Ao que tudo indica, o futebol brasileiro começou a entender para que serve uma liga que represente comercialmente os clubes. Se, na última segunda-feira (16), a sensação era de que entraríamos em uma semana de desunião total entre a cartolagem, três dias depois parece que todos sentaram no cantinho do pensamento e saíram da escola de mãos dadas.
Tanto os representantes do Futebol Forte União (FFU) quanto os da Liga do Futebol Brasileiro (Libra) parecem ter percebido, finalmente, que é preciso ter consentimento e união para conseguir mais dinheiro e poder.
Desde que, há quase cinco anos, os clubes decidiram liderar um movimento e anunciaram à Confederação Brasileira de Futebol (CBF) que estavam criando uma liga imediatamente para negociar os direitos de transmissão das Séries A e B, vemos uma sequência de trapalhadas dos nossos cartolas que só os afastaram da criação de uma liga.
O que o dirigente esportivo brasileiro precisa entender é que a primeira função de uma liga é gerar uma negociação coletiva dos direitos de mídia de seus eventos. Porque é isso que permitirá a eles ganhar o maior dinheiro possível em uma negociação com as empresas do meio.
Depois disso, a liga precisa criar regras para deixar o mais equilibrada possível a distribuição dessa receita e, com isso, assegurar uma melhor saúde financeira dos seus clubes para, consequentemente, melhorar a qualidade do seu produto que, então, se valoriza ainda mais.
É para atingir esses objetivos que as ligas criam regras de compliance, estabelecem limites para os clubes agirem, interferem na gestão e buscam melhorar, como um todo, o futebol.
O problema é que, no Brasil, achamos que a liga serve para organizar a competição que os clubes disputam. Isso pode ou não fazer parte do pacote, mas essencialmente a função de uma liga é gerar a maior receita possível com a venda de ativos comerciais, especialmente os direitos de mídia.
Os norte-americanos entenderam isso nos anos 1930. O futebol, por sua vez, começou a se organizar dessa forma principalmente com o sucesso global da Premier League, em meados dos anos 1990. Até então, só a Alemanha, na década de 1960, havia criado a Bundesliga.
O problema é que o Brasil está mais para os países latinos do que para os anglo-saxões. Assim, chegamos, agora, perto do que a Espanha alcançou em 2015, a Itália em 2017 e Portugal chegará em 2028. Só que, nesses três países, foi preciso o Governo Federal intervir e exigir que a negociação coletiva de direitos fosse implementada em suas ligas, que já existiam.
Por aqui, ainda estamos falando em Libra e FFU para vender direitos. Isso é algo que a Itália percebeu, no fim dos anos 2010, que levou o futebol do país à falência. Dois grupos distintos negociando as mesmas coisas, com tamanhos e pesos diferentes.
Se os clubes realmente quiserem ter poder e dinheiro, precisam agora sentar juntos e discutir uma única via de representatividade comercial. Do contrário, seguirão perdendo dinheiro e, cada vez mais, poder.
Erich Beting é fundador e CEO da Máquina do Esporte, além de consultor, professor e palestrante sobre marketing esportivo
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