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Romulo Macedo, especial para a Máquina do Esporte

Romulo Macedo

7 min de leitura

Análise

Futebol mais organizado do mundo criou “xerife” para vigiar donos de clubes: O que o Brasil pode aprender com isso?

No esporte, a autorregulação tem limites e, quando esses limites são estourados, quem paga o pato não é o dono do clube, e sim o torcedor; é preciso equilibrar o capital com a tradição, e o lucro com a paixão

Romulo Macedo, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

02/04/2026 06h17

Arsenal marca na vitória por 2 a 0 sobre o Everton; Gunners lideram a temporada 2025/2026 da Premier League - Reprodução / arsenal.com

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  • O Independent Football Regulator (IFR) foi criado no futebol inglês para proteger clubes, torcedores e o patrimônio cultural da modalidade.
  • A partir de 2027/2028, clubes das cinco principais divisões inglesas precisarão de licença do IFR, comprovando saúde financeira, governança e diálogo com torcedores.
  • O IFR pode impedir compras suspeitas, obrigar vendas e exigir participação dos fãs em decisões importantes sobre clube, promovendo sustentabilidade e transparência.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

O futebol inglês, o mais famoso e rico do planeta, acaba de passar pela sua maior transformação desde que a Premier League foi criada, em 1992. No dia 21 de julho do ano passado, uma lei criou o Independent Football Regulator (IFR), um órgão público com poder de verdade para interferir na gestão dos clubes, proteger torcedores e, nas palavras do próprio regulador, “salvaguardar o patrimônio do futebol inglês”.

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Para quem acompanha o futebol brasileiro, vendo os clubes virando Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) e acostumado com crises financeiras recorrentes, entender esse modelo é mais do que curiosidade. Se o país que inventou o futebol e tem a principal liga da modalidade do planeta decidiu que o mercado sozinho não dá conta, talvez seja hora de prestar atenção.

Por que criar um regulador?

O IFR não nasceu da vontade do governo, mas de um susto coletivo. Em 2021, a tentativa de criar a Superliga Europeia por seis dos maiores clubes ingleses mostrou a que ponto os donos estavam dispostos a rasgar mais de um século de história por dinheiro, sem consultar torcedor nenhum.

Além disso, o passado recente foi marcado por clubes centenários indo à falência. O Bury FC, fundado em 1885, simplesmente deixou de existir. Outros, como Macclesfield e Wigan, quebraram nas mãos de donos aventureiros que usaram os clubes como brinquedo. A conclusão do governo foi simples: futebol não é um negócio comum; é patrimônio cultural e comunitário, e precisa de proteção.

Como funciona o “xerife” do futebol inglês?

Diferentemente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou da Premier League, o IFR não organiza campeonatos nem define regras do jogo. Ele é um “guardião” da saúde financeira e da tradição dos clubes. Está ligado ao governo britânico, mas funciona de forma independente.

Seus poderes são grandes:

  • Pode impedir que um bilionário compre um clube se desconfiar da origem do dinheiro ou do caráter do comprador;
  • Pode, em último caso, obrigar um dono a vender o clube se ele for considerado uma ameaça à saúde financeira da instituição.

O regulador cobre os 116 clubes profissionais masculinos das cinco principais divisões, ou seja, da Premier League até a quinta divisão. Futebol feminino e divisões amadoras ficaram de fora por enquanto.

A licença para jogar

A partir da temporada 2027/2028, nenhum desses 116 clubes entrará em campo sem uma licença do IFR. Para conseguir essa licença, precisarão provar três coisas:

  1. Saúde financeira: apresentar planos de negócio e passar por “testes de estresse” que simulam situações como ser rebaixado ou perder um patrocinador;
  2. Governança séria: mostrar que o dinheiro dos donos é limpo e suficiente não só para comprar o clube, mas para mantê-lo;
  3. Ouvir os torcedores: comprovar que os fãs são consultados em decisões importantes.

