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Arte e volta dos animais: A estratégia das mascotes nas Copas do Mundo dos anos 1990

Quarta reportagem da série de conteúdos especiais da Máquina do Esporte sobre os negócios envolvendo os personagens da Fifa aborda os Mundiais de 1990, 1994 e 1998

Mascote da Copa do Mundo de 1990, disputada na Itália, Ciao foi apresentado como "arte conceitual aplicada ao esporte" - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • Ciao, mascote da Copa de 1990, destacou-se pelo design minimalista e conceitual, mas teve apelo comercial limitado especialmente entre crianças.
  • Striker, mascote da Copa de 1994 criada pela Warner Bros., teve sucesso comercial e amplo licenciamento nos EUA graças a uma estratégia multimídia e design popular.
  • Footix, mascote da Copa de 1998 na França, obteve grande aceitação e vendas, com campanhas integradas e produtos premium que venderam mais de 1 milhão de pelúcias.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Na década de 1990, o aspecto estético ganhou mais relevância e passou a influenciar consideravelmente o desenvolvimento das mascotes das Copas do Mundo. Ciao, personagem criado para o Mundial disputado na Itália, em 1990, é um exemplo claro disso.

Já nos torneios de 1994 e 1998, animais ligados à cultura do país-sede voltaram a inspirar os desenhos dos personagens oficiais do evento. Veja a seguir a estratégia e os negócios por trás das mascotes das Copas do Mundo da década de 1990.

Ciao: A arte conceitual aplicada ao esporte

O lançamento oficial aconteceu em 1989, com uma campanha que enfatizava a modernidade do design. Batizado de Ciao, o personagem foi apresentado como “arte conceitual aplicada ao esporte”, um posicionamento inédito até então para uma mascote da Copa do Mundo.

O comitê organizador da Copa do Mundo de 1990 lançou um concurso para criar a mascote oficial do torneio. Com mais de 50 mil inscrições na iniciativa, o personagem vencedor ficou por conta do designer autodidata Lucio Boscardin, que diz ter pensado no conceito em 1985 enquanto estava parado no trânsito observando um semáforo.

Ciao era um boneco construído com palitos tricolores (verde, branco e vermelho, as cores da bandeira italiana), com uma cabeça esférica representando uma bola de futebol. O corpo era composto por formas geométricas simples, que podiam ser desmontadas e remontadas, sugerindo movimento e flexibilidade.

O design era extremamente minimalista, e as cores seguiram exatamente os tons oficiais da bandeira italiana. De acordo com os organizadores, Ciao representava “o encontro de culturas por meio do esporte” e “a geometria perfeita do futebol italiano”. 

No entanto, todas essas características e o design fora do tradicional geraram desafios para o licenciamento do personagem. Os produtos principais foram materiais gráficos conceituais, como pôsteres e ilustrações, com poucos brinquedos tradicionais. A dificuldade de criar pelúcias “fofas” de um boneco geométrico limitou o apelo comercial infantil.

Além disso, os fabricantes de brinquedos demonstraram pouco interesse pela mascote, forçando o comitê italiano a focar em produtos para adultos envolvendo arte, design e colecionáveis sofisticados. No geral, a mascote falhou comercialmente com crianças, mas conquistou um público mais velho interessado em produtos mais elaborados.

Striker: Um sucesso da Warner Bros.

A partir da necessidade do comitê organizador do Mundial de 1994 criar uma mascote comercialmente eficaz para o mercado norte-americano, surgiu a figura de Striker, um personagem que nasceu com um design cuidadosamente calculado para maximizar o seu apelo.

Criação da Warner Bros. Animation, estúdio responsável pelo Looney Tunes e outras diversas animações de sucesso, Striker foi apresentado como um cachorro simpático que vestia o uniforme da seleção norte-americana nas cores azul, branco e vermelho da bandeira dos EUA. A escolha pelo animal ainda foi estratégica. Cães eram os animais de estimação mais populares nos Estados Unidos, o que gerou identificação imediata com o público local.

