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A pressão silenciosa sobre João Fonseca

Com um talento ímpar para o tênis, brasileiro acaba "sufocado" pelo próprio sucesso comercial

João Fonseca celebra conquista das duplas no Rio Open 2026 - Fotojump

João Fonseca celebra conquista do torneio de duplas no Rio Open 2026 - Fotojump / Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • João Fonseca conquista título de duplas no Rio Open ao lado de Marcelo Melo, destacando-se como nova promessa do tênis brasileiro.
  • A imagem carismática e comunicativa de Fonseca gera grande expectativa e atenção da mídia, patrocinadores e público, consolidando seu 'Pacote Fonseca'.
  • Para garantir uma carreira longa e de alto nível, Fonseca precisa equilibrar a pressão externa com foco na saúde mental e desempenho esportivo.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

João Fonseca definiu a conquista do torneio de duplas do Rio Open. Fez os dois pontos decisivos para levantar, com Marcelo Melo, muito provavelmente o melhor duplista da história do tênis brasileiro, o título no Rio de Janeiro. Inédito para o jovem de 19 anos, o segundo para o veterano de 42.

Na cerimônia de premiação, Fonseca foi louvado pelos adversários, elogiado pelo companheiro de dupla (com quem nunca tinha jogado) e, claro, ovacionado pelo público. No discurso de agradecimento, o atleta lembrou de seu estafe, agradeceu o parceiro, parabenizou os rivais e, claro, o público. E prometeu, no fim, ainda ser campeão também em simples no Rio Open, meta que foi frustrada nesta edição de 2026.

Essa, aliás era a expectativa não apenas dele, mas do público, dos organizadores, da mídia brasileira (e possivelmente de boa parte dos jornalistas de todo o mundo) e, naturalmente, dos patrocinadores de João Fonseca.

O “Pacote Fonseca”

Quem acompanhou o Rio Open pela televisão teve a sensação de que tudo era sobre Fonseca. Os intervalos comerciais das transmissões foram amparados pela figura do jovem tenista brasileiro. As reportagens especiais quando a chuva paralisou as competições eram sobre a expectativa do público com João. A expectativa pelas palavras do brasileiro antes, durante e depois de cada lance, cada treino, cada jogo, cada instante.

Tudo isso faz parte do “Pacote Fonseca”.

Um atleta de alto nível, jovem, carismático, que ainda por cima sabe se comunicar bem. João é o sonho de qualquer marca, de qualquer mídia, de qualquer fã.

Não por acaso, sua família abreviou os planos que tinha para seu futuro, abandonou a ideia de aperfeiçoá-lo para o esporte atuando no tênis universitário norte-americano e “jogou-o” para os desafios do circuito mundial, em que ele já se consolida entre os 40 melhores.

Onde está o foco?

O que Fonseca faz, até agora, é muito para um país que não tem quase nenhuma tradição em manter talentos entre os maiores do mundo. E, até por conta disso, o brasileiro sofre uma pressão silenciosa.

João abraça, com uma maestria impressionante, a função de ser ídolo nacional, garoto-propaganda, personagem para a mídia e, além de tudo, manter um alto nível de performance dentro de quadra.

Na tentativa de incentivá-lo a ser tudo o que se espera dele, ignoramos que há uma etapa para que esse “tudo” possa ser construído. A cada aperto de mão, pedido de selfie e palavras de incentivo, um pouco mais de peso é colocado sobre os ombros dele.

Até agora, aparentemente, João também mostra que sabe que isso faz parte do “pacote”. Mas, se quisermos termos de fato um dos maiores atletas que o tênis brasileiro já viu atuando por muitos anos e no mais alto nível, precisamos tomar cuidado para não sobrecarregá-lo antes da hora.

João parece não ter medo de assumir a responsabilidade de ser o maior. Mas a pressão silenciosa não pode sufocar o talento abundante e visível que ele tem. O carioca de 19 anos está muito próximo de chegar onde ele mesmo se enxerga desde sempre. Mas, para isso acontecer, mais do que foco na performance esportiva, ele precisa ter saúde mental.

Mais do que carisma, bom relacionamento com a mídia ou entrega aos patrocinadores, o maior ativo comercial que um atleta pode ter é sua performance esportiva. E sempre será assim.

Erich Beting é fundador e CEO da Máquina do Esporte, além de consultor, professor e palestrante sobre marketing esportivo

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