Uma visão otimista para o nosso futuro, na Copa do Mundo e fora dela

Já faz um tempo para o Brasil. A última vez que ganhamos a Copa do Mundo eu ainda tinha vinte e poucos anos, morava em Nova York e iniciava uma carreira no esporte, trabalhando como estagiário na MLS. O ano era 2002, Ronaldo havia marcado duas vezes contra a Alemanha no estádio em Yokohama, e o país estava prestes a entrar em uma era completamente nova, dentro e fora de campo.

Havíamos alcançado uma estabilidade econômica bastante sólida e relativamente longa, após a implementação do Plano Real oito anos antes, ou duas “Copas do Mundo”, minha métrica preferida para descrever qualquer período de quatro anos. Curiosamente, também havíamos vencido naquele ano de 1994, após um doloroso hiato de 24 anos.

Voltando a 2002, os oito anos de Plano Real haviam criado uma espinha dorsal que ajudou a manter a inflação sob controle, permitindo que o Brasil e seus cidadãos sonhassem mais alto. Queríamos mais, mais do que vencer a Copa do Mundo. Na esperança de que a tão adiada promessa de se tornar o “país do futuro” finalmente se tornasse realidade, confiamos nosso futuro nas mãos de um novo governo, que quebraria recordes (e corações) ao longo da década seguinte.

Experimentamos um crescimento econômico inegável, contribuindo para o desenvolvimento social com a ampliação do acesso à educação e a serviços básicos, além de um aumento no consumo que ajudou a impulsionar investimentos estrangeiros, com mais empresas internacionais do que nunca olhando o Brasil como um mercado estratégico em expansão. Mas, embora esses todos tenham sido aspectos positivos, outros tantos negativos também marcaram esse período.

Se, no final de 2009, a revista The Economist chegou às prateleiras com sua evocativa capa “Brazil Takes Off” (“O Brasil Decola”, em tradução livre), com um Cristo Redentor decolando tal qual um foguete para representar nossa década mais proeminente, o pobre Homem voltou a ilustrar uma nova capa já em 2013, desta vez muito menos otimista, voando em círculos, rumo a um invariável acidente. Mal tivemos tempo de saborear o fato de que em breve receberíamos o mundo nos nossos quintais, pois, antes mesmo de sediar a Copa de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016, as tensões haviam aumentado tanto que 2013 se tornou o maior ponto de virada da nossa história recente.

Desde aquele ano fatídico, entramos em uma espiral de eventos incrivelmente infelizes, experimentando um inferno astral que ainda não conseguimos deixar para trás. Dos protestos de 2013 à humilhação frente à Alemanha, na nossa Copa do Mundo. De escândalos políticos a governos em estado falimentar. De impeachments presidenciais a candidatos presos. Dos esquemas de corrupção à corrupção da própria Justiça. De nos abraçarmos em Copacabana após sermos escolhidos para sediar os Jogos Olímpicos, até atirarmos uns nos outros em nome de políticos autoritários. E, não uma exclusividade nossa, ainda tivemos que atravessar uma pandemia com nossa sociedade e autoridades governamentais extremamente divididas.

Já se passaram 20 anos desde que Ronaldo marcou aqueles gols no Japão, e o Brasil já não aguenta mais esperar para comemorar novamente. Embora todos saibamos que ainda estamos para conseguir colocar uma pá de cal definitiva na década passada, chegou a hora. Claro que há motivos de sobra para se preocupar com o que está por vir ainda neste ano, especialmente com eleições turbulentas que se desenham já para o próximo domingo (2), bem antes da estreia da seleção no Catar. Mas, atleticano que sou, “Eu Acredito!”. E acredito que venceremos dentro e fora de campo. Além de Neymar e companhia se saindo muito bem desde as Eliminatórias, a seleção atual conta com jogadores famintos por essa conquista, a maioria deles sem nenhuma lembrança pessoal de como é ver o Brasil vencer uma Copa do Mundo.

A motivação está no auge, nossa defesa tem demonstrado uma solidez rara, e o calibre do nosso ataque é grande e amplo. Com a competição sendo disputada pela primeira vez na história apenas no final do ano, as eleições já serão passado (ou pelo menos assim esperamos), e estaremos todos livres para celebrarmos juntos e, merecidamente, curarmos nossas feridas.

Este texto é uma prévia da análise sobre o Brasil e como as marcas locais estão se preparando para explorar este ano de Copa do Mundo, que produzi a convite da WARC, serviço internacional de inteligência de marketing do Reino Unido e será publicado neste mês de setembro.

Felipe Soalheiro é diretor geral da Effect Sport São Paulo, fundador da SportBiz Consulting e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

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