A estratégia da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e de seus parceiros revela uma certa divisão demográfica na busca pelo interesse do torcedor. Para dialogar com a Geração Z, e já penando na Alfa, o foco parece migrar com mais força para o ecossistema dos jogos digitais, como indicam o acordo recente com a EA Sports e a ativação dentro da Roblox, plataforma que concentra 132 milhões de usuários diários. A intenção aparente é inserir a identidade da seleção em ambientes imersivos em que o público mais jovem já costuma consumir entretenimento de forma nativa e constante.
Esse movimento acontece em um cenário que torna o desafio ainda maior. Dados da Ipsos-Ipec apontam que apenas 16% dos brasileiros se dizem muito animados com a Copa de 2026, uma queda considerável em relação aos 33% medidos antes do Mundial anterior. Esse pragmatismo sugere uma mudança na percepção da competição, indicando que o torcedor tende a encarar o torneio menos como um espetáculo esportivo e mais como uma pauta para conversar com amigos, o que pode transferir para os patrocinadores parte da missão de gerar o engajamento que o time não cria sozinho.
Atenta a essa provável mudança de comportamento, a Uber estreou no portfólio da CBF com a campanha “Chega Junto”, liderada por Ronaldinho Gaúcho. A narrativa parece deixar o serviço de transporte em segundo plano para tentar ocupar o território da famosa “resenha”, do trajeto e do encontro entre amigos para assistir às partidas. Ao criar desafios no TikTok focados em escalar os melhores acompanhantes para os jogos, a marca ensaia um posicionamento justamente no ponto em que o futebol funciona mais como um evento social.
Por outro lado, o público tradicional continua sendo impactado por intermédio da memória afetiva, mas por meio de uma roupagem mais conectada. O Guaraná Antarctica reuniu ídolos das cinco gerações campeãs (Pepe, Mengálvio, Rivellino, Taffarel e Cafu) no estúdio do Podpah, fazendo com que as histórias do passado ganhassem o formato de áudio e vídeo que domina as redes, acompanhadas do lançamento de latas colecionáveis. Essa combinação de ações sinaliza um mercado que busca equilibrar seus ativos: os pixels virtuais testam o amanhã, as plataformas de comportamento disputam o presente, e parcerias consolidadas sustentam o consumo por meio da tradição.
A Engrenagem: O que o mercado pode aprender?
Quando o ativo esportivo enfrenta o ceticismo do público, o sucesso comercial tende a depender mais da capacidade da marca de financiar os rituais sociais, digitais e afetivos do torcedor e menos do que acontece em campo.
O conteúdo desta publicação foi retirado da newsletter semanal Engrenagem da Máquina, da Máquina do Esporte, feita para profissionais do mercado, marcas e agências. Para receber mais análises deste tipo, além de casos do mercado, indicações de eventos, empregos e mais, inscreva-se gratuitamente por meio deste link. A Engrenagem conta com uma nova edição todas as quintas-feiras, às 9h09.
