O Estádio Centenário, localizado em Montevidéu, no Uruguai, foi a sede da primeira final de Copa do Mundo da história. Inaugurado em 1930, com a disputa do jogo entre Uruguai e Peru, válido pela fase de grupos do Mundial inaugural da Fifa, o estádio ainda representou um pilar importante do projeto do governo uruguaio para a realização do torneio.
Isso porque o contexto da idealização da Copa do Mundo de 1930 envolvia um ambiente macroeconômico sensível na Europa por conta da Crise de 1929, iniciada nos Estados Unidos, mas que também afetou diversos países do Velho Continente. Com isso, a organização de um Mundial em algum país europeu seria financeiramente inviável devido à escassez de recursos na região.
Por outro lado, o Uruguai vivia um período de prosperidade e, como uma estratégia de projeção internacional e “soft power”, o governo do país, junto à Associação Uruguaia de Futebol (AUF), assumiu os custos de viagem e hospedagem de todas as delegações como forma de viabilizar o evento e a participação de um número razoável de seleções no torneio.
Financiamento
Para sustentar essa ambição, a infraestrutura local precisava refletir a imagem de poder que o país queria transmitir. Projetado pelo arquiteto Juan Antonio Scasso e construído em cerca de oito meses, o Estádio Centenário teve a sua engenharia financeira ancorada no poder público e nos recursos da AUF.
O governo uruguaio aprovou uma injeção de 300 mil pesos à época para as obras do Centenário e a organização do Mundial. Já a Comissão Nacional de Educação Física do país concedeu um empréstimo de 200 mil pesos sem juros e amortizável em até 30 anos para ajudar a AUF a construir o estádio. A entidade máxima do futebol uruguaio, por sua vez, aportou mais de 500 mil pesos para tirar o projeto do Centenário do papel.
O modelo de gestão do estádio também foi inovador para a época, com a administração ficando a cargo da Comissão Administradora do Campo Oficial (Cafo), uma organização mista composta por representantes da AUF e da prefeitura de Montevidéu.
Bilheteria e diplomacia
Sem a existência de direitos de transmissão de TV ou de um programa estruturado de patrocínios, a lógica comercial da Copa do Mundo operava em um modelo baseado apenas na venda de ingressos. Com isso, o retorno financeiro do evento dependia exclusivamente da bilheteria, o que exigiu dos organizadores uma estratégia de segmentação de preços bem-definida.
Nesse sentido, o público foi dividido em quatro zonas de precificação. Nas arquibancadas Colombes e Ámsterdam do estádio, os ingressos custavam 0,20 pesos, enquanto no setor Olímpica, o preço era de 0,50 pesos.
Já a entrada para a arquibancada Américas custava 1 peso e o acesso à área de assentos exclusivos chegava ao valor de 2 pesos. No geral, a estratégia foi bem-sucedida, e a final entre Uruguai e Argentina registrou mais de 68 mil pagantes, o que contribuiu consideravelmente para a receita total do Mundial, com bilheteria de cerca de 255 mil pesos à época.
A divisão das arquibancadas também se refletia nas áreas premium do estádio, mas sob uma lógica completamente diferente da observada atualmente nas arenas esportivas. Isso porque o conceito de hospitalidade corporativa, com camarotes adquiridos por empresas para facilitar negócios, não existia.
Dessa forma, a Tribuna América abrigava o “Palco Oficial” focado no relacionamento diplomático e de Estado. O espaço era reservado apenas para o presidente do país, embaixadores e a cúpula da Fifa.
