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Adalberto Leister Filho - São Paulo (SP)

Adalberto Leister Filho

6 min de leitura

Análise

Fragilidade institucional de Gianni Infantino reflete crise de governança da Fifa

Pressão de Uefa, Concacaf e AFC expõe fragilidade institucional e ausência de mecanismos de intermediação de poder na entidade

Adalberto Leister Filho - São Paulo (SP) • Colunista

13/08/2026 06h35

Frente e verso: Gianni Infantino, presidente da Fifa, cumprimenta Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol - Reprodução/Instagram @gianni_infantino

Frente e verso: Gianni Infantino, presidente da Fifa, cumprimenta Alejandro Domínguez, presidente da Conmebol, durante visita a Cáli, na Colômbia - Reprodução / Instagram (gianni_infantino)

⚡ Máquina Fast
  • Presidente da Fifa, Gianni Infantino, enfrenta oposição de confederações após tentar vender 21% dos direitos comerciais do futebol a investidores ligados a Donald Trump.
  • Crescimento financeiro da Fifa não foi acompanhado por mecanismos de governança sólidos, gerando conflitos internos e crise política.
  • A personalização do poder na Fifa, aliada à fragilidade institucional, aumenta o risco de instabilidade e crise na liderança de Infantino.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A Fifa vive um momento de tensão política que coloca em xeque a liderança do presidente Gianni Infantino. Até semanas atrás, o dirigente se referendava fortalecido pela realização da Copa do Mundo de 2026, a mais rentável da história, com receita recorde de R$ 15 bilhões.

No entanto, após a divulgação de planos, quase unilaterais, de vender 21% dos direitos comerciais do futebol a investidores externos, passou a enfrentar forte oposição de confederações como Uefa (Europa), Concacaf (América do Norte, Central e Caribe) e AFC (Ásia).

Além da falta de necessidade de capitalização após um Mundial divulgado como extremamente bem-sucedido financeiramente, o plano pareceu apenas uma forma de agradar aliados políticos da vez, já que o investimento viria de uma pessoa ligada à família de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos.

Delegação

Em um contexto às vésperas de uma nova eleição presidencial, Infantino colocou em risco mais um mandato. A Fifa pode ser entendida como uma entidade de democracia frágil, em que o presidente concentra poder sem mecanismos institucionais robustos de controle.

Guillermo O’Donnell, em seu estudo sobre democracias delegativas, estudou regimes políticos em que o líder, vencedor das eleições, se sente respaldado a governar o país como bem entender, limitado apenas pelas relações de poder existentes e pelo tempo constitucional de seu mandato.

Eleito pelo voto de federações nacionais, Infantino se arvorou a tomar decisões estratégicas, sem necessidade de prestação de contas. O presidente da Fifa enxerga a si mesmo como a encarnação da vontade geral das 211 federações, agindo como se a sua liderança fosse uma posse, e não um dever de ofício. Aliás, essa foi uma das críticas da carta conjunta das confederações dissidentes.

Para o cientista político argentino, que estudou as ditaduras e o processo de redemocratização da América Latina, esse modelo funciona enquanto há consenso, mas gera crises periódicas, muitas vezes insolúveis ao governante, quando suas decisões entram em choque com os interesses de seus antigos aliados, exatamente como acontece neste momento na organização que comanda o futebol mundial.

Institucionalização

Samuel Huntington, em “A Ordem Política nas Sociedades em Mudança”, toca em outro ponto que se relaciona com a fragilidade institucional da Fifa. O norte-americano argumenta que a modernização sem institucionalização leva à instabilidade.

No caso da federação de futebol, houve recentemente a expansão de receitas, vivenciada desde a Copa do Mundo do Catar 2022, passando pela criação de novos torneios de alcance global, como a Copa do Mundo de Clubes de 2025, até chegar à Copa nos Estados Unidos, Canadá e México. Tal sucesso comercial, porém, não foi respaldado, na mesma proporção, por mecanismos de governança.

A ausência de estruturas sólidas para equilibrar o poder presidencial e garantir transparência cria um ambiente propício a conflitos internos e desgaste político. A crise atual reflete exatamente esse descompasso: crescimento econômico sem institucionalização política.

Personalismo

Por fim, outro tópico essencial para pensarmos a crise na Fifa vem da personalização do líder. Essa característica de exercer o poder já foi analisada por diferentes autores ao longo do tempo. Na Fifa, bem como em outras entidades esportivas, também ocorre tal estratégia de poder.

Em suas comunicações institucionais ou mensagens no ambiente digital, a Fifa promove periodicamente a figura de Infantino, com textos, fotos e vídeos do dirigente em situações de glamour e sofisticação, mostrando encontros com personalidades do mundo da bola e da política ou cercado por torcedores e fãs.

Esse sistema com pluralismo limitado e forte personalismo também gera vulnerabilidade institucional, conforme destacou o sociólogo Juan J. Linz, em seu livro “Regimes Totalitários e Autoritários”.

Para o autor espanhol, esse modelo entra em crise com a centralização de decisões, gerando instabilidade institucional, a ilusão de ser insubstituível ou a ausência de liderança (por morte, renúncia ou incapacidade).

Na Fifa atual, há algumas dessas características, com a fragilização do pacto de apoio ao poder, após decisões pessoais sem refletir o consenso institucional, e a ausência de mecanismos eficientes e fortalecidos para mediar ou resolver os conflitos internos.

Futuro

É cedo para que uma análise da situação da Fifa mostre se a fragilidade de Infantino é sazonal ou definitiva. O dirigente já soma aliados para fazer frente à forte oposição constituída nas últimas semanas.

Mesmo sob ataque, ele ainda conta com um apoio razoável formado pela CAF (África), que representa 54 federações na eleição da Fifa, e pela Conmebol (América do Sul), com meros 10 votos, mas prestígio internacional por seus dez títulos mundiais.

O dirigente também busca novamente a conciliação ao retomar alianças entre os dirigentes do organograma da Fifa (embora já tenha perdido publicamente alguns) e no mundo da política, com a defesa de Trump e a aproximação de novos líderes, caso da visita à Colômbia para a posse do presidente Abelardo de la Espriella.

Do outro lado, Uefa, Concacaf e AFC contabilizam 135 federações nacionais. Se votarem de maneira compacta, têm o suficiente para retirar o suíço do poder nas eleições de março ou acelerarem a pressão para a sua saída precoce.

O’Donnell mostra como a democracia delegativa gera crises quando líderes agem acima das instituições; Huntington explica que o crescimento sem institucionalização gera instabilidade; e Linz evidencia que regimes personalistas e com baixa pluralidade são estruturalmente vulneráveis.

E como isso chega à Fifa? Por enquanto, a divergência é muito mais uma guerra de notas oficiais do que de ações efetivas. A crise mostra como decisões unilaterais, fragilidade institucional e personalismo corroem a estabilidade da federação.

No entanto, assim como placas tectônicas, o sistema pode se reacomodar: manter ou mudar de liderança, ajustar alianças e encontrar um novo equilíbrio, sem entrar em colapso definitivo. Assim tem sido na Fifa.

Adalberto Leister Filho é diretor de conteúdo da Máquina do Esporte, autor de livros na área de esporte e professor, tendo ministrado cursos em programas de pós-graduação em Jornalismo Esportivo, Gestão e Marketing Esportivo, e Gestão de TV em universidades como Faap, Anhembi Morumbi, FMU, Ipog e Cásper Líbero

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