Nos próximos meses, encerrada a Copa do Mundo, os brasileiros irão ouvir à exaustão a palavra eleição. Primeiro porque neste ano teremos a escolha de presidente da República, 27 governadores, 54 senadores, 513 deputados federais e 1.059 deputados estaduais ou distritais.
Passada essa disputa, que deve ocasionar muito choro e ranger de dente em um dos lados (além de famílias rompidas e talvez sem condições de se reconciliarem a tempo das festas de fim de ano), teremos a escolha dos dirigentes de importantes clubes brasileiros, que possuem mandatos trienais.
Em 2026, ocorrerão as eleições para as diretorias de Corinthians, São Paulo e Santos, por exemplo.
Das três, a mais complexa é a do Peixe, pois é a única entre os grandes paulistas que adota um sistema direto de votação. Ou seja, não é o Conselho Deliberativo quem escolhe o presidente, mas sim os sócios.
Tradicionalmente, a votação costuma ocorrer em dezembro, em geral no segundo fim de semana do mês. Porém, a recente reforma estatutária aprovada pelo Conselho Deliberativo alterou a data do pleito para outubro.
Ainda não está claro se essa regra valerá para este ano ou se passará a vigorar nas próximas eleições.
Apesar dessa proximidade teórica do dia da votação, o cenário político no Peixe é marcado pela indefinição. Marcelo Teixeira, o atual presidente, ainda não confirmou se será ou não candidato à reeleição.
O cenário esportivo atual não é dos mais favoráveis para esse tipo de anúncio. Mesmo com a recente melhora nos jogos pós-Copa, com direito a classificações obtidas nas Copas do Brasil e Sul-Americana, o clube ainda vive um momento delicado na Série A do Brasileirão, na 15ª posição, mas empatado em número de pontos com o 16º, Internacional, e o 17º, Grêmio.
Oposição se movimenta
Dos lados da oposição a Teixeira, dois nomes têm se movimentado abertamente, com direito a intensas atividades nas redes, buscando alcançar os sócios santistas.
Um deles é o advogado Ivan Luduvice, que atua como procurador do estado em Minas Gerais. Suas publicações nas redes são repletas de críticas ferrenhas ao atual presidente, a quem acusa de falta de transparência e de não saber explorar comercialmente o valor que o clube carrega.
Ele critica, por exemplo, o fato de o Fluminense possuir contrato de patrocínio máster com cifras superiores à do Santos, mesma aparecendo muito atrás do clube da Vila Belmiro nos rankings das maiores torcidas.
Em recente conversa com a Máquina do Esporte, ele disse ser favorável à adoção da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), mas desde que o processo se dê com transparência.
Ele questiona a proposta que vem sendo analisada pela atual diretoria, da SDC Sports, dos Estados Unidos. Luduvice quer saber quem são os proprietários da empresa.
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Wladimir Mattos
Apesar de não integrar os grupos mais tradicionais da política do Santos, Luduvice aposta no sistema de votação direto como um trunfo para poder chegar à presidência do Alvinegro Praiano.
Essa é também a esperança de Vladimir Mattos, outro nome que tem se mobilizado na oposição a Teixeira.
Em 2023, encabeçando a Chapa 2, ele disputou com Teixeira para definir quem sucederia Andrés Rueda na presidência do clube.
Mesmo derrotado (foi o menos votado, com 562 votos, contra 4.762 do vencedor), o empresário de 61 anos e que atua no ramo portuário continua a ser uma voz de peso entre os setores de oposição.
Mattos defende uma administração 100% profissional, corte de gastos, auditoria de dívidas e a transição do Santos para o modelo de SAF. Ele acusa Teixeira de manter o clube “refém” de um poder centralizado.
Nas últimas semanas, chegaram a circular informações de que estariam ocorrendo possíveis negociações entre Mattos e Luduvice, para que ambos se unissem numa chapa de oposição. Porém, até o momento nada foi oficializado.
Maruca & Marino
Enquanto o flerte eleitoral entre Mattos e Luduvice patina, com grandes chances de não ser sacramentado, a união Maruca & Marino vem com tudo para a disputa da eleição deste ano.
Para quem não acompanha a política do Santos, a expressão talvez remeta àqueles nomes de dupla sertaneja das antigas. O fato é que a chapa, que será oficializada na próxima terça-feira (11) em São Paulo (SP), reúne os nomes mais votados (depois de Marcelo Teixeira, claro) na última eleição do Peixe.
