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Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti

12 min de leitura

Análise

O custo da pressa na formação de atletas no futebol

Melhores sistemas de formação de atletas não são aqueles capazes de acertar cada vez mais cedo quem será o próximo grande jogador, mas, sim, aqueles capazes de errar menos ao decidir cedo demais quem não será

Ana Teresa Ratti, especial para a Máquina do Esporte • Colunista

15/09/2026 06h10

Referência FC investe nas categorias de base até o Sub-20 - Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • Processos precoces de seleção no futebol frequentemente descartam jovens com potencial devido ao efeito da idade relativa e maturação biológica.
  • O uso inadequado do hormônio do crescimento para acelerar desenvolvimento físico em atletas jovens pode causar graves riscos à saúde e é proibido pela WADA.
  • A eficiência na formação deveria ser medida pela capacidade de desenvolver talentos e não apenas pela quantidade de jogadores revelados ou vendidos.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Atualmente, o futebol exige que crianças e adolescentes entreguem evidências do jogador que só poderão se tornar no futuro. E, muitas vezes, isso leva a decisões definitivas com base em diferenças que são apenas temporárias.

Talvez essa seja uma das maiores contradições dos atuais processos de formação de atletas.

Nas categorias de base, selecionar talentos e desenvolver talentos são expressões frequentemente tratadas como partes de um mesmo processo. Mas, na realidade, não são. Selecionar significa escolher, entre aquilo que existe hoje, quem melhor atende aos critérios estabelecidos. Desenvolver e formar significa criar condições para ampliar as possibilidades daquilo que cada jovem poderá se tornar em seu potencial máximo.

A diferença parece conceitual, mas produz consequências esportivas, humanas e econômicas importantes.

A ciência já demonstrou que dois adolescentes da mesma categoria podem estar em momentos muito diferentes de desenvolvimento físico. Há o conhecido efeito da idade relativa: em uma categoria organizada pelo ano de nascimento, um atleta nascido em janeiro pode ter quase 12 meses de vantagem sobre outro nascido em dezembro. Durante a infância e a adolescência, 12 meses podem representar diferenças importantes.

Há ainda a maturação biológica. Dois jovens exatamente da mesma idade cronológica podem estar em estágios muito diferentes da puberdade e, consequentemente, apresentar diferenças relevantes de tamanho, força, velocidade e composição corporal.

Estudos dos quais participou o professor Marcelo Massa, da Universidade de São Paulo (USP), ajudam a dimensionar o problema. Em um estudo sobre o processo de seleção de jovens jogadores, maturação biológica e idade relativa mostraram influência sobre quem avançava no processo. Entre os atletas avaliados, havia forte concentração de jogadores nascidos nos primeiros meses do ano entre aqueles inicialmente selecionados.

“Eu diria que estamos diante de um paradoxo. Temos, hoje, muito mais conhecimento sobre desenvolvimento do talento, idade relativa e maturação biológica, mas isso não significa que sejamos capazes de identificar talentos com segurança cada vez mais cedo. Na verdade, o conhecimento científico nos mostra justamente o contrário: quanto mais precoce é a seleção, maior pode ser a incerteza”, destacou.

“O talento não é uma característica pronta, que simplesmente nasce com a criança e que um teste, uma peneira ou um departamento de captação consegue revelar. Talento é resultado de um processo de desenvolvimento, no qual características individuais interagem continuamente com oportunidades, experiências, treinamento, relações sociais e condições ambientais”, acrescentou.

Marcelo Massa faz parte do Grupo de Pesquisa em Desenvolvimento do Talento (GPTalent – USP) e do Observatório do Efeito da Idade Relativa e do Talento no Futebol (OBFut – USP)

Para Massa, os resultados encontrados em suas pesquisas permitem observar concretamente esse fenômeno.

“Em um estudo de caso realizado no São Paulo, analisamos 341 atletas das categorias Sub-10 a Sub-20 e encontramos uma diferença estatisticamente significativa entre a distribuição dos atletas e a população de referência do estado de São Paulo. 47,5% dos jogadores nasceram no primeiro trimestre do ano, enquanto apenas 8,8% nasceram no quarto trimestre. O efeito foi particularmente forte nas categorias mais jovens e foi se atenuando com o avanço da idade. O próprio estudo alertava para o risco de exclusão de jovens potencialmente talentosos em razão desse fenômeno”, salientou.

LEIA MAIS: ESTUDO 1
LEIA MAIS: ESTUDO 2

Isso nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: estamos identificando os jovens com maior potencial ou aqueles que, naquele momento, estão mais preparados para performar?

O jogador que ainda não existe

Quanto mais cedo incorporamos à formação a lógica do futebol profissional, baseado em resultado, seleção, descarte, exposição, contratos e necessidade de performance imediata, maior o risco de confundirmos desenvolvimento com entrega.

