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Da liberdade à proibição: o caminho das bets no mercado brasileiro

Relembre como a cobertura da Máquina do Esporte registrou cada etapa do mercado de apostas no país

Clubes carregaram no discurso, buscando convencer governo a não restringir setor de apostas - Reprodução / Instagram (@vascodagama)

⚡ Máquina Fast
  • Presidente Lula assina medida provisória que proíbe apostas e cassinos online no Brasil, afetando clubes da Série A e bloqueando contratos de patrocínio a partir de outubro.
  • O mercado de apostas teve rápido ciclo de expansão desde a lei de 2018, passando por regulamentação em 2024 e início do mercado regulado em 2025, com impacto de bilhões no futebol brasileiro.
  • A decisão de suspensão do mercado regulado atende a pressões políticas e sociais, com o governo argumentando combate ao mercado ilegal e buscando apoio do eleitorado conservador.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Na tarde de 25 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a medida provisória que proíbe as bets no Brasil. A norma veta a operação de apostas e cassinos on-line e também a publicidade do setor. Os contratos de patrocínio devem ser encerrados a partir de 5 de outubro.

O impacto no futebol é imediato. Treze dos 20 clubes da Série A têm uma bet como patrocinadora máster. Os repasses do setor à elite deveriam chegar a R$ 1,1 bilhão nesta temporada.

A proibição fecha um ciclo curto e intenso. A lei que liberou as apostas esportivas é de dezembro de 2018. A regulamentação só veio com a MP de julho de 2023, e o mercado regulado começou de fato apenas em janeiro de 2025.

Foram 17 meses para construir as regras e 12 meses de operação regulada. Em nove meses de 2026, o mercado foi desmontado. Esta reportagem reconstrói esse caminho a partir de mais de 700 textos publicados pela Máquina do Esporte desde 2018, quando Michel Temer liberou as apostas esportivas em seu último ato como presidente do Brasil.

O limbo: lei aprovada, regras nunca vieram

As bets chegaram ao futebol brasileiro antes mesmo da lei. Em janeiro de 2018, a Bodog virou patrocinadora máster da Copa do Brasil, por cerca de US$ 1 milhão. Na mesma semana, mostramos que sites de apostas avançavam no futebol sem regulamentação, na Copinha, na Sul-Americana e no Corinthians.

Em 12 de dezembro de 2018, Michel Temer sancionou a Lei 13.756. A lei criou as apostas de quota fixa e deu ao Ministério da Fazenda dois anos, prorrogáveis por mais dois, para regulamentar como funcionariam as apostas. As empresas seguiram operando de sites no exterior, sem o dinheiro remunerar o país.

A porta aberta bastou para os clubes.

Em janeiro de 2019, o Fortaleza estampou a NetBet e virou o primeiro clube com bet na camisa após a lei. Em julho, metade da Série A já tinha marcas do setor. Em outubro, com o São Paulo, a fatia chegou a 65% dos clubes da elite.

O governo abriu consulta pública em julho de 2019 e estimou que brasileiros apostaram R$ 4 bilhões em sites estrangeiros em 2018. No 2º Fórum Máquina do Esporte, em novembro, especialistas calcularam que a regulamentação poderia injetar ao menos R$ 100 milhões na Série A. As regras, porém, não saíram.

2022: donas do futebol, ainda na ilegalidade

O mercado começa a se consolidar, mesmo na informalidade, a partir de 2022, quando o cenário é outro: as bets dominam o futebol, especialmente por conta do lockdown causado pela pandemia. Em fevereiro daquele, só o Palmeiras ficou sem uma marca de apostas na camisa entre os times da Série A.

Mas o patrocínio foi além das camisas. A Sportingbet comprou os naming rights da Série B por três temporadas. A Galera.bet virou patrocinadora do Brasileirão até 2024. A Pixbet ficou com a última cota da Globo para a Copa do Catar.

No fim do ano, a Betnacional, que havia recém-chegado ao mercado, fechou a cota do futebol da Globo em 2023 por R$ 240 milhões. A Betano levou o title sponsor da Copa do Brasil, notícia que você viu primeiro na Máquina do Esporte.

Enquanto isso, o governo Bolsonaro andava na direção oposta. Em agosto, o Ministério da Justiça exigiu os contratos com casas de apostas de 40 clubes das Séries A e B, da CBF e da Globo. A Senacon falou em atuação ilegal das empresas.

Em 12 de dezembro, o último prazo da lei venceu. Jair Bolsonaro não assinou a regulamentação. Mais tarde, a Máquina do Esporte apurou que a decisão buscava não desagradar o eleitorado evangélico, ainda no cenário pré-eleições de 2022.

2023: o escândalo que destravou as regras

O novo governo Lula chegou com pressa por aumentar a arrecadação, e isso abriu o caminho para a regulamentação das apostas. Em março, Lula disse que taxaria as apostas para compensar a nova faixa de isenção do IR. Em abril, a Fazenda estimou perdas de R$ 6 bilhões por ano sem regulamentação.

