Se a introdução da “Telstar” no Mundial de 1970 marcou o início da parceria entre Fifa e Adidas, as Copas do Mundo realizadas entre 1978 e 1994 representaram a consolidação de uma identidade visual da marca alemã, além de uma grande evolução em termos de fabricação das bolas de futebol com a chegada dos materiais sintéticos.
Dessa forma, a Adidas apostou em uma consistência estética baseada no design de “tríades” e nas cores preto e branco durante cinco edições consecutivas do torneio, transformando a bola da Copa do Mundo em um ícone global facilmente reconhecível.
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Ao mesmo tempo, a empresa passou a associar o nome dos modelos a tradições e elementos culturais dos países-sede, criando narrativas específicas para cada bola com o objetivo de aumentar as vendas do produto.
O nascimento de um ícone visual (1978 e 1982)
Para a Copa do Mundo de 1978, na Argentina, a Adidas lançou a “Tango”, em homenagem à tradicional dança local, como bola oficial do torneio. Diferentemente de sua antecessora, a “Telstar”, que apostava no contraste de gomos pretos e brancos para visibilidade na TV, o modelo introduziu um design composto por 32 painéis com “tríades” (triângulos curvos) impressos. O efeito visual criava a ilusão de óptica de 12 círculos brancos idênticos envolvendo a esfera.
Do ponto de vista dos negócios, a “Tango” também foi um marco. Isso porque o seu design criava uma assinatura visual única que girava no gramado e chamava a atenção do público tanto nos estádios quanto nas transmissões. Com isso, houve uma grande demanda pelo modelo, e a Adidas chegou a licenciar a produção da bola para algumas fábricas argentinas.

As versões usadas nos jogos eram produzidas na França e chamadas de “Tango Durlast”, enquanto a versão produzida na Argentina, voltada apenas para réplicas comerciais ou para os treinos de algumas seleções, como os próprios donos da casa, foi batizada de “Tango River Plate”.
A estratégia foi tão bem-sucedida que o design foi mantido para a Copa do Mundo de 1982, quando a Adidas promoveu a “Tango Espanha” como bola oficial do evento. Com avanços sutis, mas inovadores para a época, o modelo foi o primeiro a apresentar costuras emborrachadas e seladas para repelir a água de forma mais eficiente.
Além disso, a “Tango Espanha” ainda carrega a simbologia de ter sido a última bola de couro genuíno utilizada em uma Copa do Mundo, encerrando um ciclo de manufatura que remetia a uma fase quase artesanal do futebol.
Em relação aos negócios, a bola da Copa de 1982 continuou a alavancar a força da marca “Tango”. Nesse sentido, a Adidas promoveu a bola como uma versão tecnologicamente superior aos modelos anteriores, destacando suas qualidades de impermeabilidade. O nome “España” e o logotipo do trevo da Adidas, que apareceu pela primeira vez em uma bola de Copa do Mundo, ainda ajudaram a conectar o produto diretamente ao evento e à identidade da marca.
A revolução sintética (1986)
A virada tecnológica que definiu o mercado moderno de bolas de futebol aconteceu na Copa do Mundo do México, em 1986, com a criação da “Azteca”, a primeira bola oficial da história da competição a ser totalmente sintética. Essa mudança não foi apenas uma escolha técnica dos engenheiros da Adidas, mas sim uma necessidade operacional.
Isso porque o material sintético, nesse caso o poliuretano, era vital para garantir que a bola mantivesse a sua forma e não absorvesse água, características essenciais para o desempenho na altitude e no calor do México, além de superfícies duras e molhadas.
Com a “Azteca”, a Adidas também refinou sua estratégia de marketing, aprofundando a conexão com o país-sede. Pela primeira vez, o design das tríades incorporou elementos gráficos inspirados na arquitetura e nos murais do povo asteca, civilização que habitou o México até a colonização dos espanhóis. Com isso, a bola deixou de ser um item genérico e se tornou um souvenir cultural, abrindo novas frentes de receita em merchandising ao criar uma narrativa de produto mais elaborada para o consumidor final.
Refinamento técnico (1990 e 1994)
A Copa de 1990, na Itália, viu a criação da bola “Etrusco Unico” pela Adidas. Seguindo a lógica comercial estabelecida no México, o design homenageava a história antiga da Península Itálica, com cabeças de leões etruscos integradas às tríades. A Adidas ainda lançou uma linha completa de vestuário sob a mesma estética, sendo a primeira vez que a empresa usou a bola do Mundial como referência para uma coleção de produtos diversificada.
Tecnicamente, a marca alemã avançou na complexidade dos materiais, introduzindo uma camada interna de espuma de poliuretano preto. Isso tornou a bola mais rápida e totalmente impermeável, respondendo às demandas de um futebol que se tornava cada vez mais físico e veloz.
No entanto, o baixo número de gols no Mundial da Itália, com média de 2,21 por partida, a menor da história do torneio, acendeu um alerta na Fifa. A partir disso, e de olho em desenvolver o futebol nos Estados Unidos, que seria a sede do próximo Mundial, a entidade definiu que o “produto futebol” precisava ser mais emocionante na Copa do Mundo de 1994.
A resposta da Adidas para essa questão da Fifa foi a “Questra”. Derivado da expressão “the quest for the stars” (“a busca pelas estrelas”, em tradução livre), o nome fazia referência à tecnologia espacial e ao 25º aniversário da missão Apollo 11. Fabricada com cinco camadas de materiais diferentes, incluindo uma camada externa de espuma de polietileno branca, a bola foi projetada para ser mais macia ao toque e, crucialmente, mais veloz.

No geral, o objetivo comercial e técnico foi atingido. A bola ficou mais responsiva e contribuiu para um aumento na média de gols para 2,7 por jogo no Mundial dos EUA. Além disso, a Adidas promoveu a bola como a mais tecnológica já criada até então, destacando sua velocidade, precisão e controle. A estratégia foi bem-sucedida e posicionou a “Questra” como um produto de ponta, alinhado ao espírito de inovação do país anfitrião da Copa do Mundo.