O jovem mais forte joga mais. Quem joga mais disputa melhores competições. Quem disputa melhores competições é mais observado. Quem é mais observado recebe mais oportunidades. E a vantagem inicial pode se retroalimentar.

No sentido contrário, o garoto biologicamente mais atrasado pode jogar menos, perder espaço e, eventualmente, ser dispensado antes que seu desenvolvimento permita revelar aquilo que ele poderia se tornar.

“Se uma criança relativamente mais velha ou biologicamente mais madura apresenta, naquele momento, maior força, velocidade, tamanho corporal ou capacidade de desempenho e, por isso, recebe melhores oportunidades de treinamento e competição, podemos criar um ciclo perverso: ela passa a ter mais oportunidades para se desenvolver justamente porque foi considerada mais talentosa inicialmente”, alertou Massa.

“Enquanto isso, uma criança relativamente mais nova ou maturacionalmente atrasada pode ser descartada antes de ter tempo suficiente para desenvolver e demonstrar aquilo que poderia vir a ser”, completou.

O sistema criado para encontrar talentos pode, portanto, também eliminá-los.

“A pergunta mais importante, portanto, não é apenas ‘quem foi selecionado?’, mas também ‘quem ficou de fora e por quê?’”, lembrou o professor.

Em uma coluna anterior, aqui na Máquina do Esporte, ao analisar a formação do Ajax, mencionei um levantamento do CIES Football Observatory que colocava o clube holandês no topo mundial em número de jogadores formados atuando nas ligas analisadas. Talvez seja necessário avançar naquela discussão.

LEIA MAIS: O Ajax e a formação integral no futebol: Desenvolvimento humano, excelência esportiva e sustentabilidade econômica

Mais do que perguntar quem forma mais, precisamos começar a perguntar como formamos e quantos talentos perdemos pelo caminho.

O Brasil é um caso especialmente interessante. Segundo o CIES, jogadores formados por aqui estão entre aqueles que mais geraram receitas internacionais com transferências na última década. Em valores absolutos, estamos atrás apenas da França e à frente da Espanha.

Mas tamanho não é sinônimo de eficiência.

Em outra coluna publicada aqui na Máquina do Esporte, ao comparar os processos de formação do Brasil e da França, defendi que talvez a diferença entre os dois países não esteja na existência de talentos, mas nos ambientes construídos para desenvolvê-los.

Somos um país com mais de 200 milhões de habitantes, enorme cultura futebolística, milhares de clubes e escolinhas, e uma quantidade extraordinária de crianças que sonham em se tornar jogadores.

LEIA MAIS: O Brasil tem talentos, enquanto a França construiu ambientes

A pergunta talvez não seja por que o Brasil produz tantos atletas. Deveríamos perguntar: diante de tamanha capacidade instalada, quantos poderíamos produzir?

Quando relativizamos o valor econômico gerado pelo tamanho da população, França e Espanha apresentam resultados muito superiores aos brasileiros. População, evidentemente, é apenas um dos denominadores possíveis. Número de praticantes, jovens federados e clubes efetivamente envolvidos na formação poderiam produzir análises ainda mais interessantes sobre a eficiência dos diferentes sistemas.

Não se trata de construir uma relação causal simplista. Cultura, investimento, qualidade dos treinadores, competições, oportunidades no profissional e características econômicas dos mercados interferem no resultado.

Mas vale uma hipótese: talvez o enorme volume de talentos disponíveis no Brasil esteja mascarando perdas importantes dentro do processo.

Quando estar atrás passa a parecer um problema

Há uma consequência ainda mais delicada dessa cultura.

Massa chamou atenção para uma dimensão que ultrapassa o desperdício de potencial esportivo.

“Os impactos podem ser muito maiores do que simplesmente perder um futuro jogador. Quando selecionamos e descartamos crianças muito precocemente, estamos interferindo não apenas na trajetória esportiva, mas também em uma fase fundamental do desenvolvimento humano”, enfatizou.

Quando diferenças naturais de desenvolvimento passam a determinar oportunidade, permanecer biologicamente “atrás” deixa de ser percebido apenas como uma característica daquele momento e passa a parecer um problema que precisa ser corrigido.

A ansiedade chega às famílias.

Se outro menino da mesma idade é maior, mais forte e mais rápido e, por isso, joga, é selecionado e recebe oportunidades, logo surge a sensação de que é preciso diminuir rapidamente essa distância.

Isso pode se manifestar em um aumento inadequado da carga de treinamento, especialização e cobrança precoces e, em situações particularmente preocupantes, na busca por intervenções para acelerar o crescimento e o desenvolvimento físico.

