Daqui a exatamente um ano, a bola rolará para outro Mundial de seleções. Entre os dias 24 de junho e 25 de julho de 2027, 32 equipes dos cinco continentes estarão reunidas pela primeira vez na América do Sul para a disputa da Copa do Mundo Feminina.
Esta será a 10ª edição do evento, que foi disputado pela primeira vez oficialmente em 1991, na China. Antes disso, porém, houve um torneio realizado pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) em 1988, também no país asiático, que atraiu mais de 400 mil pessoas aos estádios e acabou se provando um teste bem-sucedido para a modalidade.
Para se ter uma ideia de como a competição evoluiu ao longo de mais de três décadas, o público total da última edição, realizada em 2023 e que teve Austrália e Nova Zelândia como sedes, foi de 1.978.274 pessoas, média de 30.911 espectadores por partida. Ao todo, foram 64 jogos.
O recorde foi de 75.784 torcedores, registrado em três confrontos ocorridos no Stadium Australia, em Sydney, na estreia da seleção australiana diante da Irlanda, na semifinal entre a anfitriã e a Inglaterra, e na grande final entre Espanha e Inglaterra. Os Fifa Fan Festivals atraíram 777 mil pessoas ao longo do torneio.
São números promissores de um evento que chegará ao Brasil em um momento em que os grandes investidores internacionais despertaram para o potencial bilionário dos esportes femininos.
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Em um país que proibiu por quase quatro décadas as mulheres de praticarem o principal esporte global de massa, ainda pode parecer difícil compreender essa realidade.
Ao redor do planeta, porém, não faltam exemplos de que as modalidades femininas se tornaram a principal aposta para os grandes grupos de investimento.
Esse movimento fica muito evidente nas ligas norte-americanas, especialmente na Women’s National Basketball Association (WNBA), em que o valor combinado das franquias disparou para a marca de US$ 5,55 bilhões em 2025, com as novas equipes de expansão sendo vendidas por até US$ 250 milhões cada (cinco vezes mais do que o valor praticado apenas dois anos antes).
O Golden State Valkyries, antes mesmo de estrear, foi avaliado em US$ 500 milhões, cifra superior ao valor de mercado da grande maioria dos clubes de futebol da Série A do Brasileirão Masculino.
Estratégia da Fifa
A Fifa está atenta a esse movimento e tem procurado valorizar ao máximo sua principal competição feminina.
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Nos pacotes de mídia fechados pela entidade para a Copa Masculina, ela tem incluído também os direitos dos torneios femininos de 2027 e 2031.
Essa estratégia vigorou inclusive nos acordos audiovisuais fechados para os mercados da Índia e da China, países que, juntos, reúnem uma população de quase 3 bilhões de habitantes.
Ainda que os valores obtidos em algumas dessas negociações estejam longe de ser estratosféricos (nos dois casos citados, na verdade, a entidade teve de oferecer descontos significativos), a Fifa garante que a Copa Feminina estará disponível em diferentes plataformas para a maior parte das audiências globais, fato que se torna um argumento e tanto para os anunciantes.
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A última edição do torneio impactou uma audiência de mais de 2 bilhões de pessoas ao redor do mundo.
No Brasil, as transmissões feitas pela Globo, na TV aberta, e o canal por assinatura Sportv alcançaram 63 milhões de pessoas.
Já a CazéTV atingiu 24 milhões de dispositivos únicos conectados com a exibição dos jogos da Copa Feminina de 2023.
Existe, portanto, uma possibilidade imensa de esses números crescerem em 2027, garantindo um retorno financeiro ainda maior para a Fifa e seus parceiros comerciais.
Engajar a torcida
O Brasil não encontrou sobressaltos para ser escolhido como sede da Copa Feminina de 2027. O país beneficiou-se da infraestrutura herdada do torneio masculino, realizado em 2014, inclusive em relação às arenas modernas construídas à ocasião.
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Se, no passado, os gastos com a construção e a reforma de estádios ocasionou forte questionamento da sociedade, com direito a manifestações que tinham como lema “Não vai ter Copa!”, desta vez o governo não precisou realizar grandes investimentos para viabilizar a vinda do evento feminino.
O caso mais problemático envolveu o Estádio Mané Garrincha, em Brasília (DF), mas por conta de questões como gramado e acordos publicitários firmados pela atual gestora do local.
A sanção da Lei Geral da Copa do Mundo Feminina pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), garantirá a blindagem comercial do evento, inclusive no que diz respeito à circulação de profissionais que atuarão no torneio, à venda de bebidas alcoólicas em estádios e às publicidades de empresas de apostas, que não poderão operar no país sem outorga.
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Para tentar engajar os brasileiros em relação à competição, o Governo Federal tem realizado uma série de iniciativas para valorizar a memória da modalidade.
Na Lei Geral da Copa Feminina, por exemplo, o Congresso aprovou e o executivo manteve o pagamento de uma premiação de R$ 500 mil para cada jogadora que disputou o Torneio Experimental de 1988 ou a Copa Feminina de 1991.
O Ministério do Esporte ainda lançou, nesta terça-feira (23), o documentário “Brasil 88 – Depois do Silêncio”, obra inédita que resgata a trajetória da primeira seleção brasileira feminina de futebol.

O filme apresenta imagens de arquivo, depoimentos inéditos e reencontros emocionantes das atletas em estádios históricos brasileiros. A produção revisita a trajetória das mulheres que, mesmo sem salários, sem estrutura adequada e enfrentando décadas de preconceito e a proibição da prática do futebol feminino no país, conquistaram o terceiro lugar no torneio.
“Lançar este documentário ao lado das mulheres que escreveram as primeiras páginas da história da seleção brasileira feminina é um gesto de reconhecimento e justiça. Queremos que meninas e meninos conheçam essas atletas, entendam os desafios que enfrentaram e percebam que o esporte pode transformar vidas, romper barreiras e abrir caminhos para novas gerações. O legado da Copa do Mundo de 2027 também passa pela preservação dessa memória”, afirmou Paulo Henrique Cordeiro, ministro do Esporte.
Para além dos esforços institucionais, a Copa Feminina de 2027 terá um atrativo a mais para os brasileiros, já que deve representar o desfecho da trajetória de uma lenda do esporte.
Aos 41 anos de idade, a Rainha Marta caminha para o último ato oficial em Mundiais. Atuando diante de sua própria torcida, ela terá a chance de ampliar seu recorde absoluto de 17 gols (número que Lionel Messi acaba de quebrar na Copa Masculina, mas que a brasileira tem plenas condições de superar).
Além da expectativa em torno do que essa participação derradeira pode render dentro de campo, a provável última Copa de Marta, em casa, pode representar uma oportunidade e tanto para as marcas construírem campanhas baseadas em temas como longevidade, pioneirismo e legado.
Isso sem contar o restante do elenco brasileiro, que conta com nomes que hoje brilham no país e se destacam em mercados consolidados, como Kerolin, do Manchester City; Gabi Portilho e Ludmila, do San Diego Wave; Ary Borges, do Angel City; Duda Sampaio, do Corinthians; e Bia Zaneratto, do Palmeiras, que podem render boas histórias e forte conexão com o público.
