Pular para o conteúdo
Alice Maria Augusto, especial para a Máquina do Esporte

Alice Maria Augusto

8 min de leitura

Análise

A pausa para hidratação chegou para ficar?

Pausas obrigatórias de três minutos por tempo, justificadas pela Fifa para proteção à saúde dos atletas, tem gerado mais de 4 minutos de publicidade adicional por partida; modelo, porém, enfrenta resistência das ligas europeias e não tem agradado o público

Alice Maria Augusto, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

09/07/2026 08h00

Pausa para hidratação durante o jogo entre EUA e Bórnia e Herzegovina - Reprodução/YouTube @cazetv

Pausa para hidratação durante o jogo entre Estados Unidos e Bósnia e Herzegovina - Reprodução / YouTube (@CazeTV)

⚡ Máquina Fast
  • A Fifa instituiu pausas obrigatórias de três minutos por tempo na Copa do Mundo de 2026 para proteção à saúde dos atletas, independentemente das condições climáticas.
  • As pausas geram até 4 minutos e 20 segundos de publicidade extra por partida, movimentando cerca de US$ 250 milhões só nos EUA e potencialmente US$ 1 bilhão globalmente.
  • Enquanto algumas ligas rejeitam a medida por razões climáticas e esportivas, a Fifa avalia manter o formato em futuras competições, especialmente em regiões mais quentes.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Desde o início da Copa do Mundo de 2026, todas as partidas contam com uma pausa obrigatória de três minutos por tempo, oficializada pela Fifa sob a premissa de proteção à saúde dos atletas. A medida, inspirada em modelos já consolidados em outras ligas, tem gerado debate por seus efeitos comerciais e esportivos, e também por sua aplicação independentemente das condições climáticas de cada partida.

LEIA MAIS: Fifa autoriza comerciais durante pausas de hidratação nas transmissões da Copa do Mundo de 2026
LEIA MAIS: Veja a estratégia comercial da Fifa por trás da pausa para hidratação na Copa do Mundo 2026

De onde vem o modelo e por que aparece agora

O formato não nasceu no futebol. NFL e NBA construíram, ao longo de décadas, uma arquitetura em que o intervalo comercial integra a experiência esportiva desde a concepção da modalidade. O público norte-americano está habituado a essa cadência há mais de quatro décadas, o que ajuda a explicar por que o formato tende a ser mais bem-recebido nos Estados Unidos do que em mercados de tradição futebolística mais antiga. É justamente esse público (com a Copa sediada, pela primeira vez nesta configuração, nos Estados Unidos, Canadá e México) que parece ter pesado no desenho do novo regulamento.

A justificativa oficial para a pausa, porém, não é comercial: é médica e sanitária. A Fifa recorre ao índice WBGT (sigla para Wet-Bulb Globe Temperature), que mede o estresse térmico combinando temperatura, umidade, vento e radiação solar, e que embasa a preocupação com o golpe de calor (EHS), condição que pode chegar a 33% de mortalidade quando associada à hipotensão. Estudos conduzidos durante a Copa do Mundo de Clubes de 2025 já apontavam para a queda no desempenho físico dos atletas a partir dos 28°C de WBGT, e a própria regra da Fifa cita 32°C como referência técnica para tornar a pausa mandatória.

LEIA MAIS: Onda de calor atinge Copa 2026 e beneficia versão da Fifa sobre paradas para hidratação

Na prática, contudo, a pausa vem sendo realizada de forma padronizada ao longo do torneio, inclusive em partidas disputadas em estádios cobertos e climatizados. Essa aplicação uniforme acabou deslocando o debate para além dos aspectos médicos, passando a incluir também seus reflexos sobre a dinâmica das transmissões e o aproveitamento comercial desse período.

Números e diferentes estratégias de transmissão

Os números movimentados no período das pausas ajudam a entender por que o tema desperta tanto interesse comercial. Segundo a BBC Sport, cada pausa gera até 4 minutos e 20 segundos de publicidade adicional por partida, somando, portanto, mais de 7 horas ao longo de todo o torneio. Nos Estados Unidos, a Fox Sports cobra entre US$ 200 mil e US$ 300 mil por inserção de 30 segundos, chegando a US$ 750 mil em jogos da seleção anfitriã e nas fases finais, projeção que aponta para mais de US$ 250 milhões arrecadados só no mercado norte-americano, e algo próximo de US$ 1 bilhão somando-se as demais emissoras ao redor do mundo.

Vale notar que o uso comercial do espaço não é uniforme, e essa diferença entre mercados é, em si, um dado relevante para quem acompanha direitos de transmissão.