Striker foi a mascote da Copa do Mundo de 1994, disputada nos Estados Unidos – Reprodução

À época, os Estados Unidos tentavam legitimar o futebol como um esporte “norte-americano” por meio da Major League Soccer (MLS), criada um ano antes da Copa do Mundo de 1994. O Mundial seria importante para estabelecer a liga e popularizar a modalidade no país. Dessa forma, Striker precisava ser “norte-americano o suficiente” para o público local, mas neutro o bastante para não se afastar dos torcedores internacionais.

O lançamento oficial aconteceu em outubro de 1992, em um evento que contou com a presença de Pelé e Shannon Higgins, da seleção feminina norte-americana. A estratégia de ativação utilizou toda a experiência da Warner Bros. com personagens. Striker apareceu em desenhos animados, comerciais de TV, parques temáticos e produtos licenciados diversos.

Diferentemente das mascotes anteriores, Striker ganhou uma campanha publicitária relevante em horário nobre na TV norte-americana, aproveitando a rede de distribuição midiática da Warner. A mascote também apareceu em eventos da MLS e jogos da seleção dos EUA antes da Copa do Mundo.

Em relação ao licenciamento, Striker estampou pelúcias de diversos tamanhos, camisetas, produtos escolares, brinquedos educativos, videogames e produtos alimentícios, entre outros artefatos. O personagem ainda teve produtos disponíveis em grandes redes varejistas norte-americanas como Walmart, Target e Toys”R”Us. O sucesso do personagem se deu muito pela parceria com a Warner Bros., que usou toda a sua expertise no segmento para alavancar os resultados em cima da mascote.

Footix: O galo de 1 milhão de pelúcias

Para a Copa do Mundo de 1998, Fabrice Pialot, designer da agência Dragon Rouge, foi escolhido para criar um personagem que expressasse “a essência francesa”, mas que também se conectasse com o público internacional. Assim nasceu Footix, um galo estilizado nas cores azul e vermelho com crista proeminente e postura orgulhosa.

O galo é considerado um símbolo milenar francês, e a decisão pelo animal para representar a mascote do Mundial foi considerada como natural pelo comitê organizador do evento. Além disso, uma pesquisa feita pela BVA para saber a opinião dos franceses em relação ao personagem mostrou que a escolha por um galo foi bem vista por 80% do público.

Footix foi a mascote da Copa do Mundo de 1998, disputada na França – Reprodução

O lançamento da mascote aconteceu em 1996, no programa de televisão “Les Années Tubes”, da emissora TF1, com uma campanha que incluiu votação popular para definir o nome. Footix concorreu com “Raffy” e “Houpi”, mas conquistou 47% dos votos. O nome combina as palavras “Football” e “Asterix”, conectando a mascote ao famoso personagem francês dos quadrinhos. 

A estratégia de promoção foi a mais sofisticada para uma mascote de Copa do Mundo até então. Com campanha publicitária integrada, aparições em programas de televisão, eventos promocionais e parceria com a seleção francesa, foi desenvolvida uma personalidade profunda para Footix, com contexto, características psicológicas e preferências pessoais bem-definidas.

As ações enfatizavam que Footix era “confiante, mas não arrogante; tradicional, mas moderno; francês, mas universal”. A mascote apareceu sistematicamente em todos os eventos da seleção francesa desde o lançamento até a disputa do Mundial. 

Em relação ao licenciamento, foram assinados contratos com fabricantes premium, garantindo qualidade superior nos produtos. A linha de pelúcias, produzida com materiais de alta qualidade, teve grande apelo popular. Além dos itens tradicionais, Footix ainda apareceu em produtos alimentícios franceses, vinhos comemorativos, produtos de moda e até automóveis promocionais. 

A estratégia também incluiu edições limitadas e artigos colecionáveis. Para se ter uma ideia do sucesso comercial da mascote, foram vendidas mais de 1 milhão de pelúcias oficiais de Footix, segundo uma reportagem da época feita pelo veículo britânico The Sun. 

O personagem ainda se tornou uma espécie de símbolo da vitória da seleção francesa no Mundial, já que esteve presente em todas as celebrações pós-título da equipe, aparecendo ao lado dos jogadores e integrado às comemorações oficiais.