Palco da final da Copa do Mundo de 1962, disputada no Chile e vencida pelo Brasil, o Estádio Nacional de Santiago funcionou como um eixo logístico e econômico do sétimo Mundial da Fifa. Além disso, o evento ainda operou como um elo para a transição da era do rádio para os primórdios da transmissão televisiva e da promoção comercial do torneio que viriam a se consolidar nas décadas seguintes.
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A escolha do Chile como país-sede para o Mundial de 1962 aconteceu durante um Congresso da Fifa em Lisboa, em Portugal, em 1956, e envolveu uma disputa contra a então favorita Argentina, que apresentava projetos de mobilidade e uma infraestrutura de estádios superiores às condições apresentadas pelos chilenos na época.
Apesar disso, o Chile conseguiu ganhar a disputa ao deixar de rivalizar com a Argentina em termos de infraestrutura material e focar em uma estratégia baseada no fomento do esporte em regiões menos desenvolvidas.
No entanto, o modelo de negócios original dos chilenos para o Mundial literalmente desabou em maio de 1960, quando o Terremoto de Valdivia devastou o país, destruiu boa parte da infraestrutura da parte sul do território e desviou recursos estatais que seriam usados para a organização da Copa do Mundo ao socorro humanitário da população.
Com isso, o projeto original precisou ser reduzido para apenas quatro sedes, transferindo o protagonismo financeiro e estrutural para o Estádio Nacional de Santiago. Dessa forma, o equipamento localizado na capital chilena se tornou não apenas uma arena esportiva, mas o motor econômico que sustentaria o Mundial.
Financiamento e gestão
Construído entre 1937 e 1938 com financiamento público, o Estádio Nacional de Santiago refletia as ambições do Estado chileno. O espaço mantinha desde a sua inauguração, em dezembro de 1938, a condição de monumento nacional esportivo, caracterizado pela propriedade e gestão estatais, operando sob uma lógica simbólica e cívica diferente das atuais arenas multiúso.
Para absorver a demanda reprimida e se adequar às exigências da Fifa, o complexo passou por uma grande reforma para receber o Mundial de 1962, eliminando o velódromo que existia em torno do estádio e expandindo as arquibancadas. Para a Copa do Mundo, a capacidade oficial foi fixada em 74 mil lugares.
Bilheteria e experiência
No início dos anos 1960, o negócio central do esporte continuava dependente da bilheteria. Nesse sentido, para viabilizar financeiramente o evento, o comitê organizador da Copa de 1962 implementou uma estratégia de venda casada de ingressos para jogos em sedes menos populares, como Arica, Rancagua e Viña del Mar, o que gerou estádios com baixa ocupação nessas praças periféricas.
Com isso, a sustentação financeira do Mundial de 1962 foi inteiramente baseada no Estádio Nacional de Santiago. Isso porque o equipamento sediou as principais partidas, garantindo altos índices de ocupação. A final entre Brasil e Tchecoslováquia, por exemplo, reuniu um público pagante documentado de mais de 68 mil espectadores.
Diferentemente das atuais arenas de Copa do Mundo, o Estádio Nacional de Santiago não fora projetado para abrigar camarotes corporativos ou experiências premium. A diferenciação acontecia basicamente na “Tribuna de Honor”, destinada a autoridades estatais e executivos da Fifa.
Nas arquibancadas, a jornada de acesso do torcedor ao Estádio Nacional de Santiago ocorreu via verificação manual de bilhetes de papel. Nos espaços internos, o consumo era limitado a lanchonetes ofertando bebidas e lanches simples.
Marketing e TV
Sem um ecossistema padronizado de patrocinadores globais gerido pela Fifa, o cenário publicitário do Estádio Nacional de Santiago ensaiou movimentos no aspecto comercial. A visibilidade publicitária estava centralizada nas placas estáticas ao redor do campo, exploradas por marcas regionais e emissoras de rádio. O licenciamento, por outro lado, era baseado na publicação do programa oficial e em pôsteres desenvolvidos por artistas gráficos locais.
Apesar da bilheteria ditar o ritmo financeiro em Santiago, a Copa do Mundo de 1962 ainda serviu como laboratório para a primeira rodada de captação financeira televisiva real da Fifa. A entidade comercializou os direitos do torneio para a European Broadcasting Union (EBU) por US$ 75 mil à época, após faturar US$ 5 mil na edição anterior, disputada em 1958.
A estratégia comercial da entidade usou a edição em terras sul-americanas como um chamariz para amarrar, no mesmo acordo, o pacote europeu da Copa de 1966 por US$ 800 mil. Por conta das limitações tecnológicas de transmissão intercontinental antes dos satélites, emissoras na Europa precisaram transmitir rolos de filme despachados via aviões, o que gerou atrasos nas transmissões para o Velho Continente.
Já no Brasil, o feito do bicampeonato foi consumido principalmente por intermédio de transmissões de rádio, considerando-se que televisores ainda eram restritos e inacessíveis para a maioria da população devido ao alto custo desse tipo de equipamento dentro do mercado brasileiro na época.
