Foi-se o tempo em que participar de um evento esportivo era, essencialmente, sobre correr, pedalar ou nadar. Nesse tempo bem remoto, o produto era o percurso, a experiência. O resto era complemento.
Mas isso mudou. E a gente, que faz parte dos bastidores, consegue enxergar uma nova cultura nascendo. Hoje, 57,5% dos atletas dizem que o kit importa nos eventos esportivos, e 81,4% afirmam que ele é total ou parcialmente decisivo na hora de escolher em qual prova se inscrever. Esses dados são da última pesquisa sobre a importância dos kits, divulgada pelo Ticket Sports.
Outro dia, vi no Instagram uma corredora reclamando do tamanho da banana pós-prova. Percebe que o que antes era acessório virou critério? Isso diz muito menos sobre o kit e muito mais sobre a forma como as pessoas consomem, hoje, o esporte.
Esporte como forma de expressão
Na minha última coluna aqui, na Máquina do Esporte, falei sobre o esporte como produto cultural e forma de expressão, e, com alguns dados sobre consumo em mãos, fica claro que combinar camisetas, aguardar ansiosamente por lançamentos de tênis, escolher óculos estilosos e ter um acervo especial de cosméticos pensados no esporte não é só sobre performance, é sobre presença.
O atleta contemporâneo não quer só correr melhor. Ele quer correr do jeito certo.
O kit como extensão da experiência
Nesse cenário, o kit deixa de ser brinde e passa a ser parte da narrativa. O evento deixa de ser apenas o “dia da prova” e passa a ser percebido como uma experiência completa.
Ele carrega identidade visual, storytelling e traz a sensação de exclusividade. Funciona como uma espécie de materialização do evento antes mesmo da largada, afinal é a parte mais palpável do evento e que continua existindo depois, no pós-prova, nas redes sociais, nos treinos, no dia a dia.
Talvez seja por isso que kits mais elaborados ganham tanto valor. Eles não são apenas itens úteis; são símbolos. E a nossa sociedade está repleta disso, né?
Entre o essencial e o desejável
Se por um lado o esporte ganha força cultural e de pertencimento, por outro ele também absorve uma lógica cada vez mais orientada ao consumo. O risco é que o “ter” comece a competir com o “viver”, e aí entramos em uma contradição do que sempre prezamos: a experiência.
Eventos esportivos sempre foram experiências. O que mudou é que, hoje, essa experiência não se limita mais ao momento da largada até a linha de chegada. Ela começa muito antes, na expectativa, na preparação, na construção da narrativa nas redes sociais. E continua depois, na memória compartilhada, nos registros, nas medalhas exibidas, nos conteúdos gerados, inclusive por meio do que se consome. É uma jornada expansiva, mais longa e mais visível. O kit, nesse contexto, funciona quase como uma porta de entrada emocional.
Quando mais de 80% dos atletas dizem que o kit influencia a decisão deles, o recado é claro: o evento não é mais só o percurso.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Gabriela Donatello é formada em Comunicação Social e pós-graduada em Gestão de Marketing. Atualmente, é gerente de marketing do Ticket Sports, com uma trajetória de oito anos dedicada ao universo dos eventos esportivos, atuando em diversas frentes do setor
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