Nos Estados Unidos, a Fox Sports, por exemplo, explora o tempo máximo permitido, com anúncios em tela cheia, patrocínio próprio do intervalo e ainda a presença da Coca-Cola, patrocinadora da Fifa, fornecendo bebidas da marca aos jogadores. Já a Telemundo, voltada ao público latino nos EUA, optou por manter a câmera no campo e comentários ao vivo durante a pausa, sem inserir bloco comercial. No Reino Unido, o padrão das emissoras segue linha semelhante.

Ou seja, o mesmo instituto regulatório vem sendo aproveitado de formas bastante distintas conforme a leitura que cada mercado faz da relação com seu próprio público.

Reflexos no Brasil, na audiência e na dinâmica do jogo

No cenário nacional, Campeonatos Estaduais e o próprio Brasileirão já adotam pausas para hidratação há pelo menos um ano, mas com lógica distinta da adotada pela Fifa: aqui, a pausa depende das condições climáticas do dia e do horário da partida, e os técnicos são consultados sobre sua realização. É um modelo discricionário e vinculado ao critério técnico caso a caso, o que o diferencia da aplicação padronizada e obrigatória adotada no Mundial.

Quanto ao impacto sobre a audiência, os dados disponíveis até aqui não indicam prejuízo relevante. Um estudo da Octagon Media Rights Consulting apontou que as transmissões da Fox e da Fox Sports 1 perdem apenas entre 2% e 3% de audiência durante as pausas, índice inferior aos 14% registrados nos intervalos tradicionais do próprio torneio, e menor ainda que os 24% de evasão observados nas finais da NBA. A Telemundo, que manteve o jogo na tela, registrou crescimento de audiência na fase de grupos mesmo com as pausas.

LEIA MAIS: Pausas para hidratação têm impacto mínimo na audiência nos EUA durante a Copa do Mundo

Já os efeitos sobre a dinâmica esportiva têm gerado mais debate. Em partidas como Catar x Suíça e Brasil x Marrocos, houve relatos de equipes prontas para retomar o jogo enquanto se aguardava o fim dos comerciais nas transmissões. Técnicos como Jürgen Klopp já manifestaram publicamente a percepção de que a pausa, ainda que apresentada como proteção ao atleta, tem funcionado na prática como uma janela publicitária.

E em alguns estádios norte-americanos, o intervalo passou a ser comparado, informalmente, à divisão em quartos do basquete e do futebol americano, um paralelo que ilustra a discussão sobre até que ponto a fragmentação do fluxo de jogo, historicamente uma marca do futebol, pode alterar a percepção do produto que sustenta os contratos de patrocínio e transmissão.

O que se pode esperar adiante

Para quem acompanha a estruturação de direitos, o efeito mais relevante talvez não esteja na receita publicitária direta, vendida pelas próprias emissoras, sem repasse imediato à Fifa, mas na valorização futura dos direitos de transmissão como um todo.

O autor Dennis Deninger observou que a Fox pagou apenas US$ 485 milhões pelos direitos desta Copa; se a pausa gera US$ 250 milhões isoladamente, esse dado tende a integrar o argumento da Fifa em negociações futuras, na medida em que o novo inventário publicitário passa a ser um ativo agregado ao pacote de direitos vendido a cada território.

O futuro do formato, no entanto, ainda não está definido de maneira uniforme. A Premier League decidiu não adotar pausas para hidratação na próxima temporada, após consultar a Howard Webb, da PGMOL, por entender que o clima britânico não justifica a medida. A Uefa também confirmou não ter planos de alterar seu regulamento de pausas na Champions League ou na Euro 2028.

LEIA MAIS: Premier League rejeita pausas para hidratação no Campeonato Inglês
LEIA MAIS: Uefa não segue Copa do Mundo 2026 e veta pausa obrigatória para hidratação na Euro 2028

Por outro lado, a Fifa ainda não descartou manter o formato em edições futuras, e a Copa de 2030, que será disputada na Espanha, em Portugal e no Marrocos, região com verões historicamente quentes, estará inserida em um cenário que pode favorecer a continuidade da medida, agora sob um argumento climático mais alinhado ao critério técnico original.

Resta acompanhar se o equilíbrio entre monetização e experiência do torcedor será suficiente para consolidar a pausa como uma norma permanente do calendário internacional, ou se os ajustes observados em outras competições, nacionais e internacionais, indicam que o modelo ainda será revisto.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Alice Maria Augusto é advogada da Kings League Brasil. Ex-advogada do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB), é graduada em Direito pela Universidade de São Paulo (USP) e pós-graduada em Direito Desportivo e Negócios do Esporte pelo Centro de Direito Internacional (Cedin)

Conheça nossos colunistas