Quando pensamos na Fifa, a primeira coisa que nos vem à cabeça é a Copa do Mundo. Estádios lotados, grandes jogos, audiência global e patrocinadores de grande porte.
Mas quero trazer um ponto interessante: a Fifa talvez tenha um dos modelos de negócios mais poderosos do esporte mundial. E isso chama atenção porque a entidade que comanda o futebol mundial não possui clubes, não organiza campeonatos nacionais nem controla a modalidade no dia a dia como fazem NBA, NFL e Premier League, por exemplo. E, ainda assim, movimenta bilhões.
A razão disso é que a Fifa controla o ativo mais valioso do futebol mundial: a Copa do Mundo. Boa parte das receitas da entidade gira em torno do torneio. Segundo a própria Fifa, para o ciclo de 2027 a 2030, a projeção é de receitas de US$ 14 bilhões, sendo os direitos de transmissão a principal fonte de faturamento.
E faz sentido. Pouquíssimos eventos no mundo conseguem reunir tanta audiência ao mesmo tempo, em tantos países diferentes.
A Copa do Mundo deixou de ser apenas um torneio esportivo. Hoje, trata-se de um evento global de mídia. Ao seu redor, existe toda uma gigantesca operação comercial envolvendo patrocinadores, licenciamento, hospitalidade, ingressos, experiências e, mais recentemente, produtos digitais e novas plataformas de conteúdo.
Na prática, a Fifa aprendeu a transformar atenção global em receita e trabalha como ninguém algo muito valioso: a escassez. Diferentemente de ligas e competições que precisam gerar interesse toda semana, a entidade concentra grande parte do valor em eventos que acontecem em ciclos longos. A Copa, como todo mundo sabe, acontece apenas a cada quatro anos. Em um ambiente com excesso de conteúdo esportivo o tempo todo, essa raridade gera expectativa, audiência e enorme interesse comercial.
Os patrocinadores entendem isso perfeitamente. Marcas como Coca-Cola, Adidas, Visa, Lenovo e Aramco, entre várias outras, sabem que estar associadas à Fifa significa acessar um evento com alcance global, algo cada vez mais raro no mundo do entretenimento.
Também é importante entender como a entidade investe estas receitas. Parte dos recursos é destinada à organização de diversas competições, incluindo futebol masculino, futebol feminino, futebol de areia e futsal, além das premiações e da própria operação da entidade.
Outra parte vai para programas de desenvolvimento do futebol ao redor do mundo. Projetos como o “Fifa Forward” investem em infraestrutura, federações nacionais, arbitragem, formação de treinadores, futebol feminino e categorias de base em diversos países.
E a lógica aqui é muito clara: quanto mais o futebol cresce globalmente, mais valiosos se tornam os ativos comerciais da própria Fifa. Ou seja, desenvolver o futebol fortalece o produto que a entidade vende para emissoras, patrocinadores e parceiros comerciais.
Nos últimos anos, essa estratégia ficou ainda mais clara. A expansão da Copa do Mundo, o crescimento do futebol feminino e a nova Copa do Mundo de Clubes mostram uma Fifa ampliando seus ativos comerciais e fortalecendo sua presença global.
No fim, a entidade que comanda o futebol mundial deixou de ser uma organizadora de torneios. Hoje, o negócio da Fifa mistura esporte, mídia, entretenimento e distribuição global de conteúdo. E poucos players esportivos no mundo conseguem monetizar atenção como ela consegue.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Eduardo Corch é diretor-geral da EMW Global e professor do Insper. Tem 25 anos de experiência no mercado esportivo, com passagens por Adidas, Grupo BRF e Bridgestone, além de agências como Havas Sports & Entertainment. Foi líder de projeto na Copa do Mundo do Brasil 2014 (Adidas) e Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016 (Bridgestone), e gerenciou contratos de patrocínios com clubes, atletas e entidades esportivas
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