Mas o que acelerou tudo foi realmente a Operação Penalidade Máxima, do Ministério Público de Goiás. Em fevereiro, a primeira fase apurou manipulação em jogos da Série B. Em abril, a segunda chegou à Série A. Em maio, Flavio Dino mandou a PF investigar, e a Câmara instalou uma CPI.

O estrago na imagem foi medido: 66,8% dos torcedores disseram ter perdido a confiança na lisura do futebol. Ainda assim, o dinheiro seguiu entrando. As bets patrocinavam 69% dos 124 clubes das quatro divisões, e o número de empresas no país cresceu 360% entre 2020 e 2022.

Os clubes entraram na disputa pelo bolo. A CBF pediu mais recursos, mas saiu da discussão após rejeição dos grandes. Estes levaram à Fazenda o temor de perder receita.

Em 25 de julho, Lula publicou a MP das Apostas, com taxação de 18% sobre o GGR. O projeto de lei que se seguiu passou pela Câmara em setembro. No Senado, a taxa caiu para 12%. Os deputados devolveram os cassinos on-line ao texto, e a Lei 14.790 foi sancionada no último dia do ano.

Em paralelo, começava uma briga federativa. Em agosto, a Loterj regulamentou as apostas no Rio e abriu brecha para apostadores de todo o país. A Fazenda acionou a AGU em resposta.

2024: regras no papel, dinheiro recorde

O ano começou com o maior contrato da história do futebol brasileiro até então: R$ 370 milhões da VaideBet ao Corinthians. Em fevereiro, até o Grupo Globo se credenciou para operar apostas. Em julho, a Série B chegou a 100% dos clubes com patrocínio de bets.

Enquanto isso, a Fazenda montava o mercado por portarias. Em abril, proibiu bônus e limitou os pagamentos a Pix, débito e transferência. Em maio, saiu a portaria de autorização das empresas. Em julho, o Jogo do Tigrinho foi regulamentado. Em agosto, 113 empresas pediram licença.

Isso, porém, trouxe uma corrida estadual para liberar as apostas. A disputa com o Rio de Janeiro escalou. A Anatel chegou a bloquear no estado os sites sem licença da Loterj, em meio a protesto das entidades nacionais do setor.

O segundo semestre trouxe um pouco mais do lado sombrio das apostas sem regulamentação.

A PF investigou a Esportes da Sorte, patrocinadora de Corinthians e Palmeiras. O Banco Central apontou que as bets receberam R$ 3 bilhões de beneficiários do Bolsa Família só em agosto. Em novembro, o STF proibiu o uso do benefício em apostas, e Bruno Henrique, do Flamengo, virou alvo da operação Spot-Fixing.

Com a regulamentação, começou a surgir as casas autorizadas a atuar. E a primeira lista de autorizadas deixou a Esportes da Sorte de fora. A Fazenda admitiu erro e revisou a lista. Em outubro, a Anatel mandou bloquear mais de 2 mil sites ilegais. Na virada do ano, várias bets se despediram do futebol brasileiro.

2025: a era de ouro sob pressão

O mercado regulado começou em 1º de janeiro de 2025. A Máquina do Esporte explicou o que isso mudava para as casas de apostas. Esportes da Sorte e Pixbet, patrocinadoras de Corinthians e Flamengo, só se regularizaram depois, uma via Justiça e outra com autorização provisória.

Nos gramados, era o auge do patrocínio. Em fevereiro, as bets miravam R$ 1 bilhão em patrocínio no Brasileirão. No mesmo mês, a Máquina do Esporte perguntou até quando duraria a “era de ouro”. No primeiro semestre, as apostas movimentaram R$ 17,4 bilhões e engajaram quase 12% dos adultos.

A pressão veio de várias frentes. O STF barrou a operação nacional das bets da Loterj. A Fazenda suspendeu Flabet, Pixbet e as bets do SBT e da Caixa. O caso VaideBet levou ao indiciamento do presidente do Corinthians, Augusto Melo.

Em maio, o Senado aprovou restrições à publicidade em estádios e com atletas e influenciadores. O projeto causou pânico nos clubes.

Em 12 de junho, três fatos marcaram o dia. O governo publicou uma MP que elevava o imposto das bets de 12% para 18%. O relatório da CPI das Bets foi rejeitado no Senado. E o IBJR estimou o mercado ilegal em até 51%.

Em outubro, o governo recuou do aumento de imposto. O alívio foi curto. Em 29 de dezembro, Lula sancionou um aumento escalonado até 2028.

2026: da consolidação à proibição

O primeiro balanço do mercado regulado parecia um argumento a favor do setor. Em 2025, o governo bloqueou 25 mil sites e arrecadou R$ 8,8 bilhões. Em março de 2026, um raio-x mostrou 25 milhões de CPFs apostando e R$ 36,9 bilhões em jogo.

O primeiro sinal da virada veio em 9 de março. Lula defendeu acabar com o Jogo do Tigrinho, e as entidades do setor falaram em retrocesso. No mesmo mês, a Câmara derrubou a Cide-Bets. Em maio, as empresas já reestruturavam seus investimentos.

A Copa do Mundo acelerou o processo de fritura das apostas.

