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Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti

9 min de leitura

Análise

Categorias de base no centro do novo futebol: Mais dados, mais autonomia e menos centralização no processo de decisão

Tecnologia, especialmente inteligência artificial, pode reduzir distâncias, ampliar acesso e acelerar conexões, mas não substitui formação, planejamento, educação e desenvolvimento humano

Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

03/06/2026 06h28

Aplicação industrial de dados, biometria e inteligência artificial na formação de atletas deixou de ser uma vantagem competitiva para se tornar uma questão de sobrevivência - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • A tecnologia e a IA estão transformando o futebol ao ampliar o acesso e a visibilidade de atletas, principalmente na base, reduzindo a dependência das conexões tradicionais.
  • O novo regulamento da Fifa permite que atletas negociem suas transações sem agentes, fortalecendo a autonomia na gestão da carreira.
  • Apesar da democratização do acesso, a construção de carreira exige preparo humano, planejamento e apoio para evitar decisões precipitadas e vulnerabilidades.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Para mim, poucas recordações representam tão bem a transformação do futebol quanto uma história contada pelo Sr. Juan Figer, pioneiro na gestão de atletas (agente do Pelé, para quem precisar de uma referência): para apresentar seus jogadores ao mercado, ele viajava carregando malas cheias de fitas com vídeos. Agendar reuniões com clubes era infinitamente mais difícil do que hoje. Mostrar um atleta ao mercado também.

Costumo trazer essa lembrança à mente quando reflito sobre o quanto a tecnologia vem participando de uma transformação profunda no futebol, como negócio, como profissão e como possibilidade para atletas.

Existe um evidente movimento de descentralização das conexões e do poder dentro da indústria.

Hoje, temos acesso, pelas redes sociais e plataformas digitais, a pessoas que antes eram praticamente inacessíveis. Isso não substitui as relações humanas e tampouco elimina todas as barreiras de entrada do mercado. Mas o cenário mudou e isso já não é discutível.

Em outras oportunidades, já abordei a presença cada vez mais ativa das famílias na tomada de decisão sobre a carreira dos filhos atletas. Agora, amplio essa reflexão para um novo ponto: a autonomia do próprio atleta na gestão da sua carreira.

Respaldados por familiares ou por uma rede de apoio formada por especialistas de confiança, vemos crescer o número de atletas que desejam participar de maneira mais ativa e estratégica da construção do próprio caminho. E tudo indica que este seja um movimento sem volta.

A própria Fifa abre espaço para isso.

Em vigor desde janeiro de 2023, o novo regulamento de agentes da Fifa passou a prever expressamente a possibilidade de que atletas negociem e concluam transações sem recorrer a um agente de futebol. O trecho do Artículo 12.12 do “Fifa Football Agent Regulations” deixa isso claro: “Um cliente poderá negociar e concluir uma transação sem recorrer a um agente de futebol”.

Na prática, o regulamento reforça algo simbólico para a indústria: a ideia de maior autonomia do atleta na gestão da própria carreira. E, ao mesmo tempo, fora das quatro linhas, outro movimento avança em velocidade impressionante.

A última edição da São Paulo Innovation Week (SPIW), realizada entre os dias 13 e 15 de maio, trouxe evidências concretas do impacto da tecnologia, especialmente da inteligência artificial (IA), em praticamente todos os setores da economia. E o futebol definitivamente não ficou fora disso.

Hoje, talvez o uso mais evidente da IA no futebol esteja na capacidade de acessar, cruzar e interpretar dados em escala global.

Nesse cenário, plataformas como a TransferRoom vêm transformando a lógica das conexões dentro da indústria do futebol. Relações antes altamente dependentes de networking pessoal e acesso restrito passaram a ser organizadas em ambientes digitais que conectam clubes, agentes e profissionais do mundo todo em poucos cliques.

Dados, vídeos, métricas físicas, desempenho esportivo e informações contratuais passaram a circular com velocidade e alcance sem precedentes.

Mas existe um ponto ainda mais interessante nessa transformação: o impacto potencial sobre o futebol de base.

Historicamente, um dos maiores desafios das categorias inferiores sempre foi a visibilidade. Muitos atletas talentosos não ficavam para trás apenas por questões técnicas, mas pela dificuldade de acesso ao mercado, à informação e às conexões certas.

Agora, soluções como Footlink e Chance Scout prometem alterar essa dinâmica ao criar ambientes digitais voltados à descoberta, monitoramento e exposição de jovens atletas.

Conversando com Felipe Bergamaschi, CEO da Chance Scout, com exclusividade para esta coluna, levei duas reflexões que considero centrais para entendermos o momento atual do futebol.

Felipe Bergamaschi é CEO da Chance Scout – Divulgação

Ana Teresa Ratti (ATR): A tecnologia está realmente democratizando o acesso de jovens atletas ao mercado do futebol ou apenas tornando o processo mais eficiente para quem já tinha acesso?

