Quem usa constantemente o Instagram ou o TikTok já deve ter percebido um movimento interessante: a proteção dos bons modos e da cultura na corrida de rua. São centenas de vídeos apontando erros e inflamando cada vez mais o tribunal da internet.
Na minha opinião, se o Brasil realmente quer sediar uma Major, seleto grupo das maratonas mais importantes, prestigiadas e concorridas do mundo, um dia, precisará conviver com um ambiente mais profissionalizado. Isso significa respeito a pelotões, regras mais rígidas, combate a fraudes, controle de acesso, segurança operacional e menos tolerância a comportamentos que, hoje, são relativizados. Porém, é inevitável questionar se estamos protegendo a corrida ou, na verdade, tornando-a menos acolhedora.
Antes, a corrida era vista como um ambiente extremamente acolhedor. Hoje, com milhões de participantes (no ano passado, a Ticket Sports vendeu 3 milhões de inscrições), influenciadores, grupos de corrida, conteúdos diários e provas cada vez maiores, parece que estamos assistindo ao surgimento de uma espécie de tribunal da corrida, o que acaba afastando novos praticantes.
Todo dia alguém está sendo julgado por alguma coisa: correr com celular na mão, correr devagar, correr rápido demais, largar em pelotão errado, postar o ritmo, não postar o ritmo, usar supertênis, não usar supertênis. Correr ficou difícil não porque exige preparo físico e mental, mas porque se enquadrar em uma nova convenção ficou quase impossível.
É claro que muitos desses erros precisam ser corrigidos, mas a reflexão aqui é: existe uma legião de novos entrantes na corrida, e naturalmente eles precisam ser educados. Veja bem: eles precisam ser educados, não “cancelados”.
Já que estamos em tempos de Copa do Mundo, tracei um paralelo com o futebol só para não perder o “hype”.
No futebol, o fanatismo sempre produziu fiscalizações de comportamento. Quem é torcedor de verdade, quem pode usar determinada camisa, quem entende do assunto e quem não entende. Na corrida, talvez estejamos vendo o nascimento de algo parecido. Não movido por clubes, mas por identidades e pertencimento.
Novamente repito: algumas dessas cobranças têm fundamento, pois tem coisa acontecendo por aí que é inadmissível, intragável. Mas será que não tem gente problematizando demais as pequenas causas e deixando de lado o que realmente importa?
Aqui na Ticket Sports, estamos produzindo um material sobre pipocas. Queremos entender a raiz do problema dessa cultura tão forte que o brasileiro tem. E essa é uma luta que vale lutar, porque é algo que prejudica demais organizadores, participantes e toda uma experiência pensada e criada para momentos únicos.
Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que a corrida de rua se consolidou no país justamente por seu caráter democrático; ela cresceu porque era inclusiva. O desafio, portanto, não está em restringir o acesso ao esporte, mas em encontrar um equilíbrio que permita continuar atraindo novos corredores sem comprometer a estrutura, a segurança e a qualidade da experiência oferecida a quem participa oficialmente das provas. A corrida continuará crescendo, se conseguir encontrar esse equilíbrio entre acolher novos corredores e preservar a experiência dos eventos.
Ah, e antes que eu me esqueça: se desligarmos o celular, boa parte dessas discussões desaparece. Ou seja, talvez seja hora de trocar os comentários pela rua e voltar a viver o esporte de verdade.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Gabriela Donatello é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Gestão de Marketing. Atualmente, é gerente de marketing da Ticket Sports, com uma trajetória de oito anos dedicada ao universo dos eventos esportivos, atuando em diversas frentes do setor
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