Sediada estrategicamente na Suíça, um país que conseguiu preservar a sua infraestrutura durante a Segunda Guerra Mundial, a Copa do Mundo de 1954 aconteceu em um momento de reconstrução do continente europeu. Além disso, para abrigar um evento de magnitude global, as autoridades do país entendiam que o Estádio Wankdorf original, inaugurado em 1925, em Berna, já estava velho e conceitualmente ultrapassado para receber a decisão do torneio.
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Nesse sentido, a preparação do local para o Mundial exigiu uma reforma que praticamente demoliu a estrutura erguida na década de 1920 para se construir uma nova arena. O projeto arquitetônico ainda foi desenvolvido com o objetivo de maximizar a bilheteria, que representava a principal fonte de receita dos eventos esportivos da época.
Reaberto pouco tempo antes do início da Copa, a capacidade total da arena foi expandida para cerca de 64 mil espectadores. No entanto, o conforto individual era secundário em relação à maximização do volume de público, o que explica o fato de que o estádio contava com apenas 8 mil assentos formais e reservava cerca de 56 mil lugares para as pessoas ficarem em pé.
Bilheteria e experiência
Diferentemente das atuais arenas modernas que lucram com diferentes tipos de espaços corporativos e camarotes, a viabilidade do Mundial de 1954 se deu, principalmente, por meio da receita com bilheteria. O modelo de distribuição de ingressos se baseava em bilhetes impressos simples, sem qualquer tecnologia ou sistema de controle de acesso.
Além disso, os preços apresentavam segmentação limitada, com ingressos para os assentos da tribuna de honra do Wankdorf na final chegando a custar 59 francos suíços. Vale destacar que a final entre Hungria e Alemanha Ocidental levou mais de 60 mil pessoas ao estádio.
Em relação à hospitalidade, o Estádio Wankdorf não foi projetado sob a lógica de uma arena multiúso e também não contava com áreas de camarotes fechados ou zonas comerciais integradas. A estrutura premium do local era restrita à tribuna principal coberta, onde autoridades políticas, dirigentes da Fifa e representantes diplomáticos se concentravam.
Essa “tribuna de honra” funcionava como um espaço de representação do Estado e de diplomacia, com convites distribuídos por critérios políticos, inviabilizando a venda de pacotes para grandes empresas ou executivos.
O torcedor comum que acessava as arquibancadas de concreto enfrentava uma jornada simples e sem qualquer tipo de entretenimento paralelo. A final ainda ficou marcada por uma chuva forte, o que deixou o público exposto às condições climáticas adversas.
Mídia
A Copa do Mundo de 1954 também marcou uma transformação no modelo de negócios do futebol global ao incorporar o evento à recente malha de transmissão televisiva europeia. O torneio disputado na Suíça foi o primeiro Mundial a ter partidas transmitidas ao vivo de forma organizada pela televisão por intermédio da União Europeia de Radiodifusão (EBU/Eurovision), que organizou uma rede com milhares de quilômetros de conexões de microondas e dezenas de transmissores transcontinentais.
A Fifa, ainda operando com um orçamento modesto na época, não monetizou substancialmente esses direitos, entregando as transmissões visuais de nove partidas praticamente de forma gratuita à organização europeia. Em paralelo, o rádio ainda mantinha seu domínio massivo em relação ao consumo de conteúdo na época.
Marketing
A final da Copa do Mundo de 1954 no Estádio Wankdorf ficou marcada como um dos maiores casos de marketing de performance daquele período. Após uma disputa familiar em 1948 que fragmentou a velha fábrica alemã dos irmãos Dassler nas marcas rivais Puma e Adidas, Adolf Dassler se aproximou do técnico da seleção da Alemanha Ocidental, Sepp Herberger.
Com isso, o criador da Adidas equipou a seleção alemã com um modelo de chuteira confeccionado com couro leve e composto de cravos de metal com travas rosqueáveis.
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Durante a final do Mundial, com o campo encharcado por conta da tempestade que caiu na região do Estádio Wankdorf, o gramado se transformou em lama. Enquanto os atletas húngaros escorregavam usando botas inglesas convencionais com travas fixas de couro que absorviam água e ganhavam peso, os alemães tiveram as travas de suas chuteiras substituídas por peças mais longas e incisivas no próprio vestiário, garantindo mais tração e estabilidade, o que contribuiu para a equipe virar o jogo e conquistar o título da Copa do Mundo, em uma vitória histórica por 3 a 2 que ficou conhecida como “Milagre de Berna”.
Apesar de registros de patentes indicarem que a invenção original das travas intercambiáveis pertence a outras figuras pioneiras, a sacada de Adi Dassler de atrelar o sucesso esportivo da seleção da Alemanha Ocidental na decisão do Mundial às chuteiras da Adidas praticamente inaugurou o marketing esportivo de performance contemporâneo.