Entre elas está o uso do hormônio do crescimento, o GH. É fundamental separar indicação médica de utilização com finalidade esportiva. O hormônio do crescimento possui aplicações clínicas estabelecidas e deve ser prescrito e acompanhado por especialistas quando há diagnóstico que justifique seu uso. Outro contexto completamente diferente é transformar diferenças normais de crescimento e maturação em problemas médicos porque o adolescente precisa acompanhar fisicamente seus colegas/concorrentes no futebol.

Para o endocrinologista pediátrico Cristiano Rosa, formado e especializado pela USP de Ribeirão Preto (SP), é preciso tomar cuidado com a banalização dessa prática.

“Apesar disso, assiste-se hoje a uma banalização do uso do GH por jovens sem indicação clínica. Impulsionados, muitas vezes, por clubes, agentes, profissionais de saúde e pela ansiedade dos pais, esses atletas buscam uma suposta vantagem competitiva. No entanto, o abuso da substância impõe graves riscos à saúde. Como o GH acelera de forma desproporcional o crescimento ósseo, músculos e tendões podem não acompanhar esse estirão. O descompasso eleva drasticamente o risco de lesões severas e desequilíbrios articulares. Dentre os efeitos adversos mais temidos está a epifisiólise da cabeça do fêmur, uma lesão grave no quadril que pode deixar sequelas permanentes e encerrar precocemente a carreira do jovem atleta”, alertou.

Cristiano Rosa é endocrinologista pediátrico – Divulgação

E há um aspecto especialmente importante para a discussão sobre formação.

“Essa variação biológica gera uma vantagem competitiva temporária para os adolescentes de maturação precoce, um benefício puramente físico que raramente se mantém na idade adulta. Por isso, torna-se fundamental que os clubes realizem uma avaliação criteriosa da maturação puberal de cada jovem e adequem a carga de treinamento de acordo com o grau do desenvolvimento. Desta forma, as comissões técnicas evitam avaliações equivocadas de potencial e impedem o desperdício de talentos promissores”, comentou Rosa.

Há ainda uma dimensão que não pode ser ignorada: além dos riscos à saúde, o hormônio do crescimento integra a lista de substâncias proibidas da Agência Mundial Antidoping (Wada, na sigla em inglês).

Talvez o aspecto mais perturbador seja a mensagem que estamos transmitindo aos adolescentes: não basta esperar seu corpo se desenvolver; você precisa estar pronto quando o futebol decidir avaliá-lo.

A ciência recomenda respeitar o tempo do desenvolvimento. O sistema frequentemente exige estar pronto agora.

Formar também é saber esperar

O problema tampouco desaparece para aqueles que amadurecem precocemente.

Um jovem que durante anos resolve situações pela vantagem de tamanho, força ou velocidade também precisa de um ambiente capaz de desafiá-lo. Caso contrário, a superioridade física momentânea pode reduzir a necessidade de desenvolver soluções técnicas, cognitivas e táticas que serão indispensáveis quando as diferenças físicas diminuírem. Respeitar as etapas do desenvolvimento, portanto, não significa diminuir a exigência; significa oferecer a exigência adequada ao momento de desenvolvimento de cada atleta.

Vale ressaltar que o ambiente inclui as famílias. Clubes que trabalham com crianças e adolescentes não podem transferir integralmente aos pais a responsabilidade de compreender um sistema complexo sobre o qual frequentemente recebem pouca informação.

“Também precisamos discutir o impacto sobre as famílias. Quando um clube aborda uma criança muito jovem em outro estado e cria a expectativa de que ela possui um futuro excepcional no futebol, estamos diante de uma responsabilidade enorme. Algumas famílias podem mudar de cidade, abandonar empregos, romper redes de apoio e reorganizar toda a vida em torno de uma promessa cujo resultado ninguém pode garantir”, refletiu Marcelo Massa.

Orientar famílias sobre maturação, expectativas, carga, descanso, desenvolvimento de longo prazo e os critérios utilizados na avaliação deveria fazer parte de qualquer projeto sério de formação.

Talvez seja hora, portanto, de revermos também o significado de eficiência na base do nosso futebol.

Um sistema eficiente não deveria ser medido apenas pelo número de jogadores que vende ou coloca no profissional. Deveria, sim, considerar sua capacidade de transformar o potencial humano disponível em atletas preparados para chegar ao melhor que poderiam alcançar. O impacto desse racional não estaria restrito ao campo.

“Não basta perguntar quantos jogadores um sistema revelou. Precisamos perguntar quantos potenciais jogadores o próprio sistema impediu de revelar”, resumiu Massa.

Penso que os melhores sistemas de formação de atletas não sejam aqueles capazes de acertar cada vez mais cedo quem será o próximo grande jogador. Mas, sim, aqueles capazes de errar menos ao decidir cedo demais quem não será.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Ana Teresa Ratti possui mais de 20 anos de experiência corporativa, é mestra em Administração, e trabalha atualmente com gestão esportiva, sendo cofundadora da Vesta Gestão Esportiva

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