Na história brasileira, as grandes mudanças, via de regra, sempre vieram de cima para baixo. Independência, república, fim da escravidão, voto feminino, transição da ditadura para a democracia e assim por diante.
São processos históricos que, por mais que tenham contado com mobilização social expressiva, acabaram tendo seus rumos decididos de fato por aqueles que dominavam os espaços de poder no país. Não seria diferente no futebol, modalidade que talvez possua a estrutura mais centralizada e verticalizada em todo o planeta.
Nos últimos meses, Brasília tem sido palco de uma movimentação ainda discreta, mas que tem o potencial de alterar para sempre os rumos do esporte mais popular da nação, afetando ainda os planos da Liga do Futebol Brasileiro (Libra) e do Futebol Forte União (FFU), blocos que tentam liderar, sem êxito, a criação de uma liga unificada no país.
Sem união
Apesar dos blocos ostentarem no nome termos como “liga” ou “união”, na prática essas palavras estão longe de corresponder à realidade existente no futebol brasileiro, marcado pela lógica hobbesiana (ou, por que não dizer, bezerriana?) de “se farinha é pouca, meu pirão primeiro”.
Enquanto clubes endividados topam qualquer negócio em troca de dinheiro no curto prazo, times mais estruturados financeiramente se recusam a abrir mão de levar vantagem neste momento, para que todos possam faturar muito mais lá adiante
O dirigente de um clube do FFU, que conversou com a coluna sob condição de anonimato, foi taxativo ao comentar sobre o momento atual.
“Ninguém quer saber de liga unificada. Estão todos preocupados apenas em vender parte dos direitos para a investidora”, disse, numa referência aos contratos firmados pelos clubes com a Sport Media Participações, que dão à empresa o controle sobre percentuais dos direitos comerciais e de mídia dessas equipes, pelo período de 50 anos.
Políticos se movimentam
Hoje, o quadro que temos no país é de uma série de clubes flertando com a falência, mesmo com alguns já havendo comprometido por décadas algumas de suas principais fontes de receitas.
O poder político parece estar atento a essa questão e passou a se movimentar, ainda que sem alarde, mas também sem trégua.
Em fevereiro deste ano, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) decidiu aplicar uma multa de R$ 559 mil à Libra, alegando que o bloco praticou “gun jumping”, que é uma operação de concentração econômica realizada antes de se obter a aprovação prévia obrigatória do órgão antitruste.
A penalidade caiu nas contas dos times mais ricos do grupo: Flamengo, Palmeiras, São Paulo, Santos e Grêmio, que está de malas pronta para deixar a Libra, rumo ao FFU.
O bloco Forte União também foi investigado e inicialmente escapou de punição porque seus clubes não alcançaram os limites financeiros que obrigariam a notificação ao Cade. Mais tarde, o órgão reconheceu que o grupo não praticou “gun jumping” e homologou o contrato do FFU.
Câmara dos Deputados
Mas o FFU segue na mira dos políticos em Brasília. No começo deste mês, o deputado federal Pedro Aihara (PRD/MG) apresentou requerimento endereçado ao ministro da Fazenda, Fernando Haddad, para que ele apresente “esclarecimentos sobre o funcionamento e a estrutura de beneficiários finais dos fundos de investimento da LCP Gestora de Recursos”.
Os questionamentos do parlamentar têm relação com a notícia que já havia sido divulgada pela Folha de S. Paulo no fim de janeiro e que voltou a repercutir na mídia há cerca de duas semanas, de que o fundo Astralo 95, suspeito de haver sido usado em negociações fraudulentas do Banco Master, de Daniel Vorcaro, seria um dos sócios do fundo do FFU.
Na verdade, a Life Capital Partners, que é detentora da Sport Media, estruturou dois fundos de investimentos, sendo que um deles foi aberto a cerca de 8 mil cotistas dispostos a injetar no mínimo R$ 10 mil no negócio. O Astralo 95, no caso, aportou R$ 30 milhões no investimento do FFU, mas nunca teve ingerência na gestão do fundo.
Seja como for, o questionamento feito pelo deputado dá munição para aqueles que questionam o modelo de negócio feito pelo bloco de clubes.
Ainda no início de março, o também deputado federal Beto Pereira (PSDB/MS) tentou promover um debate na Comissão do Esporte da Câmara, a respeito dos “problemas e desafios na formação das ligas no futebol brasileiro”.
Na justificativa, ele cita recentes polêmicas surgidas no FFU (inclusive artigo publicado na Máquina do Esporte, que trata da analisa a venda de parte dos direitos dos times à investidora Sport Media) e a questão dos clubes insatisfeitos com os rumos tomados pelo negócio. Esse encontro, porém, acabou sendo cancelado e por enquanto não tem nova data para ocorrer.
LaLiga
Das várias articulações de bastidores ocorridas em Brasília nas últimas semanas, uma passou quase que despercebida, mas pode ser decisiva para definir a questão da liga unificada no Brasil.
Em 24 de fevereiro, o ministro do Esporte, André Fufuca, recebeu em seu gabinete uma comitiva que contava com a presença de ninguém menos do que Javier Tebas, presidente da LaLiga. Na política, nada é aleatório, e um dos temas debatidos foi justamente a saúde financeira dos clubes brasileiros.
A LaLiga, vale lembrar, já experimentou há algumas décadas uma situação bezerriana do “meu pirão primeiro”, na venda dos direitos de transmissão. Na Espanha, vigorava uma regra similar à “Lei do Mandante”, existente no Brasil.
Por serem os clubes mais ricos e populares do país, Barcelona e Real Madrid recusavam-se a aderir às negociações coletivas da liga, firmando contratos com cifras muito maiores que as dos concorrentes.
Foi assim até que, na primeira década deste século, o Sevilla, que tinha um time competitivo e as finanças em dia, passou a peitar o modelo e decidiu não vender a ninguém seus direitos de transmissão pelas quantias que lhe eram oferecidas. Com isso, um jogo decisivo do Campeonato Espanhol, entre o clube e o Barcelona, acabou ficando sem qualquer tipo de transmissão. Os torcedores não puderam acompanhar a partida nem mesmo pelo rádio.
Mudança legal
Para evitar novos episódios como o do Sevilla, a LaLiga buscou uma solução política, com a aprovação de uma lei que manteve as propriedades dos clubes, mas determinou que as negociações de direitos de transmissão deveriam ocorrer de maneira coletiva.
Com isso, Barcelona e Real Madrid preservaram seu nível de receitas de mídia, mas os demais times experimentaram um aumento expressivo nos valores recebidos nessas negociações.
A experiência bem-sucedida da Espanha representaria um argumento e tanto para uma movimentação buscando uma eventual mudança na lei, que acabasse forçando a volta da negociação coletiva no Brasil. Mudança de cima para baixo, que altera por completo a natureza do negócio, mas sem mexer nas estruturas nem ameaçar quem hoje está no poder.
FPF
E por falar em mudanças e permanências, tudo seguirá como está na cúpula da Federação Paulista de Futebol (FPF). Reinaldo Carneiro Bastos caminha para ser reconduzido à presidência da entidade.
O cartola conseguiu reunir 63 assinaturas de dirigentes de clubes profissionais do estado e se cacifou como candidato único na eleição, que será realizada em 25 de março. O novo mandato será válido de 2027 a 2030.
No começo deste mês, Reinaldo tornou-se alvo de um inquérito conduzido pela Polícia Civil, a pedido do Ministério Público, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro. A investigação, ao que tudo indica, não abalou em nada a imagem do dirigente junto à cartolagem paulista.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
Conheça nossos colunistas