Demorou, mas chegou. Como não poderia deixar de ser em ano de Copa do Mundo, o Brasil foi invadido pela febre verde, amarela, azul e branco, cores eternizadas na canção de 1985 de Erasmo Carlos e do Rei Roberto Carlos.
Nos últimos tempos, marcas e clubes resolveram apostar pesado nas versões de uniformes em tons que remetem ao nosso “pendão da esperança”.
Uma delas resolveu apelar a outro rei (não Roberto, cuja atividade tende a se concentrar sobretudo no mês de dezembro) para encarar uma gigante internacional.
No mundo corporativo, nada é aleatório. A Athleta utilizou a silhueta de Pelé, do Rei do Futebol, para avançar em um terreno dominado pela Nike.
Neste ano, fornecedora oficial de material esportivo da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) lançou os uniformes que serão usados pela seleção na Copa do Mundo de 2026, entre elas a camisa reserva da marca Jordan, com a logo Jumpman 23 em destaque, ao lado do emblema da entidade.
A estratégia para essa escolha consiste, entre outras coisas, em conectar a camisa da seleção brasileira a outros públicos no Brasil e no mundo, especialmente consumidores das gerações mais jovens.
Ocorre que, num país em que o futebol é o grande esporte de massas (e não o basquete) e em que o percentual de pessoas acima de 40 anos passou de 38%, em 2010, para 46%, em 2022, uma parcela expressiva dos torcedores pode não estar tão aberta a grandes inovações.
Quem utiliza redes sociais como X ou Threads (onde as “opiniães” se proliferam mais que pão e pães nas padarias) certamente se deparou com questionamentos envolvendo a presença da logo de Jordan na camisa da seleção. Por que o “Pelé do basquete” e não o do futebol?
A Athleta pode não afirmar isso oficialmente, mas a camisa com a logo do Rei em destaque, com direito à presença da filha Flávia no vídeo de lançamento, soube aproveitar as demandas desse público mais tradicionalista (o filme traz até um homem idoso tentando sintonizar uma transmissão no rádio a pilha).
Vendas na Ásia
A Máquina do Esporte apurou que o primeiro lote da camisa da Athleta com a logo de Pelé, fruto de uma parceria da empresa com a NR Sports, de Neymar Pai, deve esgotar seu primeiro lote até esta sexta-feira (5).
O segundo lote começará a ser vendido no dia 12 deste mês (lembrando que a abertura da Copa será no dia 11).
Além do Brasil, a Athleta levará a camisa de Pelé para mercados do leste asiático, como China, Japão, Taiwan e Coreia do Sul. A leva inicial contará com 10 mil unidades.
A marca é propriedade da The Brand’s Company, sediada no País do Sol Nascente, e fornece material esportivo para o Tokyo Verdy, da J. League.
Clubes e marcas investem nas camisas amarelas
Por mais que as regras de direitos intelectuais e licenciamento tenham se endurecido nos últimos anos, ainda existem muitas brechas para que clubes e marcas explorem a empolgação em torno da Copa do Mundo.
Sobretudo porque, no fim das contas, é quase impossível para uma empresa, entidade ou agremiação reivindicar algum tipo de exclusividade sobre o uso das cores do lábaro estrelado.
Nesta quarta-feira, o Botafogo lançou, em parceria com a Mizuno, a camisa amarela com detalhes em verde, mas mantendo o tradicional escudo alvinegro da Estrela Solitária.
A estratégia de marketing se baseia no fato de que o clube foi o que mais cedeu jogadores à seleção brasileira na história, com 48 no total, incluindo craques como Jairzinho, Nilton Santos, Didi e Garrincha.
Na semana passada, o Flamengo havia apresentado sua camisa verde e amarela da Adidas, cujo desenho remete imediatamente a modelos clássicos usados pela seleção brasileira, como na Copa de 1978, quando as três listras da marca se destacavam no uniforme do time canarinho.
E não se pode esquecer do Palmeiras, que lançou no ano passado seu uniforme verde e amarelo da Puma, numa alusão ao dia em que o Alviverde representou a seleção brasileira no amistoso de inauguração do Estádio Mineirão, em 1965, derrotando o Uruguai por 3 a 0.
“Ave Fênix!”
Um dos grandes nomes por detrás do título do Corinthians no Brasileirão de 2005, o empresário iraniano Kia Joorabchian está vivendo seu momento de fênix no País do Futebol.
Muitos poderiam julgar que sua empreitada na Pátria de Chuteiras teria chegado ao fim, após a derrocada do projeto da MSI, que culminou com o rebaixamento do Timão em 2007.
Mas o investidor está aí para provar que existe sempre espaço para quem deseja se reinventar no universo do empreendedorismo nacional.
De acordo com matéria do site de O Globo, Kia está ao lado do grego Evangelos Marinakis (dono do Notingham Forest, da Premier League), em uma tentativa de assumir a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo, após a saída do norte-americano John Textor.
Além dos nomes difíceis de se escrever e soletrar, a dupla de candidatos a dono do Glorioso têm em comum a forte presença no futebol inglês.
Marinakis, que já teve seu nome ventilado em uma tentativa de aquisição de um percentual da base do São Paulo (situação que corroeu a popularidade do ex-presidente Julio Casares), é muito próximo a Textor.
Apesar de o grego ter a “Ave Fênix!” como sócio e contar com a simpatia de Textor, a GDA Luma segue como favorita a assumir a SAF botafoguense, com a proposta de realizar um aporte de US$ 105 milhões, além de quitar a dívida em recuperação judicial, que perfaz um total de R$ 1,28 bilhão.
Vale lembrar que o passivo da Estrela Solitária hoje está na casa dos R$ 2,5 bilhões, uma das maiores entre os clubes da Série A do Brasileirão.
O próprio Textor apresentou uma proposta de recompra da SAF do Botafogo, por US$ 95 milhões, mas as chances de ela ser aceita pelo clube associativo são ínfimas.
Rodrigo Ferrari é jornalista da Máquina do Esporte desde 2022. Formado pela Universidade de São Paulo (USP), atua com política desde 2010
Conheça nossos colunistas