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Danielle Von Schneider, especial para a Máquina do Esporte

Danielle Von Schneider

8 min de leitura

Análise

Investir no esporte feminino se tornou um negócio lucrativo, e só não vê isso quem não quer

Entre tantos exemplos, a Copa do Mundo Feminina de 2027 no Brasil deve movimentar R$ 8,8 bilhões e gerar mais de 70 mil empregos, com investimento da Fifa previsto em US$ 800 milhões

Danielle Von Schneider, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

14/08/2026 06h28

Projeto do novo estádio voltado exclusivamente para o futebol feminino - Divulgação

Projeto do novo estádio do Brighton voltado exclusivamente para o futebol feminino - Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • Investimentos globais no esporte feminino crescem com projetos inovadores e grandes aportes financeiros, como o estádio 'Built For Her' do Brighton e ações de investidores como Alexis Ohanian e Serena Williams.
  • No Brasil, a Copa do Mundo Feminina de 2027 mobiliza investimentos bilionários e deve impulsionar a economia, atraindo marcas que já apostam no crescimento do mercado feminino.
  • O maior desafio do esporte feminino está na base, com a evasão precoce de meninas, e o investimento nesse público é essencial para formar futuras atletas, líderes e consumidoras, garantindo o desenvolvimento sustentável da indústria.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Durante muito tempo, investir no esporte feminino parecia, para alguns, uma decisão mais ideológica e até mesmo de “caridade” do que econômica. O discurso era sempre o mesmo: não existe público, não existe mercado, não dá retorno. Mas contra dados e números não há argumentos, e quem notou o movimento do mercado nos últimos tempos sabe que investir em esportes femininos não é filantropia; é lucrativo. Investidores e marcas ao redor do mundo já perceberam e agora estão à frente de seus concorrentes.

Em 2026, o Brighton anunciou a construção de um estádio concebido especificamente para o futebol feminino. Com capacidade inicial para 10 mil pessoas e investimento estimado entre £ 75 milhões e £ 80 milhões, o projeto inglês carrega um conceito bastante simbólico: “Built For Her” (“Construído para Ela”, em tradução livre). É muito dinheiro. E ninguém ali é bobo. Estão investindo hoje na infraestrutura de uma indústria que acreditam que será muito maior amanhã.

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O mesmo raciocínio ajuda a entender os investimentos de Alexis Ohanian, cofundador do Reddit e marido de Serena Williams. Ele foi o investidor, fundador e líder do Angel City FC, clube feminino de Los Angeles que também teve Serena entre seus investidores, e depois ampliou sua atuação no esporte feminino com investimentos no atletismo e a criação do Athlos, entre outros.

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Serena também passou de uma das maiores atletas da história a investidora da indústria. Em 2025, tornou-se uma das proprietárias do Toronto Tempo, primeira franquia canadense da WNBA. Não estamos falando apenas de pessoas defendendo uma causa; estamos falando de investidores comprando participação no futuro de um mercado.

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Em 2027, o Brasil receberá a primeira Copa do Mundo Feminina realizada na América do Sul. A Fifa prevê investir cerca de US$ 800 milhões (aproximadamente R$ 4,2 bilhões, pela cotação atual) na competição. Estimativas divulgadas em 2026 apontam ainda que o evento poderá movimentar R$ 8,8 bilhões na economia brasileira e gerar mais de 70 mil empregos.

A força de realizar um Mundial Feminino deste porte no Brasil pode fazer com que o mercado e a indústria esportiva brasileira também se atentem para o grande potencial do esporte feminino? Certamente estamos progredindo, e já temos grandes marcas que compreenderam esse cenário.

Recentemente, estive em um painel da Rio2C, batizado de “A nova economia do esporte feminino: Protagonismo, marcas e patrocínio”. Nele estavam Mairá Mendonça, head de marketing do iFood, e Ana Cláudia Esteves, gerente de publicidade e mídia da Petrobras, duas marcas que estão investindo pesado, de maneiras diferentes, no esporte feminino.

O iFood patrocina a seleção brasileira feminina de futebol desde a Copa passada. Com uma ação inovadora, trouxe a transmissão dos jogos, junto à CazéTV e ao McDonald’s, diretamente para o próprio app. O resultado? A ação impactou 21 milhões de pessoas, gerou um tempo médio de permanência de 70 minutos na plataforma e resultou em um aumento de 23% nas vendas durante as transmissões.

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Já a Petrobras, junto à Rede Globo, criou a versão feminina do Cartola, que em sua primeira edição teve 220 mil inscrições, e ainda está construindo o primeiro centro de treinamento exclusivamente feminino no Brasil, pertencente à Ferroviária. De quebra, segue ampliando a parceria com a Federação Paulista de Futebol (FPF).