Os empresários Maurício Maruca e Rodrigo Marino foram candidatos separadamente na sucessão a Rueda em 2023, alcançando juntos 2.451 votos, que lhes garantiram, respectivamente, a segunda e a terceira colocação geral.
Maruca, que será cabeça de chapa, tem procurado adotar um tom mais sóbrio, afirmando que não faz “oposição por oposição” e defendendo uma gestão moderna para o clube.
A união das duas chapas envolve estratégias que vão além da disputa presidencial propriamente dita.
Atuando isoladamente na última eleição, os grupos de Maruca e Marino foram até bem votados, mas não o suficiente para garantir vagas no Conselho Deliberativo do Santos.
O Estatuto do clube contém uma cláusula de barreira, em que, para conseguir espaço no órgão, uma chapa precisa alcançar pelo menos 20% dos votos válidos.
Se os grupos de Maruca e Marino estivessem unidos na ocasião, eles teriam conseguido 27,89% dos votos, garantindo espaço no Conselho.
Como as duas chapas derrotadas (assim como as demais) ficaram abaixo dos 20%, o grupo de Teixeira abocanhou 100% das cadeiras do órgão, mesmo tendo obtido 54,19% dos votos válidos.
Nesse cenário, enquanto o atual mandatário teve plena liberdade para governar, a oposição ficou sem condições concretas de tentar barrar qualquer medida de discordasse, dentro do clube.
As conversas entre Maruca e Marino tiveram início ainda em 2023. Desde então, eles vinham regularmente trocando ideias sobre o futuro do Santos, até que decidiram lançar uma chapa conjunta.
O fator Quaresma
O xadrez político do Santos ganhou um complicador a mais em março deste ano, com a saída de José Renato Quaresma do cargo de diretor das categorias de base do clube.
Considerado uma das vozes mais influentes da atual gestão, nos últimos dias ele tem publicado nas redes sociais conteúdos relacionados à política do Peixe, em um tom mais crítico a Marcelo Teixeira, ainda que com notas mais amenas que as adotadas pelos pré-candidatos de oposição.
O ex-dirigente é visto como uma alternativa tanto para encabeçar uma chapa, por assim dizer, dissidente (que poderia agregar lideranças ligadas à gestão de Teixeira, mas atraindo figuras de outros espectros políticos) quanto para liderar um grupo de oposição.
O ex-lateral Léo tem sido cotado como um possível vice, numa eventual candidatura presidencial de Quaresma. O bom relacionamento com ídolos é considerado um dos pontos fortes do ex-diretor, que seria visto com simpatia até mesmo por Neymar Pai.
Enquanto isso, Teixeira age com muita discrição, mas longe de permanecer de braços cruzados, abrindo espaço para possíveis reviravoltas no cenário político do Peixe.
Caboclo ressurge
Por falar em eleição no fim do ano, o ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) Rogério Cabloco tem procurado se cacifar como candidato no próximo pleito do São Paulo, para suceder Harry Massis.
O jornalista Gabriel Sá, do UOL, divulgou nas redes um vídeo em que o cartola aparece ao lado de conselheiros ligados ao grupo Força São Paulo.
Caboclo foi suspenso e em seguida afastado de forma definitiva do comando na entidade máxima do futebol brasileiro, depois de se tornar alvo de denúncias de assédio sexual e moral que teriam sido praticados no exercício do cargo.
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Vale lembrar que, das três acusações feitas contra ele, todas terminaram sem condenação judicial. Em 2023, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) deu baixa no último recurso pendente, declarando o ex-mandatário formalmente livre de acusações criminais
No vídeo em questão, um dos conselheiros do Força São Paulo sugere a realização de uma festa para o lançamento da candidatura de Caboclo, como forma demonstrar a força política do dirigente.
O encontro de apoio ao ex-manda-chuva da CBF contou com a presença do presidente do Conselho Deliberativo do São Paulo, Olten Ayres, que, após o impeachment de Julio Casares (de quem era aliado), aproximou-se do Força São Paulo e também do Salve o Tricolor Paulista, que não vê com bons olhos a candidatura de Caboclo.
O grupo prefere apoiar Marcelo Portugal Gouvêa, filho do presidente de mesmo nome, morto em 2008 e que havia liderado o clube nas conquistas da Copa Libertadores e do Mundial de Clubes, em 2005.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
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