Após os excessos das propagandas das bets no torneio, o governo anunciou que proibiria comentaristas e influenciadores de induzirem apostas. A Prefeitura do Rio vetou publicidade de apostas em espaços públicos. Em agosto, beneficiários de programas sociais foram impedidos de abrir conta.

O mercado ilegal seguia vivo. Uma reportagem mostrou empresas que usaram a licença de um município de 2,3 mil habitantes para movimentar até R$ 50 bilhões.

Em 16 de setembro, o UOL revelou que o governo preparava uma MP contra o setor. No dia seguinte, a Máquina do Esporte mostrou que o mercado corria risco de voltar à ilegalidade às vésperas da eleição. Fontes do setor viram na medida um aceno ao eleitorado conservador.

Os clubes do Rio e de São Paulo reagiram com a nota “O Fim do Futebol Brasileiro”. O discurso não comoveu os torcedores. O Flamengo propôs combater as bets ilegais no lugar do veto total. Em 24 de setembro, Lula subiu o tom, e a Câmara de São Paulo aprovou em primeiro turno a proibição de publicidade em eventos esportivos. No dia seguinte, veio a MP.

O que vem agora

A MP tem prazos curtos. Os apostadores têm até as 23h59 de 5 de outubro, um dia após o primeiro turno da eleição, para pedir o resgate dos saldos. As casas devem devolver o dinheiro entre 9 e 14 de outubro. Depois disso, sites e aplicativos serão bloqueados.

O governo também enviou ao Congresso um projeto que torna crime a oferta de apostas on-line, com pena de quatro a seis anos. Para a publicidade de bets, a pena prevista é de dois a quatro anos.

Os clubes das Séries A e B negociam com o governo, com articulação da CBF. A alternativa em discussão é uma linha de crédito subsidiada pelo BNDES. A tendência é que o socorro só saia depois do segundo turno, em 25 de outubro. Segundo levantamento do jornal O Globo, os contratos com bets representam em média 7% das receitas dos clubes da elite.

O setor aposta no argumento do mercado ilegal. Para a ANJL, proibir não elimina a demanda, que migraria para plataformas estrangeiras sem fiscalização.

Há um precedente histórico. Nos anos 1990, as Leis Zico e Pelé liberaram os bingos com a promessa de financiar o esporte. A Lei Maguito Vilella os proibiu em 2000, e o apagão previsto pelas entidades esportivas não aconteceu.

O Congresso tem 120 dias para votar a MP, o que deve ocorrer entre janeiro e fevereiro de 2027. A partir da publicação no Diário Oficial, a proibição vale como lei até essa votação.

Linha do tempo

Alguns dos marcos do mercado de apostas no Brasil, pela cobertura da Máquina do Esporte.

DataO que aconteceuMatéria
23/01/2018Bodog vira patrocinadora máster da Copa do BrasilLink
12/12/2018Temer sanciona a Lei 13.756, que libera as apostas esportivasLink
30/01/2019Fortaleza é o primeiro clube com bet na camisa após a leiLink
04/10/2019Bets chegam a 65% dos clubes da Série ALink
27/02/2022Só o Palmeiras fica sem bet na Série ALink
31/08/2022Ministério da Justiça exige contratos com bets de clubes, CBF e GloboLink
12/12/2022Prazo vence sem que Bolsonaro assine a regulamentaçãoLink
22/02/2023Penalidade Máxima apura manipulação na Série BLink
14/04/2023Bets patrocinam 69% dos 124 clubes das quatro divisõesLink
17/05/2023Câmara instala CPI da Manipulação de ResultadosLink
25/07/2023Lula publica a MP das Apostas, com taxação de 18%Link
29/08/2023Loterj regulamenta apostas no Rio e abre disputa com a UniãoLink
31/12/2023Sancionada a Lei 14.790, que regulamenta as apostasLink
07/01/2024VaideBet fecha R$ 370 milhões com o CorinthiansLink
22/05/2024Fazenda publica a portaria de autorização das empresasLink
21/08/2024113 empresas pedem licença para operarLink
04/09/2024PF investiga a Esportes da SorteLink
10/10/2024Anatel manda bloquear mais de 2 mil sites ilegaisLink
13/11/2024STF proíbe uso do Bolsa Família em apostasLink
02/01/2025Começa o mercado reguladoLink
19/02/2025Bets miram R$ 1 bilhão em patrocínio no BrasileirãoLink
28/05/2025Senado restringe publicidade de apostasLink
12/06/2025MP eleva imposto para 18%; relatório da CPI das Bets é rejeitadoLink
07/10/2025Governo recua do aumento de impostoLink
29/12/2025Lula sanciona aumento escalonado de imposto até 2028Link
21/01/2026Primeiro ano regulado: R$ 8,8 bilhões arrecadadosLink
09/03/2026Lula defende acabar com o Jogo do TigrinhoLink
09/07/2026Após a Copa, governo anuncia veto a influenciadores que induzem apostasLink
17/09/2026Mercado corre risco de voltar à ilegalidadeLink
25/09/2026Lula assina a MP que proíbe as betsLink