Se as Copas do Mundo das décadas anteriores foram marcadas pela busca da esfericidade perfeita e pela introdução de materiais sintéticos nas bolas do torneio da Fifa, o ciclo de quatro edições entre os Mundiais de 2014 e 2026 representa a transformação dos modelos criados pela Adidas em um dispositivo tecnológico de alta precisão e uma ferramenta de engajamento digital.
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Nesse período de 12 anos, a parceria entre Fifa e Adidas deixou de focar apenas na performance e na aerodinâmica para integrar a bola ao ecossistema de dados da partida, culminando no conceito de “bola conectada”. Comercial e estrategicamente, o produto também passou a dialogar diretamente com o fã por meio de chips Near Field Communication (NFC) e a carregar narrativas de sustentabilidade e responsabilidade social, ampliando as receitas de merchandising da marca alemã e da entidade máxima do futebol mundial.
Redenção pelo engajamento (2014)
Depois de receber muitas críticas em relação à “Jabulani”, bola do Mundial de 2010, por conta da sua trajetória imprevisível, a estratégia de Fifa e Adidas para o modelo que seria usado na Copa do Mundo de 2014, no Brasil, foi pautada em dois pilares: validação técnica extrema e democratização da escolha.
Nesse sentido, a bola desenvolvida para a Copa de 2014 foi a mais testada da história pela Adidas até então, envolvendo mais de 600 jogadores profissionais e 30 equipes de 10 países ao longo de dois anos e meio de avaliações.

Do ponto de vista do marketing, a grande novidade foi permitir que o público escolhesse o nome da bola por meio de votação popular, algo inédito na história da Copa do Mundo. A campanha engajou mais de 1 milhão de torcedores brasileiros, que escolheram o termo “Brazuca” com 77,8% dos votos. As outras opções eram “Bossa Nova” e “Carnavalesca”.
Composta por apenas seis painéis idênticos em formato de hélice, a bola oferecia maior aderência e estabilidade em relação às suas antecessoras. O design, inspirado nas fitas do Senhor do Bonfim, gerou uma identidade visual forte e colorida, o que também ajudou a diferenciar o modelo e a impulsionar as vendas. Com isso, a Adidas reportou recordes de comercialização, com mais de 14 milhões de unidades vendidas globalmente.
Salto digital (2018)
Para a Copa do Mundo da Rússia, em 2018, a estratégia da Adidas foi unir a nostalgia visual com a inovação digital. A “Telstar 18”, como o modelo foi batizado, prestou homenagem à primeira bola da Adidas em Mundiais da Fifa, resgatando a estética pixelada em preto e branco, mas com uma nova carcaça sustentável e embalagem reciclada.
A grande revolução comercial, no entanto, estava no interior do produto. A “Telstar 18” foi a primeira bola oficial a vir equipada com um chip NFC. Isso permitiu que os consumidores interagissem com o modelo por meio de seus celulares, acessando conteúdos e desafios da marca.

Essa tecnologia transformou a bola de um objeto passivo em um ponto de contato digital entre a marca alemã e o fã, abrindo novas frentes para ativação de patrocínio e coleta de dados de comportamento do usuário.
Além disso, a Adidas lançou, pela primeira vez, uma versão específica da bola do Mundial para a fase de mata-mata do torneio. Chamado de “Telstar Mechta”, que significa “Sonho” ou “Ambição” em português, o modelo ainda representou uma nova janela de vendas para o varejo durante o torneio.
Dados e propósito social (2022)
A “Al Rihla”, que significa “A Jornada” em português, foi a bola da Copa do Mundo realizada no Catar, em 2022. O modelo teve o seu patamar tecnológico elevado pela Adidas ao receber a “Connected Ball Technology”, que consistia em um sensor de Unidade de Medição Inercial (IMU) de 500Hz suspenso no centro da bola.
A introdução dessa tecnologia ainda foi crucial para a implementação do impedimento semiautomático, que agilizou as decisões da arbitragem durante o torneio, e também para o fornecimento de métricas das partidas para as transmissões televisivas. Em relação à aerodinâmica, a “Al Rihla” foi projetada para ser a bola mais rápida da história em voo, respondendo à intensidade crescente do futebol moderno.

Comercialmente, o modelo ainda inaugurou uma era de “marketing de propósito” ao ser a primeira bola da Copa do Mundo a ter 1% de suas vendas líquidas revertidas para o movimento Common Goal, financiando projetos sociais de futebol em todo o mundo.
Além disso, a “Al Rihla” foi fabricada exclusivamente com tintas e colas à base de água, atendendo à demanda global por produtos mais sustentáveis. Para as semifinais e a final, a Adidas lançou a “Al Hilm”, que significa “O Sonho” em português, com base dourada, reforçando a estratégia de desenvolver versões exclusivas para jogos decisivos do Mundial.
União continental (2026)
Olhando para o futuro, a Fifa e a Adidas já apresentaram a “Trionda”, bola oficial da Copa do Mundo de 2026, que será sediada conjuntamente por Estados Unidos, Canadá e México. O nome, que traduzido do espanhol significa “Três Ondas”, reflete a união das três nações anfitriãs.
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O design do modelo foca na celebração das três sedes do torneio, utilizando as cores vermelho, verde e azul em uma estrutura de quatro painéis que formam uma geometria fluida. Elementos visuais como a folha de bordo, a águia e a estrela, símbolos que estão nas bandeiras de Canadá, México e Estados Unidos, respectivamente, foram incorporados à estética do produto, maximizando o apelo de merchandising em três dos maiores mercados consumidores do mundo.
A Trionda também manterá a tecnologia de bola conectada, principalmente para atividades ligadas à arbitragem, consolidando a visão da Fifa e da Adidas de que a bola oficial não é apenas o centro do jogo, mas um hub de tecnologia, dados e identidade cultural que movimenta centenas de milhões de dólares a cada ciclo de Copa do Mundo.
