O futebol brasileiro não sofre de escassez de talentos. E também não sofre de escassez de clubes formadores.
Segundo o Relatório Convocados 2026, o país conta com 470 clubes dedicados exclusivamente às categorias de base. Além disso, em 2025, 1.049 clubes disputaram competições de base em todo o Brasil, um crescimento de 8% em relação ao ano anterior. Ao mesmo tempo, seguimos sendo o país que mais transfere atletas internacionalmente. Em 2025, foram mais de mil jogadores transferidos para o exterior.
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Mas uma pergunta me chamou atenção ao cruzar os dados do Relatório Convocados com os relatórios de transferências da Fifa: será que estamos transformando todo esse potencial em valor esportivo e econômico?
Em uma coluna publicada anteriormente, ao analisar o modelo do Ajax, defendi que desenvolvimento humano, excelência esportiva e sustentabilidade econômica não são objetivos concorrentes. Pelo contrário: fazem parte do mesmo sistema. Clubes que investem melhor na formação integral tendem a produzir atletas mais preparados, mais adaptáveis e mais valorizados.
Agora, olhando para os números do futebol brasileiro, essa reflexão parece ainda mais necessária.
Os dados da Fifa referentes à janela internacional de janeiro de 2026 mostram que o Brasil realizou 204 transferências internacionais de saída, enquanto a Bélgica registrou apenas 71.
À primeira vista, parece uma demonstração clara da força da formação brasileira. Mas quando observamos os valores envolvidos, a história muda, pois os clubes brasileiros receberam aproximadamente US$ 154,7 milhões com transferências internacionais no período, enquanto os clubes belgas receberam US$ 89,1 milhões.
Em outras palavras, o Brasil exportou quase três vezes mais atletas, mas arrecadou apenas 74% mais. Quando dividimos a receita pelo número de atletas transferidos, a diferença fica ainda mais evidente. Cada atleta exportado pelo Brasil gerou, em média, US$ 758 mil em receitas de transferência. Na Bélgica, esse valor chegou a US$ 1,25 milhão por atleta.
Ou seja: a Bélgica capturou cerca de 65% mais valor por jogador negociado.
Os números sugerem que o desafio brasileiro talvez não seja formar mais atletas. Talvez seja formar atletas capazes de gerar mais valor.
Essa reflexão ganha ainda mais relevância quando observamos a composição das receitas dos clubes brasileiros. Segundo o Relatório Convocados 2026, as transferências de atletas representaram aproximadamente 27% das receitas totais da Série A do Brasileirão em 2025, tornando-se a principal fonte individual de receita dos clubes.
O dado é relevante porque demonstra que a sustentabilidade econômica do futebol brasileiro depende cada vez mais da capacidade de desenvolver, valorizar e negociar atletas. Em outras palavras, uma parcela significativa das receitas dos clubes já nasce (ou deveria nascer) na formação.
E é aqui que os dados do Relatório Convocados trazem mais uma reflexão importante e contraditória ao dado mencionado acima: em 2025, os clubes brasileiros destinaram aproximadamente 92% dos investimentos ao elenco profissional, enquanto as categorias de base receberam apenas 3%. Os demais 5% foram direcionados à infraestrutura.
Ao mesmo tempo, os gastos com salários seguem entre os principais componentes da estrutura financeira dos clubes, e o endividamento total continua crescendo em ritmo superior ao crescimento das receitas.
Isso levanta uma questão estratégica: estamos investindo onde o problema aparece ou onde o valor nasce?
O futebol profissional consome recursos. A formação gera ativos. São funções diferentes dentro da mesma cadeia de valor.
Em outra coluna publicada aqui na Máquina do Esporte, ao abordar o novo processo da Fifa para compensação pela formação de atletas por meio da “Clearing House”, destaquei que o futebol mundial caminha para remunerar de forma cada vez mais eficiente os clubes responsáveis pelo desenvolvimento dos jogadores.
A mensagem é clara: formar bem deixou de ser apenas uma missão esportiva ou social e se tornou também uma estratégia econômica.
Mas para capturar esse valor, não basta ter clubes de base. É preciso investir na qualidade da formação. E isso nos leva a outro dado interessante do Relatório Convocados: entre as despesas dos clubes da Série A, apenas 9% estão relacionadas a pessoal.
Quando pensamos em formação, é comum imaginar centros de treinamento, alojamentos, academias e campos. Mas o principal ativo da formação continua sendo humano: treinadores, coordenadores, psicólogos, pedagogos, analistas, profissionais de educação e gestores capazes de construir ambientes de desenvolvimento.
A pergunta, portanto, talvez não seja apenas quanto investir na base, mas sim quanto estamos investindo nas pessoas responsáveis por formar os atletas.
O Brasil possui escala, tradição, talento e centenas de clubes dedicados à formação. O que os números parecem indicar é que ainda existe espaço para evoluir na transformação desse enorme potencial em valor esportivo, humano e econômico.
Como já disse acima, o futebol brasileiro não sofre de escassez de talentos e também não sofre de escassez de clubes formadores. O que os dados sugerem, e o que constatamos diariamente vivendo a gestão do futebol brasileiro, é uma escassez de investimento e visão estratégica na formação.
Enquanto bilhões são destinados à contratação e remuneração de atletas profissionais, apenas uma fração dos recursos chega aos ambientes responsáveis por desenvolver os próximos talentos.
Se as transferências já representam a principal fonte individual de receita dos clubes brasileiros, mas apenas 3% dos investimentos são destinados à base, talvez a pergunta não seja quanto investir no futebol, mas sim em que etapa da cadeia investir para gerar mais valor esportivo, humano e econômico.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva
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