A Copa do Mundo vai, mais uma vez, provar que é o maior evento esportivo do planeta.
Antes que você, leitor, pense: “Nada disso. A Olimpíada é maior!”, eu responderia justamente com o título desta coluna: depende do prisma. E essa talvez seja a maior força da Copa.
Se olharmos pelo prisma da diversidade esportiva e do número de nações envolvidas, a Olimpíada é, sem dúvida, imbatível. Mas, quando o assunto é a capacidade de um único esporte mobilizar bilhões de pessoas ao mesmo tempo, provocar emoções coletivas e parar o planeta durante 40 dias, a Copa do Mundo não tem concorrentes.
A Fifa concentra a atenção de aproximadamente 6 bilhões de pessoas durante o torneio. Não à toa, a pessoa mais seguida do planeta nas redes sociais é um jogador de futebol: Cristiano Ronaldo. Esse dado, sozinho, já ajuda a explicar o tamanho cultural que o futebol alcançou.
Agora, mudemos o prisma.
Pelo olhar dos negócios, a dimensão impressiona. Apenas no mês da Copa, a Fifa estima faturar entre US$ 9 bilhões e US$ 11 bilhões. Poucas organizações do mundo movimentam cifras dessa magnitude em tão pouco tempo. Na prática, a entidade opera como uma das maiores empresas do planeta, ainda que seu principal produto seja entregue apenas uma vez a cada quatro anos.
Do ponto de vista das marcas, o fenômeno também merece atenção. Os patrocinadores oficiais possuem propriedades comerciais extremamente valiosas e protegidas por regras rígidas contra o marketing de emboscada. Assim, aproveitam a onda gigantesca de atenção que a Copa desperta.
Mas quem está fora do seleto grupo de patrocinadores também não fica parado. Pelo contrário. As equipes de marketing colocam a criatividade para trabalhar, encontram brechas legítimas para conversar com o público e transformam o futebol em combustível para vender praticamente qualquer produto ou serviço. Durante a Copa, até marcas que não têm nenhuma relação com o esporte tentam fazer parte da conversa.
Sob o prisma do atleta, talvez esteja a dimensão mais humana do evento.
É a realização de um sonho. Em poucas semanas, um jogador pode deixar de ser apenas um grande profissional para se tornar um herói nacional ou carregar o peso de ser um vilão por décadas.
É justamente por isso que a expansão da Copa para mais países faz tanto sentido. É quase um silogismo: mais seleções significam mais torcedores envolvidos; mais torcedores geram mais atenção; mais atenção cria novos ídolos; novos ídolos inspiram crianças; essas crianças passam a consumir futebol, praticar o esporte e movimentar toda a sua cadeia econômica. É um ciclo virtuoso difícil de ser encontrado em qualquer outra indústria.
Talvez esse seja um dos maiores feitos da Fifa. Ela entrega, a cada quatro anos, essencialmente o mesmo produto: as mesmas regras, o mesmo formato, o mesmo troféu. Ainda assim, consegue fazer com que cada edição pareça inédita. Antes mesmo de a bola rolar, o sucesso já está garantido.
Pelo olhar do torcedor, então, nem se fala.
Grandes jogos. Grandes estádios. Grandes ativações. Culturas diferentes dividindo as mesmas arquibancadas. Poucos eventos conseguem produzir um sentimento de confraternização entre povos como a Copa do Mundo.
Mas viver essa experiência custa caro. Muito caro.
E é justamente aí que começam os pontos que merecem preocupação.
A Copa tornou-se um evento cada vez mais político. Não que isso seja novidade, mas a cada edição surgem episódios que mostram como fatores externos podem interferir diretamente na competição. Da pressão de autoridades sobre decisões esportivas a problemas migratórios envolvendo árbitros, delegações ou vistos de entrada, a política passa a ocupar um espaço que deveria pertencer apenas ao futebol. Quando isso acontece, o risco é simples: comprometer a percepção de equilíbrio esportivo de um torneio que deveria ser decidido exclusivamente dentro das quatro linhas.
No fim das contas, todos esses prismas ajudam a explicar por que a Copa do Mundo continua sendo um fenômeno sem paralelo.
Ela movimenta negócios bilionários, aquece a economia formal e informal, cria campanhas publicitárias inesquecíveis, fabrica ídolos, inspira gerações e oferece, por 40 dias, um raro momento em que bilhões de pessoas compartilham a mesma conversa.
Depois disso, o encanto acaba. Cada um volta à própria rotina, aos próprios problemas e à vida real.
Esta coluna está indo ao ar dois dias antes de conhecermos o campeão. Sabemos apenas os finalistas: Espanha e Argentina. Mas, independentemente de quem levante a taça, o futebol já venceu. E, convenhamos, se a Espanha for campeã, é bem provável que boa parte dos brasileiros sorria um pouquinho mais.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Lênin Franco é especialista em marketing esportivo, possui MBA em Gestão de Projetos e trabalha no mercado do futebol desde 2006. Chegou ao Bahia em 2013 como gerente de marketing e, na sequência, passou a comandar o departamento de negócios. Em 2021, chegou ao Botafogo como diretor de negócios e ajudou o clube a se estruturar para a chegada do investidor John Textor. Em 2022, assumiu a diretoria de negócios do Cruzeiro, integrando o time de dirigentes da SAF Cruzeiro. Por fim, em 2023, assumiu as áreas de marketing e comercial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), liderando principalmente a renovação do contrato da Nike com a entidade. Atualmente, é sócio da 94 Marketing & Football
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