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Mas, mesmo com todos esses números, ainda somos confrontadas constantemente sobre a audiência e o potencial dos esportes femininos. Sim, ainda é necessário um trabalho de muito convencimento.

E é aí que acredito estar a maior oportunidade para empresas e marcas no Brasil, porque, de fato, ainda existe muita audiência a ser conquistada no país para as modalidades femininas. E quem se conectar primeiro certamente terá uma enorme fatia deste mercado consumidor.

Um dos maiores desafios do esporte feminino acontece muito antes do alto rendimento. Segundo a Women’s Sports Foundation, por volta dos 14 anos as meninas abandonam o esporte em uma taxa duas vezes maior que os meninos. Falta de oportunidade, acesso, estrutura, referências e pressões sociais estão entre as razões. Quando uma menina deixa o esporte, porém, não perdemos apenas uma potencial medalhista ou campeã. Podemos perder uma futura atleta, treinadora, árbitra, dirigente, torcedora, consumidora, empreendedora ou executiva da indústria esportiva.

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Esse é um ponto central para entender por que investir na base feminina também é investir na formação de mercado. Uma menina que joga futebol aos 10 anos pode nunca se tornar profissional, mas pode chegar aos 30 como torcedora, comprar produtos esportivos, assinar transmissões, frequentar estádios, colocar seus filhos no esporte, trabalhar na indústria ou decidir onde uma empresa investirá seu orçamento de patrocínio.

E ainda existe ainda uma consequência que ultrapassa o próprio mercado esportivo. Uma pesquisa global da EY em parceria com a ESPNW mostrou que 94% das mulheres em cargos C-level (que ocupam cargos de liderança nas empresas) entrevistadas haviam praticado esportes. O dado não estabelece uma relação automática de causa e efeito, mas ajuda a revelar a conexão entre a prática esportiva e competências valorizadas na liderança: disciplina, resiliência, trabalho em equipe, capacidade de receber opiniões, competitividade e tomada de decisão sob pressão.

Quando perdemos uma menina do esporte aos 14 anos, portanto, talvez estejamos perdendo muito mais do que uma possível atleta. Podemos estar perdendo uma futura líder e com certeza uma audiência qualificada do esporte feminino e uma consumidora da indústria.

Os Jogos Olímpicos de Paris 2024 deveriam ter mudado definitivamente a maneira como enxergamos as mulheres no esporte brasileiro. Pela primeira vez na história olímpica, o Brasil levou uma delegação com mais mulheres do que homens: foram 154 atletas mulheres e 123 homens, segundo o Comitê Olímpico do Brasil (COB). E ainda fechamos nossa participação com um dado ainda mais emblemático: os três ouros brasileiros foram conquistados por mulheres. Beatriz Souza, no judô; Rebeca Andrade, na ginástica artística; e Ana Patrícia e Duda, no vôlei de praia.

A Copa do Mundo de 2027 colocará o esporte feminino no centro da atenção brasileira. Haverá investimentos, marcas, audiência, novos ídolos e estádios cheios. A questão é o que permanecerá depois da final. O legado da Copa não pode ser apenas estádio cheio. Precisa ser quadra e campo cheios de meninas. Não pode ser apenas audiência em 2027. Precisa significar público em 2037. Não precisamos apenas descobrir a próxima Marta ou a próxima Rebeca Andrade. Precisamos formar milhares de mulheres que permaneçam conectadas ao esporte como atletas, torcedoras, profissionais, executivas, empreendedoras e líderes.

Existe um ciclo econômico poderoso nisso: mais meninas praticando significam mais atletas, melhores competições, mais histórias, mais audiência, mais patrocinadores e, consequentemente, mais investimentos.

Brighton está colocando dezenas de milhões de libras em um estádio feminino. Alexis Ohanian investe em propriedades esportivas femininas. Serena Williams tornou-se proprietária de equipes. A Fifa prepara bilhões para uma Copa no Brasil. Eles não estão fazendo isso apenas por generosidade; eles enxergaram valor.

Ninguém é tolo. São visionários. E talvez a maior oportunidade do esporte brasileiro seja perceber que o investimento mais importante começa antes do estádio lotado; começa com a menina que, aos 14 anos, está pensando em desistir. Mantê-la no jogo é formar atletas, lideranças, público e mercado. É construir, desde a base, o futuro da indústria do esporte.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Danielle Von Schneider é fundadora e CEO da Agência de Atletas, empresa responsável pelo gerenciamento de carreira e imagem de atletas como Rebeca Andrade, Duda Lisboa, Rafaela Silva, Bia Souza, Ana Marcela Cunha, Gui Santos, Bruno Fratus e Alison Mamute, entre outros

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