. Perto de 65%, essa probabilidade chegava a 97%, com projeções de 47,7% para Flávio Bolsonaro e 44,3% para Lula. O boletim do TSE que consultei, já com 99,99% da apuração, registrava 47,03% e 45,16%, respectivamente. O segundo turno se confirmou, e a leitura geral do cenário foi correta.

Os números também pedem uma ressalva. A chamada da matéria da BP anuncia uma variação inferior a 0,6 ponto percentual. Quando se comparam os percentuais apresentados no próprio texto com os divulgados pelo TSE, porém, as diferenças ficam em 0,67 e 0,86 ponto. Pode até parecer detalhe, mas deixa de ser quando a precisão é justamente o argumento de venda. E reconhecer o potencial da ferramenta exige conferir também a maneira como seu desempenho é comunicado.

Avaliar um modelo pede mais do que um acerto destacado depois do resultado e é preciso conhecer as projeções ao longo da noite, os erros, os intervalos de incerteza e o desempenho em outras disputas. Uma probabilidade de 97% continua admitindo a possibilidade contrária, e quem já viu um time virar nos acréscimos sabe bem o peso daqueles 3%. Credibilidade estatística depende da disposição de mostrar os limites junto dos acertos.

A mesma cautela vale para a audiência. A BP divulgou mais de 16 milhões de visualizações e destacou 640 mil espectadores simultâneos. São medidas diferentes, e cada uma tem seu valor. Visualizações acumuladas não equivalem automaticamente a pessoas distintas, assim como o pico de simultaneidade não representa o alcance total. E aqui também poderíamos conectar com a ideia de seguidores nas redes sociais dos clubes: sem a metodologia de deduplicação, não cabe converter visualizações em indivíduos ou em total absoluto de seguidores.

Para quem trabalha com esporte, essa distinção deveria ser rotina, mas, sendo sincero, ainda não é, e não é raro encontrar apresentações em que tudo isso aparece somado em um único número, ou seja, bonito na tela e pobre como leitura do negócio. O conselho aplaude, o patrocinador anota, e ninguém sabe exatamente o que foi contado, a não ser que estejamos falando de uma entidade única, a exemplo do Comitê Olímpico do Brasil (COB) com seu Time Brasil. Dados precisam de fontes seguras.

Um clube pode saber quantos sócios tem e entender pouco sobre por que eles ficam. Pode vender ingressos e ignorar quantas tentativas de compra morreram no meio do caminho. Pode comemorar o alcance de uma campanha sem verificar quantas pessoas chegaram ao fim da jornada. Minha crítica não é ao dado, mas a como a gestão acomoda o indicador mais confortável e evita investigar o que ele deixa de fora.

Exemplo

Pense em uma situação hipotética. Uma torcedora decide, em uma terça à noite, finalmente se associar ao clube. Preenche o cadastro, escolhe o plano, tenta pagar e encontra um erro. Tenta de novo. Desiste e abre um chamado no atendimento. Na base comercial, aquela compra incompleta aparece como falta de interesse. A reclamação fica guardada em outro sistema. Se esses registros não conversam, dias depois ela recebe um cupom de desconto para “reconsiderar” a adesão, quando tudo o que precisava era conseguir pagar. O problema operacional vira despesa de marketing, e a torcedora, que chegou animada, sai com a impressão de que ninguém do outro lado a enxergou.

O que fazer

É nessa conexão que a inteligência, seja artificial ou de construção humana, começa a produzir valor. Bilheteria, programa de sócios, loja virtual e atendimento precisam ajudar a compreender uma mesma jornada, com finalidade clara e cuidado no uso das informações, como pede a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). A tecnologia deve permitir uma intervenção pertinente e a organização precisa ter alguém (ou de parceiros de mercado) com essa especialidade, com nome, cargo e autonomia, capazes de transformar dados em informação e seguir para a ação em uma cadeia produtiva de integrações que permitam que a torcedora consiga de fato ser vista e haja de fato o uso do valor que isso exige.

Também precisamos abandonar a ideia de que a aparência técnica encerra uma discussão. No esporte e na política, um gráfico pode informar ou apenas emprestar respeitabilidade a uma conclusão escolhida de antemão. A qualidade de uma análise se revela quando o resultado contraria a preferência de quem a encomendou. É nesse momento que fica claro se a organização queria aprender ou apenas confirmar o que já pensava.

O paralelo entre a Fifa e o Prumo está na capacidade de processar informação a tempo de torná-la útil. Os contextos e as consequências, no entanto, são diferentes. Na apuração eleitoral, a projeção informa o público sobre votos que já estão na urna, e nada do que o modelo disser muda o resultado. Na gestão esportiva, uma análise pode orientar ações capazes de alterar o desfecho comercial ou operacional. Antecipar um resultado e agir para transformá-lo exigem avaliações distintas. O esporte tem a sorte de estar no segundo grupo.

Conclusão

Por isso, o próximo salto do esporte brasileiro não virá da compra de mais uma plataforma ou da importação de promessas de outros players apenas por status ou até dinheiro de curto prazo. Seja qual for o provedor das soluções de tecnologia ou inteligência, é necessário aparecer na rotina de decisão. Qual sinal exige uma ação? Quem responde por ela? Em quanto tempo? Como saberemos se funcionou? Sem resposta para essas quatro perguntas, mais um painel apenas acrescenta uma tela à estrutura que já existia, e a reunião de segunda-feira continua igual à da semana anterior.

Volto a Djokovic porque é ali que esta reflexão se completa. Há dimensões humanas que nenhum indicador esgota, mas isso não diminui o papel dos dados. Na verdade, torna o julgamento mais necessário e aumenta a responsabilidade de quem dispõe de informação. O torcedor que cancela o plano, o eleitor que escolhe seu candidato e o atleta que insiste em mais uma temporada carregam histórias que não cabem inteiras em uma variável.

Mesmo diante do gol aberto, um atacante pode escolher mal e mandar a bola para fora. Na política, apesar de tantas informações disponíveis sobre candidatos e suas trajetórias, muitas vezes decidimos como quem torce em um Fla-Flu, defendendo o nosso lado até quando os fatos o contradizem. Na vida, ao começar um projeto, insistir em um caminho ou reconhecer a hora de parar, também deixamos que o medo, o orgulho e a paixão se sobreponham aos dados e à lógica.

Nenhuma análise nos livra de errar ou sofrer, mas pode nos ajudar a evitar escolhas cujo preço continuaremos pagando por muito tempo. Depois de medir milhões de acontecimentos, a pergunta que fica é bastante humana: o que fizemos melhor quando passamos a enxergar?

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Reginaldo Diniz é cofundador e CEO do Grupo End to End

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