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Cristiano Benassi, especial para a Máquina do Esporte

Cristiano Benassi

7 min de leitura

Análise

A Copa do Mundo engajou os norte-americanos?

Quebrar o domínio histórico e mercadológico de outras modalidades no país não é uma tarefa fácil para o futebol, mas não há dúvida de que o legado do Mundial de 2026 será gigante nas mais diversas frentes

Cristiano Benassi, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

16/07/2026 08h00

Torcida norte-americana lotou o San Francisco Bay Area Stadium na vitória sobre a Bósnia e Herzegovina na 2ª fase da Copa do Mundo - Reprodução / Instagram (@usmnt)

⚡ Máquina Fast
  • O futebol nos Estados Unidos enfrenta competição cultural com esportes tradicionais como futebol americano, basquete e beisebol, mas tem crescido significativamente, especialmente após a Copa de 1994 e o estabelecimento da MLS.
  • A Copa de 2026 atingiu enorme engajamento, com recordes de audiência televisiva, vendas de produtos licenciados esgotadas e altos públicos em estádios adaptados para o evento.
  • O desempenho da seleção masculina, ações de marketing da U.S. Soccer e a participação ativa de outras seleções fomentaram o aumento do interesse e a consolidação do futebol como uma paixão nacional nos EUA.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Para tentar responder à pergunta do título desta coluna, o primeiro ponto a ser levado em consideração é o tamanho do país, com diversas particularidades em cada uma de suas regiões. Estamos falando de mais de 340 milhões de habitantes espalhados por 50 estados.

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Quando se fala em esporte, diferentemente do que estamos acostumados no Brasil, onde o futebol reina absoluto, nos Estados Unidos o consumo é culturalmente descentralizado. O futebol americano, o basquete e o beisebol são os gigantes tradicionais no consumo e nas transmissões.

Na região conhecida como “Bible Belt” (que abrange boa parte do Sul e do Centro-Oeste do país), o futebol americano é quase uma religião, desde o nível profissional até o fortíssimo ambiente universitário e escolar. Mais ao Norte e na Costa Leste, o basquete ganha uma imponência tremenda nas quadras urbanas e arenas da NBA, dividindo as atenções com o hóquei no gelo no inverno.

Além dos esportes mais tradicionais, tudo nos EUA tem estrutura, formato, acesso e engajamento. Do pickleball ao tênis, do golfe ao boliche, do lacrosse ao flag football. Tem liga, tem transmissão de TV, tem patrocínio, tem estrutura.

Assim, quebrar esse domínio histórico e mercadológico não é uma tarefa fácil para o futebol.

Nas décadas de 1970 e 1980, houve uma primeira onda com Pelé vindo jogar no New York Cosmos. Depois, tivemos a Copa de 1994, que deixou o legado definitivo de impulsionar a criação da Major League Soccer (MLS).

Até chegarmos nesta Copa de 2026, o futebol teve seu crescimento mais acentuado. Em número de praticantes na base, já disputa o topo com os esportes tradicionais, e as ligas masculinas e femininas crescem em números agressivos, tanto nas transmissões como em valor de mercado das franquias e jogadores de impacto global representando os clubes.

Vale destacar que o público norte-americano já consumia muito o esporte por causa do sucesso histórico e da soberania de sua seleção feminina (USWNT), que sempre foi uma potência de mídia no país. No entanto, a Copa de 2026 provou que o lado masculino atingiu a relevância cultural em massa, unificando a paixão nacional pelo esporte.

Quando olhamos para a seleção masculina nesta Copa, o salto de patamar é evidente. Dos 26 convocados pelo técnico Mauricio Pochettino, 17 defendem clubes europeus (em ligas de elite como Premier League, Serie A, Bundesliga, Ligue 1 e Eredivisie), 8 atuam na MLS e 1 na Liga Mexicana. O cenário é da água para o vinho se comparado à Copa de 1994, quando apenas 5 atletas atuavam na Europa, e a maioria em clubes de menor expressão. Em termos de relevância no mercado global, o produto “jogador norte-americano” mudou de prateleira.

Isso ajuda a explicar o cenário macro onde o futebol está inserido no país: uma competição de alto nível com gigantes da indústria do entretenimento.

Queria deixar claro que esta é a minha visão, baseada nos fatos que acompanho no meu dia a dia vivendo nos EUA e, claro, embasada nos números e nas pesquisas de mercado.

