Netflix entra no esporte ao vivo

Evento terá a participação de quatro golfistas e quatro pilotos de Fórmula 1 - Divulgação / Netflix

A revolução do streaming no esporte segue a todo vapor. Sim, a TV aberta e a TV a cabo ainda são fundamentais para as organizações esportivas, pois é delas que vem a maior parte dos bilhões pagos pelos direitos de transmissão (e a exposição que eleva o valor das propriedades comerciais), mas, aos poucos, os novos players vão tomando cada vez mais espaço.

Com a profusão de serviços que foram lançados nos últimos anos e, principalmente, pelo fato da conta do streaming ainda não fechar, há uma expectativa de consolidação no setor, seja por meio de agregadores (em um modelo semelhante ao oferecido pelas operadoras de TV a cabo), seja pelo apetite das chamadas big techs, como Amazon, Google e Apple. A própria Disney busca nessas empresas um parceiro estratégico para ajudar a levar a ESPN para um modelo 100% direto ao consumidor de maneira financeiramente sustentável até 2025.

A maior e única empresa de streaming lucrativa no mundo, entretanto, se manteve longe das transmissões esportivas ao vivo, apesar de muitas especulações. Até esta semana. Nesta terça-feira (14), a Netflix fará sua primeira empreitada. Os olhos de todos na indústria estarão atentos, afinal, a entrada de um player com 250 milhões de assinantes pagos ao redor do mundo pode ser daqueles momentos “game changer” no esporte.

Netflix Cup

Para a estreia, a companhia, sabiamente, resolveu começar devagar. Criou um evento próprio, de apenas um dia, que não só custa mais barato, como, caso haja problemas, não dará uma grande dor de cabeça. A Netflix Cup será um torneio de golfe entre pilotos de Fórmula 1, estrelas de “Drive to Survive”, uma das séries de maior sucesso da casa, e atletas profissionais de golfe, que, por sua vez, também são protagonistas de outra produção original, o “Full Swing”. Quatro pilotos (Alexander Albon, Pierre Gasly, Lando Norris e Carlos Sainz) se juntarão em duplas com quatro golfistas do PGA Tour (Rickie Fowler, Max Homa, Collin Morikawa e Justin Thomas) em Las Vegas, onde será o GP do próximo final de semana, para jogar em oito buracos. As duas melhores duplas avançarão para a disputa final.

Há promessas de ser um torneio diferente do golfe tradicional, com uma transmissão misturando esporte e entretenimento.

“Precisa ser um torneio de golfe, mas queremos colocar a identidade da Netflix”, disse Gabe Spitzer, um dos vice-presidentes da companhia.

Não será, no entanto, a primeira experiência da Netflix com produções ao vivo. Em março, um especial do comediante Chris Rock foi transmitido com sucesso. No mês seguinte, no entanto, o episódio final da versão americana de “Casamento às Cegas” não conseguiu entrar no ar por problemas técnicos e acabou exibido de forma gravada no dia seguinte.

Transmitir ao vivo não é tarefa simples, ainda mais pela internet. Mas acredito que, para esta próxima iniciativa, a empresa estará melhor preparada.

O futuro da Netflix nos esportes

Como supracitado, a entrada oficial da Netflix no mundo dos esportes ao vivo era aguardada há tempos. Porém, para aqueles que acham que a empresa já se posiciona como uma das protagonistas na disputa pelos maiores direitos de transmissão do mundo, não acho que este seja o caso, pelo menos não tão cedo. Ted Sarandos, co-CEO da companhia, já se manifestou algumas vezes publicamente freando altas expectativas. Em janeiro, ele falou a célebre frase para justificar a ausência de grandes competições em seu cardápio de atrações: “não somos antiesportes, somos pró-lucro”. Em outubro, durante uma conversa com investidores para apresentar os resultados do terceiro trimestre, ele disse: “já estamos no negócio do esporte, mas estamos na parte que mais agregamos valor, o drama”.

De qualquer maneira, não dá para considerar o que Sarandos fala como definitivo. Até porque, a partir do momento que o esporte ao vivo se provar importante para o futuro da empresa, é lógico que a Netflix vai querer entrar de cabeça. Este primeiro experimento certamente tem a ver com isso: testar a capacidade de colocar um evento no ar e mensurar o apetite do público para, quando chegar o momento, estar preparado.

Nas últimas semanas, começaram a surgir outras especulações. Mais uma vez, nada de grandes propriedades, que custam caro e têm contratos de longa duração. O Wall Street Journal publicou que a empresa está em estágio inicial de negociação para transmitir lutas de boxe da celebridade Jake Paul e da Premier Boxing Champions, organização que detém atletas de renome, como Canelo Álvarez. Optar pelo boxe e, de quebra, com uma celebridade, seria mais uma maneira da Netflix unir esporte e entretenimento, sem se comprometer por muito tempo em um acordo. Encaixaria-se perfeitamente na estratégia de “engatinhar antes de correr”, coisa que a companhia faz muito bem.

Por enquanto, porém, trata-se de boatos. Por ora, vale ficar de olho na transmissão dessa semana para ver se tudo sairá bem. A partir daí, é acompanhar os próximos capítulos.

Felipe Ribbe é ex-diretor geral da Socios.com no Brasil e ex-chefe de inovação do Atlético-MG. Atualmente, é diretor global de comunidades DTC na AB-Inbev, orientador de startups de Web3 e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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