Felipe Bergamaschi (FB): Prefiro responder com honestidade: tecnologia sozinha não democratiza nada. Ela amplifica. Quem já tinha rede, recurso e visibilidade passa a ter mais rede, mais recurso e mais visibilidade, em menos tempo. Se a gente parar de pensar nesse ponto, a tecnologia inclusive piora a desigualdade do mercado.

A democratização acontece quando alguém desenha o produto com uma intenção específica: mudar quem é visto, e não só como é visto. É uma decisão, não uma consequência. Foi assim que pensamos a Chance Scout. Olhamos para a faixa de 13 a 20 anos e para uma realidade muito concreta. O atleta de várzea, o Sub-15 de uma cidade pequena, a menina da escolinha sem federação, hoje, simplesmente não está no radar de ninguém. Os clubes pagam caro para enxergar uma fatia minúscula do mercado, e o resto segue invisível.

A pergunta que a gente se fez foi prática: dá para usar IA para tornar visível quem nunca foi visto? Não para substituir o olhar humano, mas para devolver tempo a esse olhar. Para que um “scout” consiga avaliar 100 atletas onde antes avaliava 5. Para que o garoto de Manaus (AM), de Indaiatuba (SP), de Pelotas (RS), não dependa de estar no lugar certo no dia certo.

Mas eu seria desonesto se parasse por aí. Visibilidade é só a primeira camada. Ter dados sobre um jogador não significa que ele, ou a família dele, saiba o que fazer com a oportunidade quando ela aparece. É exatamente nesse vácuo que nascem decisões ruins. Por isso, a gente costuma dizer, internamente, que não vende sonho. Oferece rota. A tecnologia abre a porta. O caminho até passar por ela ainda exige preparo humano.

ATR: Plataformas e inteligência artificial estão, de fato, reduzindo a dependência das conexões pessoais tradicionais no futebol?

FB: Na minha opinião, elas não reduzem. Elas mudam quais conexões importam, e em que momento elas importam.

A rede pessoal sempre vai existir no futebol. Quem está no mercado sabe que confiança não se constrói por planilha. Um clube grande não contrata um atleta de 16 anos porque um relatório disse que ele é bom. Contrata porque alguém com histórico no setor garantiu por ele, sentou com a família, conheceu o caráter do garoto. Essa camada é insubstituível, e eu defendo que continue sendo.

O que a IA está fazendo, na minha leitura, é mudar o ponto de entrada na rede. Antes, para um “scout” de um clube europeu olhar para um Sub-17 do interior de Goiás, era preciso uma coincidência muito improvável. Alguém precisava conhecer alguém que conhecia alguém. Hoje, esse mesmo “scout” pode receber um sinal de que existe um atleta com perfil compatível com o estilo de jogo do clube, com dados objetivos para sustentar a recomendação. A conexão pessoal continua sendo a chave para a porta abrir. A diferença é que a porta finalmente aparece no mapa.

Eu vejo isso como uma democratização do acesso à conversa, e não como o fim das conexões. O garoto sem rede, antes, ficava de fora da conversa inteira. Agora, ele entra. E, a partir daí, a rede pessoal continua valendo, do jeito que sempre valeu.

Tem um efeito colateral interessante nisso, que, na minha opinião, vale a pena trazer para o debate. Quando os dados ficam mais transparentes, a influência da rede também fica mais auditável. Mas vale separar duas coisas: dado melhora a qualidade da decisão, dado não elimina o risco da decisão. Um atleta que tem números excelentes hoje pode mudar de comportamento amanhã, sofrer uma lesão, perder a fome. Essas variáveis não cabem em histórico, e está tudo bem que não caibam. Essa imprevisibilidade é, para mim, a magia do esporte. Se fosse possível prever tudo, o futebol deixaria de ser futebol. A IA aumenta nossa chance de acertar. Ela não promete que vamos acertar. E é exatamente nesse espaço, entre o que o dado mostra e o que o jogo decide, que o “scout”, o agente e a família continuam sendo decisivos.

Para finalizar a coluna, como podemos notar pela percepção do Felipe, as respostas talvez ainda estejam sendo construídas pela própria indústria. Mas é inegável que estamos diante de uma mudança estrutural, e a promessa é poderosa: democratizar oportunidades. Mas talvez a principal reflexão não seja tecnológica, e, sim, humana.

Porque acesso à informação não significa, necessariamente, capacidade de decisão. Ter visibilidade não garante construção sustentável de carreira. E autonomia, sem preparo, pode inclusive aumentar vulnerabilidades.

Se antes muitos atletas dependiam exclusivamente de intermediários para entrar no mercado, agora cresce o risco de que jovens e famílias precisem tomar decisões complexas sem estrutura suficiente para compreender as consequências esportivas, jurídicas, financeiras e emocionais dessas escolhas.

A tecnologia pode reduzir distâncias. Pode ampliar acesso. Pode acelerar conexões. Mas ela não substitui formação, planejamento, educação e desenvolvimento humano.

E talvez esse seja exatamente o grande desafio do novo futebol: preparar atletas não apenas para serem vistos pelo mercado, mas para saberem navegar nele.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva

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