Quer um exemplo prático e culturalmente interessante? O álbum de figurinhas da Copa. Isso é algo extremamente comum e engajador para nós, brasileiros, correto? Todos aguardam o lançamento, compram, trocam nas praças. Por aqui, pouco antes da Copa, vi gente perguntando como funcionava, se eram “cards” colecionáveis, onde guardavam, se realmente colavam em um livro. Mas vi o processo natural de engajamento crescer diante dos meus olhos. A Panini participou ativamente de eventos e jogos pré-Copa divulgando o produto. Somou-se a isso a euforia do torneio. E o resultado? Tentei comprar figurinhas duas semanas antes do Mundial e, em vários lugares em que fui, a resposta foi uma só: acabou.

Números

Voltando à pergunta do título, explicar se o norte-americano engajou com a Copa sem explicar esse contexto cultural não faria sentido. Afinal, vejam com o que o futebol está competindo. Mas, diante de todos os desafios, minha resposta seria: sim, e muito.

Vamos aos números, que não mentem. Na partida dos Estados Unidos contra a Bósnia e Herzegovina, que carimbou a vaga para as oitavas de final, a transmissão em inglês registrou a impressionante marca de 33,5 milhões de telespectadores. Outro fenômeno aconteceu no jogo das oitavas de final contra a Bélgica, em Seattle: a transmissão registrou 50,1 milhões de pessoas. Para se ter uma ideia da magnitude, foi a maior audiência televisiva do país para qualquer evento que não seja da NFL em todo o século.

E essa febre das transmissões se refletiu perfeitamente nas arquibancadas. O modelo de utilizar as monumentais arenas da NFL se provou um acerto estrondoso: a média de público nos estádios norte-americanos nesta Copa pulverizou recordes históricos de bilheteria e receita para a Fifa, demonstrando a força avassaladora do turismo esportivo, tanto doméstico quanto internacional, no país.

Falando em produtos: as camisas da seleção norte-americana ficaram praticamente esgotadas em todo o país. E é claro que o desempenho em campo ajudou a impulsionar essa febre, especialmente quando o time garantiu duas vitórias contundentes nos primeiros jogos, classificando-se em primeiro no grupo. Afinal, quem não gosta de ganhar?

Mas, voltando ao que vi e vivi por aqui, não foi só o resultado em campo. A Federação de Futebol dos Estados Unidos (U.S. Soccer) fez um trabalho de distribuição impecável. Havia produtos licenciados em todos os lugares: supermercados, lojas esportivas, postos de gasolina, farmácias. As marcas parceiras e patrocinadoras ativaram pesado com o público em ações de rua, comerciais de TV e campanhas massivas nas redes sociais. O dia a dia do consumidor médio foi impactado positivamente. No dia 4 de Julho, dia em que se comemora a independência norte-americana, feriado mais celebrado do país, o que mais se via pelas ruas eram camisas da seleção, bandeiras e acessórios do “soccer”.

E embora eu cite bastante a seleção local, o fato que realmente chama a atenção é como as outras federações também buscaram engajar com o público norte-americano. Alemanha e Portugal, por exemplo, montaram suas próprias “Casas” em Nova York, espaços proprietários para convidar torcedores para assistir aos jogos, interagir com patrocinadores e gerar um senso de comunidade e pertencimento de marca. As Fan Fests oficiais e as “watch parties” espalhadas pelas cidades-sede estavam constantemente lotadas, independentemente de quem estivesse em campo.

Por fim, um indicador de bastidores bem bacana: a televisão. Os programas esportivos tradicionais da grade norte-americana, que costumam passar horas debatendo apenas o trio futebol americano/basquete/beisebol, abriram janelas diárias de cobertura dedicada à Copa, repercutindo o Mundial de forma analítica e contínua.

Por tudo isso, acredito fortemente que a Copa do Mundo não apenas engajou o norte-americano, mas fincou uma bandeira definitiva por aqui. O legado dessa Copa será gigante nas mais diversas frentes dentro do ecossistema do futebol.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Cristiano Benassi, executivo de marketing esportivo com mais de 20 anos de experiência em empresas como Nike, Samsung e Adidas, é atualmente diretor sênior de produtos de consumo da Federação de Futebol dos Estados Unidos (U.S. Soccer), responsável pela parceria da entidade com a Nike. Formado em Propaganda & Marketing, com MBA em Gestão de Marketing Esportivo, também já atuou na liderança de parcerias estratégicas com atletas, clubes, federações e grandes eventos como Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e Champions League

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