Para a Copa do Mundo de 2026, Guadalajara promoverá um posicionamento que mescla a sua tradição no futebol mexicano com inovações tecnológicas voltadas para a sustentabilidade. A capital do estado de Jalisco ainda se prepara para alcançar um feito histórico.
Isso porque Guadalajara, assim como a Cidade do México, que receberam jogos dos Mundiais de 1970 e 1986, serão as primeiras cidades do mundo a sediar partidas em três edições diferentes da Copa do Mundo.
Além disso, Guadalajara projeta um impacto econômico entre US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões na região, impulsionado por uma expectativa de receber cerca de 3 milhões de visitantes no estado. No aspecto simbólico, a cidade também busca equilibrar o peso de ser considerada a “guardiã espiritual” do futebol mexicano com a necessidade de modernizar sua infraestrutura e garantir segurança em um território historicamente desafiador.
Cultura esportiva
Guadalajara é reconhecida como um polo histórico do esporte no México, principalmente pela paixão dos torcedores locais pelo futebol. A cidade abriga dois dos clubes mais tradicionais da Liga MX, o Atlas e o Club Deportivo Guadalajara, popularmente conhecido como Chivas.
Este último, em particular, detém uma relevância de mercado considerável, com estudos de marketing estimando uma base de 33,8 milhões de torcedores, o que o colocaria entre as maiores torcidas do mundo.
A identidade do Chivas é um ativo comercial poderoso, baseada na política única de atuar apenas com atletas mexicanos, o que projeta o clube como um embaixador da identidade nacional. E a rivalidade local entre Atlas e Chivas, batizada de “Clásico Tapatío”, movimenta a economia da cidade e enche as arenas.
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Para o público brasileiro, Guadalajara guarda uma conexão afetiva especial. A cidade foi o palco central da seleção brasileira em 1970, criando uma relação simbiótica tão forte que resultou na construção da “Plaza Brasil” em frente ao Estádio Jalisco.
Em 2026, a organização local busca reativar essa memória histórica como um ativo de marketing, vendendo a cidade como um local em que lendas são consagradas, mesmo com o fato de que a seleção brasileira jogará a fase de grupos nos Estados Unidos.
Além do futebol, a cidade consolidou uma cultura multiesportiva. Guadalajara possui tradição no beisebol, com o Charros de Jalisco, e no boxe, sendo berço de pugilistas campeões mundiais. A região também se firmou no Circuito Mundial de Tênis com o Guadalajara Open Akron, torneio WTA 500.
Negócios
O cenário de negócios do esporte de Guadalajara é desenvolvido e dominado por grandes grupos empresariais. O destaque fica por conta do Grupo Omnilife, empresa multinacional voltada para o segmento de nutrição e beleza, que é de propriedade da família Vergara, a mesma que controla o Chivas.
A estratégia comercial local é marcada por parcerias de longo prazo. Um exemplo é a Akron, do setor automotivo e de lubrificantes. Além de deter os naming rights do estádio do Chivas e do torneio de tênis da WTA, a marca apoia diversas equipes locais, criando uma forte presença no cenário esportivo da região.
Outras marcas, como o banco Santander e o Grupo Modelo, também ativam o mercado local. Além disso, a preparação para a cidade receber a Copa do Mundo também envolveu uma reengenharia de ativos. A Colômbia, por exemplo, já confirmou que utilizará as instalações do Chivas, incluindo o Centro de Treinamento Verde Valle, como base operacional durante o torneio, gerando receitas e ocupação hoteleira contínua para além dos dias de jogos.
Estádio Akron
O palco de Guadalajara para a Copa do Mundo será o Estádio Akron, que adotará o nome genérico de Estádio Guadalajara durante o evento por conta das normas da Fifa. Diferentemente do Azteca, que exigiu reformas estruturais, o Akron é uma arena moderna inaugurada em 2010, projetada para simular um vulcão coberto de grama e integrar-se à paisagem.
A sustentabilidade é o pilar central da operação do estádio. O local opera um sistema de “tanques de tormentas” para captação de água pluvial e tratamento de esgoto in loco, reutilizando a água para irrigação e limpeza, além de contar com mictórios 100% secos.
No entanto, a inovação mais chamativa para 2026 é o projeto “Huvster”. Em parceria com a startup Verde Compacto, o estádio instalou uma fazenda vertical dentro de suas instalações.
Utilizando hidroponia em contêineres, o sistema cultiva vegetais que serão utilizados nas cozinhas das áreas vips e na nutrição dos atletas, criando um conceito de “Farm-to-Stadium” que reduz a pegada de carbono logística. Para o Mundial, o clube ainda anunciou um investimento adicional de cerca de US$ 12 milhões em modernizações de conectividade, iluminação e gramado.
Infraestrutura
O principal desafio logístico de Guadalajara será a conexão entre o centro da cidade e a zona de Zapopan, onde fica o estádio. Para resolver isso, o governo implementou o “Mi Macro Periférico”, um sistema de BRT de 41,6 quilômetros que circunda a metrópole e conta com uma estação dedicada conectada ao estádio por passarelas de pedestres. Além disso, a conclusão da Linha 4 do BRT e a expansão do aeroporto internacional buscam suportar o fluxo de turistas.
No setor de hospitalidade, a cidade enfrenta um “teste de estresse” severo. Relatórios de mercado indicam que Guadalajara apresenta a maior projeção de aumento de tarifas entre todas as cidades-sede, com um salto estimado de 385% nas diárias durante os jogos, elevando o preço médio para mais de US$ 510.
Segurança e legado
A segurança na cidade permanece como um ponto de atenção crítico, dado que o estado de Jalisco é base de operações de organizações criminosas complexas. Para mitigar riscos, foi desenhada uma arquitetura de segurança multicamadas, conhecida como “Anel de Aço”, que inclui vigilância via centro de comando C5 modernizado, uso de helicópteros e restrição de veículos no perímetro do estádio. A análise de risco sugere uma “trégua tácita” durante o evento para evitar confrontos de alta visibilidade.
Com o objetivo de deixar um legado que ultrapasse o turismo, o governo de Jalisco lançou um programa social para reabilitar 270 campos de futebol amador em todo o estado, utilizando o esporte como ferramenta de prevenção ao crime e coesão social. Além disso, iniciativas como o “Startup Building” buscam transformar a visibilidade da Copa em aceleração para empresas de tecnologia esportiva e inovação.
