O presidente da Fifa, Gianni Infantino, confirmou o cancelamento da proposta que previa a venda de até 20% dos direitos comerciais das competições da entidade, incluindo as Copas do Mundo Masculina e Feminina e a Copa do Mundo de Clubes, a investidores privados.
A retratação ocorreu após forte oposição da Uefa, da Concacaf (Confederação da América do Norte, Central e do Caribe) e da Confederação Asiática de Futebol (AFC).
Saída
Apesar do recuo, a ideia de comercializar esses ativos a investidores ligados à família do presidente dos Estados Unidos Donald Trump tornou-se o ponto decisivo para as federações europeias, que unificaram posições e articulam a destituição do dirigente do comando da entidade máxima do futebol antes da próxima eleição presidencial, marcada para 2027.
O plano da Fifa Forward Enterprise (FFE) previa a arrecadação de bilhões de dólares com a cessão de participações comerciais para grupos de capital de risco. A promessa da gestão era distribuir até US$ 10 bilhões entre as 211 federações nacionais filiadas à Fifa, oferecendo um bônus de adesão de US$ 20 milhões.
No entanto, a rejeição institucional nas principais confederações impediu Infantino de obter a maioria necessária para dar continuidade ao projeto.
Resistência
Em comunicado oficial, o presidente da Fifa admitiu o desgaste gerado pela iniciativa.
“Após ouvir atentamente todas as opiniões, ficou claro que o projeto criou divisões de uma natureza que, independentemente do nível de apoio, já não servem ao objetivo inicialmente proposto”, declarou o dirigente.
“O nosso propósito sempre foi – e sempre será – unir e melhorar. Consequentemente, esta proposta não prosseguirá”, completou.
Infantino deu como próximo passo se reunir, “nos próximos dias e semanas”, com todo o ecossistema do futebol mundial, “num espírito de interesse comum pelo nosso esporte, e com o objetivo de continuar a desenvolver o futebol em todo o mundo, particularmente nos países que mais precisam do nosso apoio”.
A crise política provocou baixas na cúpula da entidade internacional. O assessor especial da presidência, o norte-americano Carlos Cordeiro, renunciou ao cargo em protesto contra a proposta.
Kevin Lamour, diretor de operações, criticou publicamente a condução do processo sem consultas adequadas aos funcionários da Fifa e parceiros relevantes da entidade.
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Reações
A decisão de cancelar a operação foi recebida com manifestações oficiais na Ásia e na Oceania. O presidente da Federação Australiana de Futebol (FA), Anter Isaac, destacou a importância de ritos institucionais estruturados.
“As discussões dos últimos dias reforçaram um princípio importante da boa governança: propostas de relevância global devem ser desenvolvidas por meio de consultas robustas, processos de governança adequados e um engajamento significativo com as associações”, destacou o dirigente.
Para ele, alguns princípios jamais devem ser mudados. O futebol necessita de independência, boa governança, transparência, consulta significativa e respeito ao devido processo legal.
“Esses não são entraves ao progresso. São eles que tornam possível o progresso duradouro. Em última análise, a força das instituições do futebol depende da confiança da família global do futebol”, ensina Isaac.
“Essa confiança é conquistada não apenas por meio de boas decisões, mas pela integridade dos processos que as originam. Nossa atenção agora deve se voltar para o futuro”, completa.
O xeque Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, presidente da Confederação Asiática de Futebol, reforçou a necessidade de alinhamento prévio em carta publicada no site da entidade.
O futuro do futebol mundial deve sempre ser moldado por meio de consultas adequadas, diálogo coletivo e respeito pelas estruturas de governança estabelecidas em nosso esporte”
Salman bin Ebrahim Al-Khalifa, presidente da Confederação Asiática de Futebol
Destituição

Mesmo após o encerramento do projeto comercial, a Uefa e suas 55 associações filiadas deram início a articulações formais para apresentar um voto de desconfiança contra Infantino.
A legislação interna permite a convocação desse tipo de votação com a assinatura de 43 membros. A posição da entidade continental conta com o apoio expresso de organizações nacionais, como a Federação Inglesa de Futebol (FA).
“Apoiamos integralmente a posição da Uefa. Chegou a hora de uma revisão completa e rigorosa da liderança e governança da Fifa para garantir que o futebol mundial seja gerido de forma transparente, para o benefício de todas as 211 nações-membro e com a gestão a longo prazo do futebol como princípio fundamental”, informou a FA.
Em comunicado que cobra mudanças na diretoria da entidade máxima do futebol, a Uefa criticou os compromissos assumidos por Infantino no início de sua gestão, em 2016, quando prometeu transparência e uso exclusivo dos recursos financeiros para o desenvolvimento do esporte.
Não podemos continuar assim, com esquemas secretos em ritmo acelerado, arquitetados por indivíduos sem rosto e de duvidoso benefício para o futebol. Devemos identificar os responsáveis e responsabilizá-los”
Uefa, em comunicado oficial
Dias e semanas
Curiosamente, a Uefa também fala, como Infantino, em trabalhos para os “próximos dias e semanas”. No caso da entidade europeia, porém, será “para refletir sobre como isso aconteceu e elaborar um plano para garantir que não se repita”.
“Essa revisão deve ser completa e fundamental. Nenhuma opção deve ser descartada. A atual direção da Fifa não só perdeu a confiança da Uefa, como também a de muitos outros membros da família do futebol”, prega o comunicado.
A entidade do velho continente acrescenta que buscará novos modelos de financiamento por meio do programa Fifa Forward existente, utilizando o volume de reservas financeiras da instituição sem a necessidade de alienação de ativos.
“A Uefa começará imediatamente a trabalhar com parceiros e partes interessadas em todo o mundo e em todo o futebol para propor uma nova forma de distribuir recursos através do programa Fifa Forward existente”, defende.
“Precisamos começar a usar parte desse dinheiro parado na conta bancária da Fifa para dar o impulso inicial que o futebol de base e o futebol em geral precisam em cada um dos 211 países da Fifa. Mas não precisamos vender as joias da família para pagar por isso”, critica a Uefa.
A confederação europeia também comemorou a desistência da Fifa de seu projeto comercial com investidores privados.
“Esta é uma vitória para todo o futebol. Mas não pode ser o fim da história. A proposta já foi descartada. A tarefa de reconstruir a confiança na Fifa está apenas começando”, conclui a entidade.
