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Tentáculos de Banco Master no esporte vão além da investimento de Daniel Vorcaro no Atlético-MG

Maior escândalo financeiro do Brasil nas últimas décadas envolve fundos e instituições que atuam em diversas modalidades no país

Rede de academias Les Cinq é um dos investimentos do Moriah Asset - Reprodução / Instagram (@lescinqgym)

Maior escândalo do sistema financeiro brasileiro das últimas décadas, o caso do Banco Master possui tentáculos no esporte que vão além do conhecido investimento de Daniel Vorcaro no fundo Galo Forte FIP, que comprou uma participação de 20% na Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Atlético-MG, por R$ 300 milhões.

Os negócios da instituição envolvem outras companhias e fundos de investimentos, que possuem ampla atuação na indústria esportiva brasileira.

Nesta semana, conforme noticiou a Máquina do Esporte, a Procuradoria-Geral da República (PGR) está apurando qual a real participação do fundo Astralo na operação que viabilizou o investimento de Vorcaro na SAF atleticana.

Entre abril e maio de 2024, o Astralo movimentou, juntamente do Reag Growth 95, um total de R$ 1,45 bilhão no Banco Master, em operações que teriam como beneficiário João Carlos Mansur.

Ele é dono da Reag Capital Holding, que, no ano passado, integrou, ao lado da Contea, o consórcio escolhido para assumir a SAF do Juventus, numa operação de R$ 20 milhões.

A empresa se tornou alvo da Operação Carbono Oculto, que investigou a prática de lavagem de dinheiro pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), utilizando fundos de companhias sediadas na Avenida Faria Lima, em São Paulo, no coração financeiro do país.

Após o escândalo, a Reag Capital Holding decidiu, em outubro do ano passado, fechar seu capital e deixar de operar na Bolsa de Valores. A companhia também se retirou da SAF do Juventus.

A Reag Investimentos acabou sendo vendida à Arandu Partners, formada por executivos da própria empresa, numa transação avaliada em R$ 100 milhões.

Vale lembrar que a Reag Investimentos também atuava como gestora e administradora do fundo da Neo Química Arena. Em agosto de 2025, após a deflagração da Operação Carbono Oculto, o Corinthians iniciou uma análise, em parceria com a Caixa, para substituir a instituição financeira nesse negócio.

A Reag entrou na mira da Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, por conta da atuação da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, antes chamada de Reag Trust DTVM e que teve a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central (BC) na última quinta-feira (15).

A empresa ligada à Reag Investimentos é suspeita de haver criado e administrado fundos suspeitos, com indícios de fraude e lavagem de dinheiro.

Revee

A Polícia Federal (PF) suspeita que, de 2023 a 2024, o Banco Master tenha desviado R$ 11,5 bilhões em triangulações, nas quais a instituição emprestava dinheiro a supostos laranjas, que depois investiam esses recursos em fundos geridos pela Reag Investimentos, que aplicavam o capital em ativos sem valor, como, por exemplo, títulos de bancos que já deixaram de existir, como o antigo Besc, de Santa Catarina.

O Master oferecia carências de até cinco anos, reduzindo seu índice oficial de inadimplência, e usava novos Certificados de Depósitos Bancários (CDBs), com remunerações muito acima das praticadas pelo mercado, para remunerar investidores antigos, numa operação que, segundo as autoridades que investigam o caso, poderia caracterizar uma pirâmide financeira.

A Reag Investimentos administrava seis fundos que receberam dinheiro das operações do Master e que, juntos, possuíam ativos declarados de R$ 102,4 bilhões, por onde os recursos circulavam até chegar aos beneficiários do esquema.

João Carlos Mansur, fundador da Reag, tornou-se alvo das investigações da PF, fato que atingiu a Revee. Na quarta-feira passada (14), ele apresentou sua renúncia ao cargo de presidente do Conselho de Administração da empresa.

Entre os ativos administrados pela Revee está a Arena Fonte Luminosa. A companhia também integrava, ao lado da Tauá Partners e da XP Investimentos, o consórcio que assumiu a SAF da Portuguesa, sendo responsável por viabilizar a reforma do Estádio do Canindé, orçada em R$ 500 milhões.

Mas após o estouro do escândalo da Operação Carbono Oculto, no ano passado, a Revee acabou deixando a SAF da Lusa. O clube busca um novo parceiro para assumir o projeto da obra no estádio.

BRB

O Banco de Brasília (BRB) também se tornou parte da trama envolvendo o Master, depois que, numa estratégia para demonstrar que teria liquidez, a instituição comandada por Daniel Vorcaro simulou a compra de uma carteira de crédito de R$ 6 bilhões da empresa Tirreno.

Porém, essa operação existia apenas no papel e não envolveu nenhum pagamento real, já que, segundo investigação feita pelo BC, os créditos eram inexistentes.

Essa mesma carteira de crédito foi então revendida pelo Master ao BRB, por R$ 12 bilhões, após suposta manipulação da taxa de juros.

Pouco antes de o BC decretar a liquidação do Master, o BRB tentou comprar parte do banco comandado por Vorcaro.

Quando a liquidação foi oficializada, o Master já não era capaz de honrar nem ao menos 15% de seus vencimentos mensais.

O BRB é conhecido pelos patrocínios no esporte, inclusive tendo sua logomarca estampada na camisa do Flamengo.

A instituição é a principal apoiadora da Confederação Brasileira de Tênis (CBT). A parceria com a entidade foi renovada em janeiro de 2025 e inclui apoio ao tênis profissional, beach tennis e tênis em cadeira de rodas.

A participação do BRB nos esportes à motor inclui o patrocínio à Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA), à equipe Alpine da Fórmula 1, ao piloto Gabriel Bortoleto, único brasileiro na F1, além dos naming rights da Stock Car, principal categoria do automobilismo nacional. Também já esteve no Sertões, chegando a adquirir o naming right da competição.

O BRB era ainda o principal parceiro do Real Brasília, mas o acordo chegou ao fim, representado o motivo principal para o encerramento das atividades do departamento de futebol feminino do clube.

Moriah Asset

As investigações do escândalo do Banco Master atingiram o empresário e pastor evangélico Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e considerado homem de confiança do banqueiro.

A PF apura se o líder religioso da Igreja Bola de Neve possui informações relevantes sobre os desvios que teriam sido praticados por Vorcaro à frente do Master.

Zettel é fundador da Moriah Asset, que se autodenomina o “primeiro veículo de investimentos em wellness [bem-estar] do Brasil”.

Criada em 2023, a companhia administra ativos avaliados em mais de R$ 1,8 bilhões, que incluem investimentos em empresas como Desinchá, o Grupo Frutaria, a marca de moda fitness Army, a linha de suplementos Super Nutrition e a rede de academias de luxo Les Cinq Gym.

O principal aporte feito pela empresa de Zettel foi na marca brasileira de açaí Oakberry, que se tornou conhecida pelos patrocínios a eventos esportivos e atletas no país e no mundo.

Oakberry conta com a tenista bielorrussa Aryna Salabenka como embaixadora e também é parceira de competições como US Open, Miami Open e WSL.

No automobilismo, a marca chegou a patrocinar a equipe Haas e foi fornecedora oficial do Grande Prêmio (GP) de São Paulo de Fórmula 1, além de haver marcado presença na Fórmula 4 e na Porsche Cup.