O poder dos torcedores

Esse é o ponto mais interessante para o brasileiro. A lei obriga os clubes a criarem canais oficiais de diálogo com os torcedores e estabelecerem um conselho de fãs oficial. Mais do que isso: os clubes precisam consultar os fãs e, em muitos casos, pedir autorização do IFR para mudar:

  • O nome do clube, o escudo ou as cores do uniforme;
  • A venda ou a mudança de lugar do estádio.

É a tal “proteção ao patrimônio”. O clube pode ser uma empresa privada, mas sua identidade pertence à comunidade. O conselho de fãs vira a voz oficial dessa comunidade, garantindo que decisões sobre a alma do clube não sejam tomadas só com base em decisões de um investidor. 

Como o IFR protege o futuro do futebol?

A ideia é simples: prevenir em vez de remediar. Antes, as ligas só podiam punir os clubes depois que eles já tinham quebrado. Agora, o regulador pode intervir durante o processo.

Se o IFR perceber que um clube está perto da insolvência, pode:

  • Exigir que o time aumente suas reservas de dinheiro;
  • Limitar quanto o clube pode se endividar;
  • Nomear alguém de fora para administrar o clube no lugar do dono;
  • Em último caso, forçar a venda do clube para um novo proprietário aprovado pelo órgão.

Quem paga a conta?

Esse detalhe é importante. O IFR não custa dinheiro público. Ele é sustentado por uma taxa anual paga pelos próprios clubes e ligas. E essa taxa é proporcional: um gigante da Premier League paga muito mais que um time pequeno da quinta divisão.

Onde o IFR está agora?

Com a lei aprovada, o órgão está em fase de implantação. No momento, realiza consultas públicas para definir as regras finais. Temas como a aprovação de novos donos e o sistema de punições estão sendo discutidos com clubes, torcedores e especialistas.

Um modelo parecido faria sentido no Brasil?

Vivemos a era das SAFs. Clubes centenários viram empresas, muitas vezes vendidas a fundos de investimentos ou empresários sem nenhum vínculo com as comunidades locais.

O modelo inglês nasceu para lidar exatamente com essa tensão. Como permitir o investimento privado sem deixar o clube refém de aventureiros ou de decisões puramente financeiras que ignoram a paixão dos torcedores?

Um órgão nos moldes do IFR no Brasil poderia:

  • Bloquear a entrada de maus pagadores: impedir que pessoas com dívidas ou envolvimento em crimes comprem clubes;
  • Proteger a identidade dos clubes: evitar que um novo dono mude o nome, o escudo, a localização ou as cores do time sem consultar a torcida;
  • Garantir sustentabilidade: intervir antes que a dívida afunde a instituição;
  • Dar voz organizada aos torcedores: institucionalizar a participação dos fãs na gestão.

A lição que fica

Pense bem: se até a Inglaterra, país com a liga mais rica e organizada do planeta, olhou para o próprio quintal e viu que precisava de um “xerife” de fora para proteger os clubes dos próprios donos, o que isso diz sobre o resto do mundo?

O futebol inglês tem estádios modernos, contratos bilionários de TV, gestão de ponta e os melhores jogadores do planeta. E mesmo assim viu clubes centenários morrerem, viu torcedores serem ignorados, viu a ganância quase destruir a essência do jogo. A resposta não foi “deixar o mercado resolver”; foi criar um órgão público com poder de verdade.

Claro que copiar o modelo inglês sem adaptações não daria certo. Nosso futebol tem particularidades, como o papel histórico das associações esportivas e um calendário diferente. Mas a direção apontada pelo IFR é clara: o futuro do futebol não pode ser decidido apenas nas mesas de negócios. É preciso equilibrar o capital com a tradição, e o lucro com a paixão.

Enquanto o Brasil ainda está na fase de implementação de um sistema de Fair Play Financeiro, a Inglaterra já criou um órgão público para supervisionar os super-ricos. A lição é simples: no esporte, a autorregulação tem limites e, quando esses limites são estourados, quem paga o pato não é o dono do clube, e sim o torcedor. 

A pergunta que fica é: vamos esperar nosso Bury FC acontecer aqui para aprender a lição?

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Romulo Macedo é mestre em Gestão da Experiência do Consumidor e especialista em Gestão Esportiva, com papéis relevantes em diversos eventos esportivos mundiais

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