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Ivan Martinho, especial para a Máquina do Esporte

Ivan Martinho

6 min de leitura

Análise

Fora do campo, dentro do negócio

Copa do Mundo nos EUA será o momento em que o maior evento esportivo do planeta encontrará o país que melhor sabe transformar paixão em negócio, e isso pode ser o ápice de uma mudança de cultura entre os norte-americanos

Ivan Martinho, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

09/06/2026 06h26

Mercedes-Benz Stadium, em Atlanta, nos Estados Unidos, será uma das sedes da Copa do Mundo de 2026 - Divulgação / Fifa

⚡ Máquina Fast
  • A infância da Copa do Mundo já começa na convocação e transforma o comportamento social no Brasil, interrompendo a rotina nacional.
  • O futebol nos Estados Unidos está passando por uma transformação cultural, com o Mundial impulsionando o crescimento do interesse pelo esporte.
  • Além dos jogos, os americanos valorizam o futebol como entretenimento e experiência, usando a Copa para desenvolver uma nova indústria esportiva.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Você já percebeu que a Copa do Mundo começa muito antes do primeiro jogo? Esse ano ela parece ter começado na convocação. É nesse instante que algo curioso acontece no Brasil: o país inteiro muda de comportamento, o grupo da família no WhatsApp se transforma em comissão técnica, o amigo do escritório vira analista de desempenho e até aquele conhecido que passou os últimos quatro anos distante do futebol reaparece com opiniões contundentes sobre laterais, volantes, o Neymar e as injustiças cometidas pelo treinador.

Depois vêm as bandeiras nas janelas, os calendários colados na geladeira, as reuniões remarcadas e a estranha sensação de que o país passa a respirar em um mesmo ritmo. Poucos acontecimentos no mundo têm a capacidade de interromper a rotina de uma nação inteira. Empresas reorganizam agendas, escolas ajustam atividades e restaurantes se preparam para horários improváveis. O Brasil vai parar, como sempre para, mesmo que você já tenha ouvido alguém te falar que não está sentindo todo mundo falar de Copa ou que não viu as ruas pintadas.

No entanto, pela primeira vez em muito tempo, a história mais interessante do torneio talvez não esteja dentro das quatro linhas nem aconteça no Brasil. Enquanto ainda discutimos quem deveria ter sido convocado, algo muito maior parece estar acontecendo do outro lado do continente. E a pergunta talvez não seja sobre futebol, mas sim sobre comportamento.

Durante décadas, os Estados Unidos tiveram uma relação curiosa com o futebol. O esporte sempre existiu, mas ocupava um lugar secundário na cultura local. Era o esporte das crianças antes de migrarem para modalidades consideradas mais tradicionais, o esporte dos bairros de imigrantes, das famílias latinas ou europeias. O futebol era respeitado, mas nunca ocupou o mesmo espaço emocional de NFL, NBA, MLB e NHL.

Só que culturas mudam. E raramente mudam de forma abrupta. Elas mudam silenciosamente, quase sem pedir licença. Primeiro, surgem pequenos sinais, depois novos hábitos, e, quando percebemos, algo que parecia periférico já se transformou em comportamento dominante.

Os números mostram que talvez estejamos exatamente nesse ponto de inflexão. Uma pesquisa recente da Nielsen aponta que 64% dos fãs norte-americanos acreditam que seu interesse pelo futebol continuará crescendo depois da Copa do Mundo. Mais interessante ainda: 56% afirmam que o próprio Mundial é a principal razão desse aumento de entusiasmo e, entre a população norte-americana em geral, 33% acreditam que passarão a acompanhar mais a modalidade nos próximos anos.

Pode parecer pouco, mas grandes movimentos normalmente começam pequenos. A internet começou pequena, o streaming começou pequeno, os esportes eletrônicos começaram pequenos e até a Fórmula 1 nos Estados Unidos parecia um produto de nicho até que, de repente, deixou de ser. Aliás, a Fórmula 1 talvez nos ajude a entender o que pode estar acontecendo agora.

Durante décadas, o esporte ocupou uma posição periférica no mercado norte-americano, até surgir a série “Drive to Survive”, da Netflix. De repente, pessoas passaram a conhecer chefes de equipe, rivalidades, bastidores e histórias pessoais. O que conquistou a audiência não foi apenas a corrida; foram os personagens.

Porque as pessoas raramente se apaixonam por regulamentos; elas se apaixonam por histórias.

Talvez seja justamente aqui que a Copa do Mundo encontre algo poderoso. O estudo da Nielsen mostra que quase 80% dos fãs norte-americanos de futebol utilizam redes sociais para consumir conteúdo esportivo, número muito superior à média da população. O YouTube ultrapassa 80% de alcance entre esses fãs, o Instagram supera 74%, e o TikTok já ocupa um espaço extremamente relevante na rotina desse público, que não apenas assiste aos jogos, mas também comenta, reage, compartilha, produz e participa.

Parece um detalhe, mas não é. Durante muito tempo, aprendemos a medir o sucesso do esporte apenas pela audiência na televisão. Liga a TV, assiste ao jogo, desliga e acabou. Só que talvez estejamos entrando em uma era em que a partida deixou de ser o produto principal e passou a ser apenas uma peça dentro de um ecossistema muito maior.

A NFL entendeu isso há um bom tempo, e a NBA também. São duas ligas que já não vendem apenas partidas; vendem pertencimento, cultura, experiências e narrativas. Talvez os norte-americanos não estejam aprendendo a consumir futebol, mas sim o futebol é que esteja chegando exatamente no momento em que os hábitos norte-americanos mudaram.

A Copa acontecerá em 11 cidades dos Estados Unidos. Algumas já possuem enorme tradição esportiva, como Nova York, Los Angeles e Miami. Outras aparecem como mercados com enorme potencial de crescimento, como Kansas City e Houston, mas talvez o dado mais interessante não seja geográfico. Em Nova York, por exemplo, 41% dos fãs pretendem assistir a partidas presencialmente. Até aí nada surpreendente, mas quase um terço deles também declarou a intenção de participar das experiências paralelas ao evento, ou seja, não apenas os jogos, mas tudo ao redor deles. Te soa familiar?

De um lado, o futebol tradicional que aprendeu a valorizar o que acontece dentro de campo. Do outro, a visão norte-americana que transformou o esporte em entretenimento, conteúdo e experiência. Enquanto o Brasil continuará fazendo aquilo que faz melhor, parar para assistir à Copa e torcer como nação pelo hexa, os Estados Unidos estarão tentando algo novamente 32 anos depois: usar a Copa para plantar as sementes de uma nova indústria.

Títulos mudam, temporadas ficam na história, audiência muda receitas, mas hábitos, ah, os hábitos mudam mercados inteiros. Estamos assistindo ao momento em que o maior evento esportivo do planeta encontrou o país que melhor sabe transformar paixão em negócio. Talvez finalmente tenha chegado a hora do football ser futebol.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Ivan Martinho é presidente da World Surf League (WSL) na América Latina

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